«VOLP»: correcções

Primeiro encarte

«Já está dito, e deve ser geralmente sabido, que, por motivos igualmente reconhecidos, raramente haverá trabalho literário que mais susceptível seja de correcções e aditamentos do que o dicionário de uma língua», escreveu Cândido de Figueiredo na 4.ª edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa (Lisboa, 1925). A Academia Brasileira de Letras usou a afirmação do dicionarista português numa epígrafe à corrigenda (na verdade, lista de correcções e aditamentos) que acabou de publicar a verbetes da 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP). Nada de significativo: são três páginas de correcções a erros de revisão, num total de 0,04 % de um universo lexical de quase 390 mil palavras, mais duas páginas de aditamentos. Ad Immortalitatem.

Léxico: «sorte»

Limpar a sorte

      «Alguns moradores encomendavam-lhe serviços [a Fernando Cruz, o «homem bom» que andou 16 anos fugido no monte de Nossa Senhora da Lapa, em Anissó, Vieira do Minho]. “Limpa-me esta sorte, limpa-me aquela sorte.” Sorte. Em Vieira do Minho, é sinónimo de propriedade» («“Prisão para quê? Prisão já ele teve!”», Ana Cristina Pereira, Público/P2, 4.08.2009, p. 6). Não é só em Vieira do Minho, pois que não se trata de um localismo, antes de um regionalismo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o: «Sorte regionalismo faixa de terreno que coube a alguém em partilhas.»

Guarda-civil e Guardia Civil

Vale uma coisa pela outra

      «O governante socialista, que na entrevista voltou a dizer que nunca mais haverá diálogo com a ETA, referiu que as pessoas que colocaram a bomba no veículo de patrulha dos guardas-civis podem ter saído da ilha com passaportes europeus falsificados ou então continuam ainda ali» («Etarras passaram-se por turistas», P. V., Diário de Notícias, 4.08.2009, p. 25). Creio que nunca antes tinha lido grafado assim, mas é coerente. E já não grafam Guardia Civil em itálico: «Na altura da explosão estavam 120 pessoas a dormir naquela casa quartel da Guardia Civil, 41 das quais eram crianças.» E talvez ainda mais coerente é o que fazem (ou fizeram neste artigo, pois nos jornais tem-se memória curta) no Público: «Atentado atribuído à ETA causou 65 feridos e danos em edifício da Guarda Civil de Burgos» (Isabel Gorjão Santos, Público, 30.07.2009, p. 14). Nada de que não se tivessem lembrado de fazer no Diário de Notícias, só que depois esqueceram-se: «Até aqui, as patrulhas da costa limitavam-se às que a Guarda Civil espanhola iniciou no passado dia 22, entre Vigo e Mauritânia, e que já impediram a saída de muitos barcos daquele país» («Nove países europeus vigiam costa de África», Maria João Caetano, 30.05.2006, p. 22). Mas ainda em relação a guarda-civil: quatro páginas atrás, escreveram assim: «Guardas florestais em protesto quinta-feira» (Diário de Notícias, 4.08.2009, p. 21).

Tradução: «maleficiary»

Do inglês é pior

      «Today, on the contrary, technology is the beneficiary, and science the maleficiary.» O tradutor quis enriquecer a língua: «Nos nossos dias, pelo contrário, a tecnologia é a beneficiária, e a ciência a maleficiária.» Era um bom par, sim senhor: beneficiário/maleficiário. Até temos, é verdade, o verbo maleficiar, «fazer mal a; prejudicar». Temos, até, o adjectivo maleficente: que faz mal, maléfico. Na frase, «prejudicada» é o melhor termo. Não se pode ir assim atrás do inglês sem reflectir ou averiguar se existe o termo na língua portuguesa. No caso, por outro lado, também não era necessário adaptar o anglicismo.

«Sob quaisquer condições»?

Do inglês é melhor

      «O ministro do Interior de Espanha, Alfredo Pérez Rubalcaba, assegurou ontem que o governo não negociará com a ETA sob quaisquer condições» («“Não haverá fim negociado da ETA”», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 3.08.2009, p. 33). Cheira a má tradução da expressão espanhola «bajo ningún concepto». Eu, pelo menos, não escreveria assim. Se querem traduzir, traduzam o inglês «under no circumstances», e a frase fica melhor…

Léxico: «hemodiluição»

A Bíblia à letra

      «“Há alternativas à transfusão de sangue, como a hemodiluição, e é isso que procuramos informar junto da comunidade médica”, rematou [José Alberto Catarino, da organização do congresso das Testemunhas de Jeová]» («Jeovás sentem-se discriminados», André Pereira, Correio da Manhã, 3.08.2009, p. 17). Não são todos os dicionários que registam este vocábulo, mas o Houaiss tem o verbete: «Hemodiluição: técnica que consiste em retirar de um paciente, antes de uma cirurgia com risco de grande perda sanguínea, cerca de 800 ml de sangue, a fim de poder reinjectá-lo no próprio paciente ao término da cirurgia ou pouco depois.» Em francês, hémodilution; em inglês, hemodilution.

