Tradução: «convener»

Talvez sirva

É muito raro ver-se a palavra inglesa convener (ou convenor) traduzida. E se ela é usada… No mundo anglo-saxónico, é aquele a quem, em certas instituições, compete fixar o dia das reuniões e enviar as convocatórias. Não teremos mesmo um termo que corresponda? Em documentos brasileiros, já tenho visto a palavra traduzida por «coordenador», pois este é a pessoa que organiza e orienta um projecto ou actividade de grupo. Aceitam-se sugestões.

Ratificar e rectificar

Reduzir à perfeição

      «A Constituição espanhola, no artigo referente aos estatutos das comunidades — rectificados pelas Cortes e posteriormente promulgados pelo Rei —, a organização institucional autonómica tem por base a Assembleia Legislativa, eleita por sufrágio universal, com recurso a um sistema de representação proporcional, um Conselho de Governo com funções executivas e administrativas e um presidente eleito pela Assembleia, entre os seus membros, nomeado pelo Rei» («Jardim inspira-se no modelo das autonomias espanholas», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 24.07.2009, p. 10). Sim, é um erro que se vê há muito. Os estudantes de Direito a partir do 3.º ano já não caem nele. Os jornalistas, porém, continuam pela vida fora a confundir ratificar com rectificar. Rectificar significa corrigir, emendar: «Serafim Riem, da direcção do Fapas, associação que produziu e vendeu as plantas, para além de rectificar que “o preço não foi de 5000, mas de 6000 por árvore”, considerou tais quantias “ainda muito baixas”, já que, “para qualquer instituição pública ou privada, o Fapas está, actualmente, a vender árvores cujos preços podem ascender aos 12000”» (in CETEMPúblico). Ratificar significa validar, confirmar, comprovar algo que foi proposto: «O orçamento rectificativo foi ratificado ontem pela Assembleia da República.» Já em 1824, na Orthographia ou Arte de Escrever e Pronunciar com Acerto a Lingua Portugueza, para Uso do Excellentissimo Duque de Lafoens, de João de Moraes Madureira Feijó, se podia ler: «Ratificar, e réctificar, saõ muito diversos ; o primeiro he confirmar o que está dicto ; o segundo reduzir alguma cousa á perfeiçaõ , e regras de arte» (p. 414).

Léxico: «tintado»


Gosto

      Já tinha visto o aviso antes, mas ontem reparei melhor quando utilizei uma caixa Multibanco. «Não aceite notas tintadas.» Espantoso. Não sei quem concebeu a frase, mas ter recorrido ao adjectivo/particípio tintadas revela leitura dos clássicos, não é? Também se podia dizer entintadas, mas «tintadas» ainda é mais sugestiva da palavra «tinta». E espantoso porque podiam, proclives como os portugueses são a usar estrangeirismos, e ainda mais estes burocratas engravatados, ter usado uma palavra inglesa. Infelizmente, no blogue Cliente Bancário vê-se sempre a palavra envolta em aspas, talvez para não sujar as que estão à volta. É neste blogue que ficamos a saber que, se acaso nos vier ter às mãos uma nota tintada, nos deveremos dirigir «ao Banco de Portugal ou às autoridades policiais, com vista ao esclarecimento da sua origem e à realização de análises laboratoriais, diligências de que cujo resultado dependerá a possibilidade, ou impossibilidade, do seu reembolso». Nem todos os dicionários registam o verbo tintar nem o substantivo tintagem.

Predecessor e antecessor

Seria demasiado bom

      «Desde 1979, recordou o patriarca [ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu I], que os seus predecessores pedem ao Vaticano que tome essa decisão» («Patriarca ortodoxo quer Igreja Católica e protestantes todos juntos na Europa», António Marujo, Público, 22.07.2009, p. 13).
      Predecessores, gostei. É raro os jornalistas usarem esta palavra. Em vez dela, usam, muitas vezes inadequadamente, antecessor(es). Ao indivíduo que ocupou algum posto imediatamente antes de nós damos a designação de antecessor; todos os demais que a este haviam precedido no mesmo posto são nossos predecessores. Sigo quase à letra o que sobre a matéria, e fundamentado na etimologia, diz D. Francisco de S. Luiz na 3.ª edição, de 1838, do Ensaio sobre Alguns Sinónimos da Língua Portuguesa, e recordo-me vagamente de Camilo abordar a questão numa das suas obras. Só que temos um problema: Bartolomeu I exerce as funções de patriarca de Constantinopla desde 1991, e antes dele, entre 1972 e 1991, foi patriarca Demétrio I. Logo, tomando como referência o ano de 1979, Bartolomeu I não teve predecessores, mas um — um — antecessor. Se, em vez de o pedido ter sido feito em 1979, tivesse sido feito em 1929, por exemplo, é que se poderia falar com propriedade de predecessores, pois além do antecessor, Demétrio I (1972–1991), Bartolomeu teria tido, por ordem regressiva, os predecessores Atenágoras (1948–1972), Máximo V (1946–1948), Benjamim I (1936–1946), Fócio II (1929–1935) e Basílio III (1925–1929). Claro que, dependendo do mês em que o pedido tivesse sido feito, era preciso averiguar se este último, Basílio III, também o tinha sido. Percebido? Por sorte, deixámos de usar o vocábulo decessor, ou a trapalhada seria bem maior…

