Sobre adjectivos e «extrabula»

No entanto, há

      E a propósito: medicamentos extrabula ou medicamentos extrabulas? Algumas gramáticas escolares afirmam que todos os adjectivos variam em número e grau, mas alguns são invariáveis em género. Não é verdade. Há, por muito controversa que possa ser a sua existência, adjectivos invariáveis em número. E, no pouco uso que temos deste adjectivo, extrabula parece enquadrar-se na categoria. Não nos esqueçamos de que, nos adjectivos compostos por justaposição, quando o último elemento é um nome, permanecem ambos invariáveis: cavalo puro-sangue/cavalos puro-sangue. Também em relação à flexão dos adjectivos compostos designativos de cores, se um deles for um substantivo, nenhum elemento varia — vestidos amarelo-canário; saias verde-mar; blusas azul-petróleo; chapéus verde-alface; paredes azul-turquesa; papéis branco-marfim… —, mesmo que só surja o nome do animal ou coisa: calções rosa, sofás marfim.      Embora eu não concorde em relação a todos*, e não estou só, alguns outros adjectivos, que não meramente os relativos às cores, são classificados como invariáveis, como extra, extrabarreiras, ultravioleta…infravermelho, por exemplo, admite feminino e plural. Para quem defende estas excepções, a argumentação usada é a seguinte: infravermelho varia porque o adjectivo «vermelho» varia sempre: cartão vermelho/cartões vermelhos; saia vermelha/saias vermelhas. Logo, raio infravermelho/raios infravermelhos. Em relação a ultravioleta, já é, propugnam, diferente: como substantivo adjectivado, «violeta» também não varia: batôn violeta/batôns violeta; blusa violeta/blusas violeta. Logo, para os defensores desta opinião, raio ultravioleta/raios ultravioleta. E, finalmente, quando se indica a cor com a expressão cor de, expressa ou subentendida, também não se faz a flexão do qualificador: paredes (cor de) gelo, camisas (cor de) creme, saias (cor de) vinho, sapatos (cor de) violeta.


      * O que eu e outros dizemos é que extra é a forma reduzida do adjectivo «extraordinário» (e já abordei aqui várias vezes as formas reduzidas de nomes, como metro, porno…), e por isso, o prefixo passou a ter também o sentido do adjectivo. Nesse caso, a sua flexão é normal, como a de qualquer outro adjectivo: «hora extra», «horas extras». É o que, consciente ou inconscientemente, leva, com o meu aplauso, alguns jornalistas a flexionarem o vocábulo: «Ministro proíbe gastos extras às direcções dos hospitais» (Público, 20.08.2006, p. 26). «Os gastos extras, para saídas, por exemplo, avaliam-se um a um, para que se aprenda a dar valor ao dinheiro e à poupança» («Crise não afecta famílias habituadas a poupar muito», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 18).

«Aura mágica», «auréola mágica»

De magia

      «Bem entendido, Istambul foi a capital do mito orientalista europeu do século XIX e isso deu-lhe uma auréola mágica que é mais importante que todas as suas belezas reais e imaginadas» («Istambul», Paulo Varela Gomes, Público/P2, 27.06.2009, p. 3). Será mesmo «auréola mágica»? Ou será «aura mágica»? Em sentido figurado, auréola é sinónimo de «glória, prestígio». Também em sentido figurado, aura é algo de muito semelhante: «fama; favor público». O que me pergunto é se outra acepção de «aura», também um sentido figurado, não se adequará melhor: «atmosfera que rodeia ou parece rodear alguém ou alguma coisa». «No dia seguinte, reservo a manhã para visitar o mais antigo mosteiro do Laos. Construído em 1818, o Wat Sisaket está envolto por uma aura mágica e por harmoniosos jardins com esguias palmeiras, num lugar vigiado por 6800 imagens de Buda» («Viagem ao Oriente perdido», Maria da Assunção Avillez, Rotas & Destinos, Junho de 2004).