Adjectivo invariável «recorde»

Excede tudo o que foi feito

      «Indemnização recorde do Supremo choca magistrados» (Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 1.08.2009, p. 21). Deixem-me adivinhar: no Correio da Manhã, acham que «indemnização recorde» está errado. Se tivessem sido eles a escrever, teriam grafado assim: indemnização-recorde. Não é? Se posso inferir daqui: «O valor-recorde [do seguro das pernas de Cristiano Ronaldo] foi contratualizado a uma companhia de seguros ligada ao clube» («Cristiano Ronaldo. Pernas valem 100 milhões», Filipe António Ferreira, Correio da Manhã, 3.08.2009, p. 33). Mas «recorde» é também adjectivo, e adjectivo — mais um — invariável. Logo, certo está o título do Diário de Notícias.

Compostos com quase- (II)

Quase raro

      «Both of these notions introduce what White called the quasi-ethics of belief (White 1956. 278).» O tradutor verteu assim: «Ambas as noções introduzem o que White designou a quase-ética da crença (White 1956, 278).» Já aqui abordei um dia estes compostos de quase-, que se vêem sobretudo nas traduções, mas não só: «Que sim, garantiu-lhe o quase-médico» («Nome dos homens», Carlos Abreu Amorim, Correio da Manhã, 29.06.2009, p. 52). «Sarkozy tem um quase-cognome: “Presidente hiperactivo”, devido às suas permanentes acções diplomáticas (em dois anos visitou 65 países), políticas e desportivas — corre ou anda de bicicleta várias vezes por semana e é assistido por um personal trainer» («Sarkozy sai do hospital», Público/P2, 28.07.2009, p. 15).

Actualização em 11.09.2009

     
Carlos Abreu Amorim insiste: «Ser a favor da verdade e da transparência no Continente e embuçar a situação quase-chávista na Madeira é avaliar como um bando de lerdos» («Contradição política», Carlos Abreu Amorim, Correio da Manhã, 9.09.2009, p. 52).

Actualização em 7.1.2010
      
     
      «Na parafernália da segurança que nos transforma a todos em terroristas mal pomos os pés num aeroporto, continuamos à espera que sejam os aeroportos a fazer o trabalho que compete acima de tudo aos serviços de informações: localizar, identificar e acompanhar as pessoas suspeitas que viajem a partir de estados suspeitos (Obama reconheceu que o quase-atentado “poderia ter sido evitado” se os serviços de informações tivessem “compreendido” os dados que já tinham sobre o cidadão nigeriano. O que significa aqui “compreendido”?)» («Os suspeitos do costume», Pedro Lomba, Público, 7.1.2010, p. 32).

      «Um Presidente Alegre tornaria Sócrates refém da maioria parlamentar de esquerda (ou pelo menos da quase-maioria com o BE), o caminho certo para a sua irrelevância ou para o fim da sua credibilidade governativa» («Campanha», Luciano Amaral, Metro, 7.1.2010, p. 7).

Actualização em 18.04.2010     

      Mais um exemplo: «Agora, ao registar os acontecimentos como os vira, podia começar a enfrentar o desafio, recusando-se a condenar a quase-nudez chocante da irmã, em pleno dia, mesmo ao pé de casa» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 54).

Actualização em 4.06.2010     

      «A minha boca abriu-se e senti um quase-som formar-se na parte de trás da garganta» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 21).

Actualização em 7.06.2010

      «Uma adaptação do hit Simply the Best, de Tina Turner, tornou-se um quase-hino partidário» («Não é piada: a sátira chegou ao poder», João Manuel Rocha, Público, 7.06.2010, p. 18).

Actualização em 13.11.2010

      «E imagina-se mal que as rádios e as televisões concorrentes da RTP, e até os demais media, possam continuar a ser clientes da Lusa. Até porque o País viveria então num quase-regime sovieto-chinês!» («Uma absurda “agregação”», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 66).



Arquivo do blogue