Chico-esperto/chicos-espertos

É o que me parece


      «É a autodefesa do autoplágio: a partir dos 40 anos, a memória já não era (que nós nos lembremos) o que era e, para que nenhum chico-esperto apareça a fazer nhá-nhá-nhá, tapamos o rabo com um simples “Já não é a primeira vez que digo que…”» («Como eu já disse (I)», Miguel Esteves Cardoso, Público, 17.03.2009, p. 47). «“Estes tipos são o português vernáculo que a gente encontra e, curiosamente, não é só nas camadas mais populares. Há chico-espertos em todas as classes”, comentava José Pedro Gomes, poucas horas antes de entrar em cena» («Toni e Zezé despedem-se da treta... até um dia destes», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 22.07.2009, p. 45). Um consultor do Ciberdúvidas, Luís Filipe Cunha, diz que «de acordo com o Dicionário da Academia das Ciências, ed. Verbo, o único de entre os dicionários consultados onde a expressão aparece, a grafia correcta é chico esperto, sem hífen». Lancemos mão da analogia. Maria-rapaz, por exemplo, em que, em vez de um nome e um adjectivo, temos dois nomes. Leva hífen. Não descortino nenhuma razão (e espero que o consultor não entenda a referência ao dicionário da Academia das Ciências como um argumento de autoridade) para não se escrever chico-esperto. Já quanto à forma do plural, concordo com o referido consultor: «Tratando-se de uma estrutura formada por um nome e por um adjectivo, ambas as formas pluralizam, já que devem concordar em género e número», dando origem a chicos-espertos.

Grandes empresas


Para a próxima

O grupo Sonae, que tem um grupo de trabalho sobre a gripe A em cada empresa, também se preocupa com os clientes dos seus supermercados e hipermercados, e por isso distribui em cada caixa o folheto da imagem. Louvável, sem dúvida. Os responsáveis esqueceram-se foi, lamentavelmente, de entregar a redacção do texto a quem dominasse a língua portuguesa. E desconhecem certamente que existem revisores. Esperávamos mais, Sr. engenheiro.

«Descrição» e «discrição»

Erro ou gralha que seja

«O mundo inteiro via o momento pela televisão, através de uma câmara instalada no exterior do veículo, transformando em imagens as primeiras discrições de paisagens feitas, horas antes, por Buzz Aldrin logo após o momento em que o ML [Módulo Lunar] tocara no solo» («“Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”», Nuno Galopim, Diário de Notícias, 20.07.2009, p. 28). O erro pode ter acontecido por falsa assimilação do significado dos parónimos descrição e discrição. O que acontece é que, como muitas vezes, ao pretender escrever-se a primeira, se escreve a segunda, há como que uma defesa. Para evitar o erro, o falante deve ter em conta que o vocábulo discrições, no plural, é de rara ocorrência (e aqui pode encontrar a razão). Por outro lado, deve saber-se que se escreve à discrição (ver aqui).

Ortografia: «Cidade Judiciária»


Pensem nisso

«O ministro da Justiça inaugura hoje a nova cidade judiciária de Lisboa, no Parque das Nações, um complexo que concentra cerca de 2400 magistrados e funcionários, distribuídos por 11 edifícios que alojam 21 tribunais e serviços, custando mensalmente ao Estado um milhão de euros em rendas» («Juízes recusam participar hoje na inauguração da cidade judiciária», Diário de Notícias, 22.07.2009, p. 23). Bem, os senhores jornalistas têm de começar a pensar em grafar a locução com maiúsculas: Cidade Judiciária. Não escrevem sempre Cidade Universitária? Qual é a diferença? Tanto mais que já escrevem Campus de Justiça de Lisboa.

Actualização em 23.09.2009

Na legislação, a opção parece estar tomada: a locução campus de justiça ainda hoje surgiu no texto de duas resoluções (95 e 96) do Conselho de Ministros: «O novo conceito de campus de justiça, que o programa propugna, visa concentrar num local os diversos serviços até agora dispersos, permitindo espaços de justiça com funcionalidade e qualidade urbanística, melhores índices de produtividade em consequência de uma maior rapidez de comunicação, maior eficiência dos serviços, melhores condições de trabalho e melhores condições para o utente.»

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