Léxico: «cleptoparasitismo»

Ecos

      «Cleptoparasitismo é quando um leão, por exemplo, rouba comida a uma chita» («Quando a fome aperta, vale tudo», Ana Gerschenfeld, Público/P2, 27.06.2009, p. 3). Numa edição da revista Audácia, que de momento não consigo precisar, escreveu a escritora Alice Vieira: «Neste poema só não gostei muito daquela expressão “é quando”. Tinha uma professora na escola que, quando escrevíamos ou dizíamos isso, cortava logo: “ecoando” é o gerúndio do verbo “ecoar…”. Deve ser por isso que não gosto da expressão.» Cleptoparasitismo, que o Dicionário Houaiss, por exemplo, não regista, é uma forma de interacção em que um organismo rouba um recurso, comida ou objecto, a outro organismo.

Tradução: «coroner» (II)

Reinspecção

      Decerto que ainda se lembram do texto em que tratei da tradução do vocábulo inglês «coroner». Houve desenvolvimentos na questão. Lia-se o seguinte no Diário de Notícias: «O assistente do IML de Los Angeles, Ed Winter[,] terá feito uma busca nos escritórios de Dr. Arnold Klein, dermatologista de Michael Jackson» («Polícia investiga consultório médico de Michael Jackson», Diário de Notícias, 15.07.2009). Assistente do IML? Na imprensa de língua inglesa, podia ler-se: «Assistant chief coroner Ed Winter said investigators were still testing the singer’s brain» («Coroner: Cause of Michael Jackson’s death could be revealed next week», Nancy Dillon, Daily News, 14.07.2009). Tenho fundadas dúvidas de que o leitor comum saiba desdobrar a sigla IML. (De resto, o organismo português responsável pela coordenação da actividade dos serviços médico-legais tem actualmente a designação de Instituto Nacional de Medicina Legal, logo, INML.) O mais correcto talvez fosse escrever: «O assistente-chefe do gabinete médico-legal [do condado] de Los Angeles, Ed Winter, terá feito uma busca nos escritórios de Dr. Arnold Klein, dermatologista de Michael Jackson.» Para o Público, Ed Winter é apenas o porta-voz do «instituto»: «A família recuperou o corpo às 21h00 locais (cinco da madrugada em Lisboa) longe das câmaras dos fotógrafos que estavam concentrados em frente ao Instituto Médico Legal de Los Angeles, disse o porta-voz do instituto, Ed Winter, citado pela AFP» («Corpo de Michael Jackson foi devolvido à família», Público, 27.06.2009).

Sufixo nominativo grego «-ia»

Vejamos

      «Os médicos afirmam que [Nicolas Sarkozy] teve uma lipotímia de esforço causada pelo calor» («Sarkozy teve alta», Correio da Manhã, 28.07.2009, p. 31). É uma controvérsia infindável, mas não me vou eximir a ela. Donde provém a palavra — do latim ou do grego? É do grego, sem intermediação latina. Ora, as palavras com sufixo nominativo -ia, que é tónico na língua grega, são paroxítonas, quando não foram usadas na língua latina: anemia, anisocoria, anorexia, anosmia, arritmia, astenia, cardiopatia, disfasia, dislalia, geografia, isquemia, lipotimia, patologia, polidipsia, retinopatia, sinequia… Em relação a algumas, porém, o uso e os dicionários consagraram já, indiferentemente, as formas tónicas e átonas, como biopsia/biópsia, por exemplo. Noutros casos, ficou consagrada a forma errada, como alopecia, que deveria ser alopécia, dado ter vindo do latim. Há estudiosos, como o médico e helenista brasileiro Ramiz Galvão (1846–1938), que sugerem que se proceda à uniformidade prosódica nas palavras terminadas com sufixo grego -ia, solução de que discordou Rebelo Gonçalves: «Se fôssemos pensar na regra exacta, a regra seria precisamente respeitar um princípio que se impõe, na nossa língua, a toda a reprodução de palavras gregas ou formação de palavras novas por meio de elementos helénicos: seguir a acentuação exigida pela forma latina intermediária, quer dizer, a acentuação de uma forma verdadeira ou apenas suposta teoricamente, pois ao latim manda a filologia recorrer como base prosódica dos nossos helenismos. Iríamos, porém, longe demais, se o fizéssemos nessa categoria de palavras terminadas em ia» (F. Rebelo Gonçalves, «Linguagem médica», Revista da Associação Paulista de Medicina, 10, 1937, pp. 50-79).

