Propriedade vocabular

Os herdeiros percebem

      «Hoje, Martha e os quatro filhos — Edmund [Klein, médico especialista no tratamento do cancro da pele, galardoado com o Prémio Lasker] morreu há dez anos e a filha mais velha Judith faleceu há três — têm um espólio de valor incalculado, que, em finais de Junho, e pela primeira vez, saiu dos cofres de um banco direitinho para Anderson Gallery, em Buffalo» («O anjo de Dalí», Ricardo Lourenço, Expresso, 25.07.2009, p. 18). Mais valia, aos herdeiros de Edmund Klein, que os desenhos oferecidos por Dalí fossem de valor incalculável. E é a dúvida que nos fica: se o jornalista escreveu incalculado, que só significa que ainda não foi calculado, e pode revelar-se sem grande valor, porque pensa que é o mesmo que incalculável, muito grande, enorme.

Alemanha guilhermiana

Os vv, os ww e os gg


      O original, inglês, falava em «Wilhelminian Germany». O tradutor achou que correcto seria «Alemanha Vilhelminiana». Friedrich Wilhelm Viktor Albrecht Hohenzollern — era o nome em alemão. Entre nós, ficou conhecido como Guilherme II (1859―1941). Logo, a era designar-se-á como guilhermiana.

Acentuações das reduções


A pólio serve

      Só ontem me lembrei deste exemplo, que teria sido útil para explicar porque se deve grafar hétero e não *hetero. A acentuação desta e de outras reduções, escrevi então, segue a regra oficial. E o exemplo que deveria ter aduzido é o da redução do vocábulo «poliomielite», pólio, pois que já aparece registada nos dicionários mais comuns. A imagem é da capa de um opúsculo sobre a vacina contra a poliomielite (antipólio).

Gentílicos de topónimos compostos

Nada mudou

      Cara Luísa Pinto, tudo continua na mesma, pois as regras não mudaram. Consultando o Vocabulário da Língua Portuguesa, vemos que Rebelo Gonçalves regista Ponta-Delgadenses, Porto-Riquenhos, Porto-Santenses, Ponta-Solenses, Vila-Bispenses, Vila-Condenses, Vila-Florenses, Vila-Franquenses, Vila-Novenses, Vila-Realenses, Vila-Riquenses, Vila-Verdenses. Assim, o que vemos é que, se o topónimo é composto de dois vocábulos, o hífen é obrigatório no gentílico. O desconhecimento das excepções é que leva ao erro de se escrever *neo-zelandês em vez de neozelandês. Em relação a Nova Iorque, há dois gentílicos: noviorquino e nova-iorquino.

Ortografia: «alto-funcionário»

De remissão em remissão


      «Na lista encontram-se ainda vários funcionários do Ministério da Saúde, em cargos de chefia de serviços, professores catedráticos, controladores de tráfego aéreo, altos-funcionários diplomáticos e uma assessora do conselho de administração da Euronext Lisbon, a Bolsa de Valores de Lisboa» («Função Pública tem menos milionários», Diana Ramos, Correio da Manhã, 7.08.2009, p. 22).
       Comecei por abordar a grafia de alto-comissário, ainda vacilante na nossa imprensa, mais tarde recomendei que se grafasse alto-responsável. Hoje é a vez de reconhecer que também se deve grafar alto-funcionário e de responder aos dois comentários ao texto em que abordei a ortografia de «alto-responsável». Não creio que seja de distinguir entre alto-responsável e alto responsável, pois não me parece que a primeira alguma vez designe um posto específico. É tão inespecífico, pelo menos, como o termo «oficial» para designar as graduações na hierarquia militar.

