Confusões: «júri» e «jurado»

O mal ainda cá está

      «Victoria Beckham já teve várias vidas. Depois de ter sido cantora, modelo, mãe de família e designer de moda surge agora como júri de um dos mais famosos programas da televisão americana, o American Idol» («Victoria no ‘American Idol’», Diário de Notícias, 7.08.2009, p. 60). Há erros e erros. Este é, sem qualquer dúvida, um dos mais estúpidos. E há quem continue a fazê-lo diariamente. Se calhar, quem sabe, alguém que julga que não tem nada a aprender.



«De baixo custo» e não «low cost»

Não custou nada, aposto

      «A companhia aérea de baixo custo Ryanair anunciou ontem o lançamento de três novas rotas a partir do Aeroporto Francisco Sá Carneiro e uma delas — Porto-Faro — representa a sua primeira ligação doméstica em Portugal» («Ryanair começa a voar entre o Porto e Faro», Aníbal Rodrigues, Público, 6.08.2009, p. 20). Só uma pergunta: custou muito, causou muitos engulhos escrever de baixo custo em vez de low cost? Os colegas da redacção gozaram muito? Continuem a ser assim sensatos.




Verbo «tuitar»

É oficial

      Não é que os jornalistas não gostem de postar e de blogar, mas ultimamente apreciam mesmo é tuitar (e, por vezes, mesmo twitar): «Dizem-me que houve conselheiros nacionais do PSD a tuitar durante a reunião em que se discutiam as listas. […] Naquela reunião do PSD, o deputado Ricardo Almeida tuitou para o mundo (em tempo real e, repito, com as portas fechadas)» («Políticos estão mais curtos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 6.08.2009, p. 56). «Apesar de todos os percalços, o deputado Jorge Seguro, um dos organizadores da blogconf, ainda arranjou boa disposição para twitar: “Não me convidem para pôr vídeos na Internet”» («Uma blogconf com Sócrates sem choque tecnológico», Nuno Simas, Público, 28.07.2009, p. 5). É claro que blogam há mais tempo («Felgueiras também bloga», M. G., Diário de Notícias, 27.09.2005) e continuam a postar («Quando os cidadãos ‘postam’ a cidade», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 27.04.2009). Por uma vez, lá descortinam a vantagem de aportuguesar os termos relativos às novas tecnologias.

Erros na televisão


Mais vale dormir


      Há muitas semanas que não via televisão. Ontem, dediquei uns minutos a esta actividade. Na Sic Notícias, Ana Lourenço entrevistava, a propósito do caso do Avastin no Hospital de Santa Maria, o oftalmologista Miguel Burnier, presidente do Departamento de Oftalmologia da Universidade de McGill (de Montreal), e confundiu medicamentos off-label use, expressão usada pelo médico, com medicamentos genéricos. Ainda fez um trejeito quando Miguel Burnier a corrigiu, mas já não havia nada a fazer. Mudei para a RTPN, em que Andrea Neves moderava um debate sobre a gripe A e, a determinada altura, perguntou a Filipe Froes, pneumologista do Hospital Pulido Valente e consultor da Direcção-Geral da Saúde, se o álcool em gel, produto utilizado na higienização das mãos para evitar que o vírus seja passado de pessoa para pessoa, causa habituação (!). Pergunta que também um homem da Idade Média faria. O médico disparou logo que o álcool não era para beber. Apanhada em flagrante, a jornalista lamentou ter feito aquela pergunta, mas já estava feita.

Pontuação

Sincopadas

No último dia de Julho, os revisores do Le Monde perguntavam aos leitores se na frase que se segue, uma legenda a uma fotografia em que aparecia o deputado socialista francês Julien Dray, publicada no dia 10 no Le Figaro, as vírgulas se justificavam: «Le député socialiste, Julien Dray, à Paris, le 8 mai dernier.» Em certo jornal nosso, todos os dias se lêem frases semelhantes, embora algumas não vejam a luz do dia. Valha um exemplo (que só diverge por não ser, como a legenda do Le Figaro, uma frase nominal): «A garantia foi dada, ontem, ao final da tarde, por Washington Alves, pai do jogador, em declarações ao nosso jornal.»

«Porno» flexiona?

Há quem defenda


    Sabe quem é Sérgio Nogueira? Então, em princípio, o leitor não é brasileiro. O professor Sérgio Nogueira é jurado no concurso Soletrando e no programa Caldeirão do Huck, na TV Globo, assim como consultor de língua portuguesa daquele canal e dos jornais O Globo e Extra. Apresentado o homem, apresento o facto. No blogue de Sérgio Nogueira, Dicas de Português, lê-se esta questão: «Alugou vários filmes …………… (pornô OU pornôs).» Ora adivinhem lá a resposta. Exactamente: «Alugou vários filmes pornôs.» Convicção ou não, mas é bom que seja, lia-se o mesmo na edição de ontem do Diário de Notícias: «Professor e alunos em vídeos pornos» (Diário de Notícias, 5.08.2009, p. 27).

«Zeppelin» e «zepelim»


Balão-de-ensaio


      «No domingo, dirigentes do PND-Madeira tentaram colocar no ar um zeppelin autocomandado com sete metros de comprimento para sobrevoar a festa, durante as intervenções políticas» («PSD-Madeira processa responsáveis por zeppelin do PND», Público, 28.07.2009, p. 5). Mas porquê autocomandado? Não me faltam motivos para preferir a forma como escrevem no Diário de Notícias: «Para além das afirmações de Alberto João Jardim que irritaram Teixeira dos Santos, ministro da Economia e Finanças, continua a saga em torno do zepelim do PND atingido por três tiros de uma arma de calibre ilegal a poucos metros do recinto onde Alberto João Jardim discursava para um público estimado em 40 mil» («PSD processa responsáveis pelo dirigível abatido», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 28.07.2009, p. 9). É mais um caso, este dos balões dirigíveis de tipo rígido e habitualmente de grandes dimensões, em forma de charuto, de nome comum derivado de nome próprio. No caso, o aeronauta alemão conde Ferdinand von Zeppelin (1838–1917).

Sujeito composto e conjunção ou

Não é o mesmo

«Distracção ou cansaço estão na origem de acidente em Bordéus» (Helder Robalo, Diário de Notícias, 5.08.2009, p. 16). O facto expresso pelo verbo tem ou não tem uma ideia de alternativa? Então, nestes casos, em que o sujeito composto é formado de substantivos no singular ligados pelas conjunções ou, nem, o verbo costuma ir para o singular. Só vai para o plural se o facto expresso pelo verbo puder ser atribuído na globalidade e não em alternativa: Nem a distracção nem o cansaço terão levado ao acidente, mas sim falha mecânica.

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