Concordância: «tipo de»


Livro de reclamações

      Um anónimo — que assina Blueangelwoman — ficou estomagado com uma observação que eu fiz, num texto de Março de 2008, à pronúncia do adjectivo «revolta» ouvida no programa Boulevard, na Antena 2. «Um dia», escreve Blueangelwoman, e começa a frase com minúscula, mas espero que seja lapso, «explicará com certeza, neste seu espaço semi-jactancioso, o que é uma rádio “não cultural” e, já agora, o que é a “não cultura”...» Primeira pista: quem comenta é apenas semiletrado, pois que o prefixo semi- se liga por hífen ao elemento seguinte apenas quando este começa por h, i, r ou s. Logo, semijactancioso. (Mas há quem assegure que é — ou são, o espaço e o autor — jactancioso. Opiniões.) Blueangelwoman ainda me pergunta: «Ou será que o que queria dizer com rádio cultural era rádio erudita?» Não queria, e apetecia-me mesmo acrescentar que convém saber onde estamos… Era mesmo rádio cultural. Veja por aí. E sentencia: «Parece-me que este tipo de desleixos (da ordem da terminologia) também não fazem muito bem à nossa Língua.» É aceitável mas não o mais correcto fazer concordar o verbo com o complemento determinativo («de desleixos»). Prefiro, sem jactância, a concordância do verbo fazer com o sujeito singular tipo, Logo: «Parece-me que este tipo de desleixos (da ordem da terminologia) também não faz muito bem à nossa Língua.» Um consolo: é cordato, pois despede-se com um «atenciosamente». Não esperava menos de um anjo.


Acidente aéreo/acidente de viação

Para evitar confusões

      «O corpo do piloto Rúben Alves, que morreu num acidente de aviação em Marrocos, foi ontem à tarde sepultado no cemitério do Paúl, Bombarral, onde residia» («Piloto no Paúl», Correio da Manhã, 28.07.2009, p. 13). Está correcto, claro que sim, mas eu não escreveria (sobretudo se fosse para ser lido aos microfones da rádio) acidente de aviação, pois é facilmente confundível com acidente de viação, mas acidente aéreo (de resto muito mais usado). E se ainda nunca li «acidente de aviação aérea», já vi «acidente de viação rodoviária», como sabem.

Ortografia: «rendibilidade»

Mudar de referência

      «Sete PPR [Planos Poupança Reforma] sem rendabilidade» (Raquel Oliveira, Correio da Manhã, 28.07.2009, p. 21). Ora cá está, esta é a forma vernácula: rendibilidade. Também já aqui tinha abordado o francesismo «rentável», que, aliás, vejo mais usado nos jornais de «referência»: «A questão central da investigação sobre as microalgas e a sua utilização como combustível está precisamente em saber até que ponto podem estas culturas ser economicamente rentáveis, se exploradas à escala industrial» («Alga nacional pode ser combustível», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 6.01.2009, p. 30). «Dos 15 cavalos em apreço, a maior licitação foi para o Xuahdo, que rendeu aos cofres da FAR 15.600 euros. Já no lote das 18 éguas, foi a Suíça que mereceu o despique mais rentável ao ser rematada por 15.100 euros. Ambos os exemplares foram adquiridos por compradores portugueses» («Leilão de cavalos lusitanos rende 190 mil euros a fundação», Público, 27.4.2008, p. 9).

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