Repetição de verbos

Como revêem os outros


      Cada revisor tem as suas obsessões. Aquele nunca deixa passar duas formas verbais próximas do mesmo verbo. Por exemplo a frase: «A verdade é que as relações entre o clube minhoto e o Cruzeiro são boas, sendo que o jogador é representado por André Cruz, antigo defesa do Sporting e muito próximo de Carlos Freitas, manager do Sp. Braga.» Estão a ver? Sendo, é. Fica possesso. Quase rasga o papel a fazer a emenda. Respira de alívio quando vê no papel: «A verdade é que as relações entre o clube minhoto e o Cruzeiro são boas, sendo o jogador representado por André Cruz, antigo defesa do Sporting e muito próximo de Carlos Freitas, manager do Sp. Braga.» Outra: «O treinador teve de ter muita paciência perante as indefinições que lhe surgiram à frente desde o tiro de partida, começando por uma pré-época que estava pouco mais que desenhada e um grupo de trabalho extenso, situação ainda não resolvida, apesar de, com a saída de César Peixoto, o plantel ter ficado com 29 elementos.» Perderam o fôlego a meio? O tal revisor perdeu a paciência no início: teve, ter. Emendou logo: «O treinador teve de ser muito paciente perante as indefinições que lhe surgiram à frente desde o tiro de partida, começando por uma pré-época que estava pouco mais que desenhada e um grupo de trabalho extenso, situação ainda não resolvida, apesar de, com a saída de César Peixoto, o plantel ter ficado com 29 elementos.»

Sobre «pirolito»

Imagem: http://www.oesteonline.pt/


Caixa de pirolitos


      O editor-chefe não queria desconfiar, claro, mas preferiu ver com os próprios olhos como se escrevia «pirolito». Com o, com u? Confessou depois que antes de perguntar tinha consultado a Wikipédia (muito popular ali), e que só aparecia com u: o pirulito, chupa-chupa, dos Brasileiros. O pirolito era uma bebida gasosa (continha água, ácido cítrico e gás carbónico) e a garrafa tinha a particularidade de possuir no interior uma esfera de vidro, um berlinde, que servia de tampa, pois não tinha nem rolha nem cápsula. Nem rótulo! Na década de 1950, porém, os fabricantes de pirolitos foram obrigados por lei a introduzir melhoramentos e a acatar outras exigências sanitárias, tendo então sido considerado prejudicial para a saúde pública o uso deste sistema de fecho, o que levou ao encerramento de muitas fábricas, e havia várias fábricas em todo o País.
      Porquê, e isto é o que mais nos interessa, com o e não com u? Por tradição, por ser esse o uso. O que os lexicógrafos sabem é que a origem do vocábulo «pirolito» é obscura, provindo talvez de «pirlito», forma epentética de «pilrito». Por causa do sabor ácido? Não sei. E, a propósito, estranho a conta em que se tem o pilrito, um fruto vermelho e globoso, no adagiário: Pilriteiro, dás pilritos/Porque não dás coisa boa?/Cada qual dá o que tem/Conforme a sua pessoa. É que antigamente a polpa dos pilritos era usada, depois de seca e moída, para misturar na farinha com que se fazia o pão, o caroço chegou a ser utilizado, depois de torrado, como substituto do café, as flores eram consumidas em saladas e em tisanas cardiotonificantes (ah!, sim, apropriei-me agora do termo, que a língua italiana tem) e ainda hoje se fabrica licor de pilrito. Até a madeira, rija e resistente, do pilriteiro (Crataegus monogyna) é boa, tendo sido antigamente usada nos cepos dos suplícios, e ainda hoje é utilizada no Barlavento algarvio como cavalo nas podas de pereiras, nespereiras e outras árvores de fruto da família a que pertence (as Rosáceas, família botânica a que pertencem espécies como as macieiras, as ameixeiras, os pessegueiros, etc.).

Léxico: «barreira de segurança»


Só a segurança está certa


      «Houve quem aproveitasse a ausência de autocarros para espreitar a prova, outros seguiram sempre “pendurados” nas grades de segurança o contra-relógio, alguns à procura da melhor fotografia ou somente a apoiar os atletas» («Festa da Volta em Lisboa seduz até quem não aprecia ciclismo», Elisabete Silva, Diário de Notícias, 6.08.2009, p. 36). A jornalista que vá a uma loja ou uma oficina de serralharia e peça grades de segurança e verá que lhe perguntam logo se as quer de lagarto, de enrolar ou fixas, para porta ou janela. Não, não, o que se vê na imagem e a jornalista queria escrever é barreiras de segurança.

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