Léxico: «andragogia»

Não havia necessidade

«As sessões constituíram um acto raro e positivo de andragogia política. Este termo apela para a educação do ser humano adulto, uma vez que pedagogia etimologicamente se refira apenas a crianças» («Andragogia das jotas», D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, Correio da Manhã, 17.07.2009, p. 2). Embora tenha sido um professor alemão, Alexander Kapp, a forjar em 1833 o termo, foi o pedagogo (ou andragogo?) norte-americano Malcom Knowles (1913−1997) quem divulgou o termo andragogia (a partir de andros, «homem», e agogus, «conduzir, guiar; educar»).

Plural de «sabe-tudo»

Essa é que é essa

Um leitor, afirmando que nem nos dicionários (para sermos precisos, o Dicionário Houaiss — mas é dos poucos — regista-a, dizendo-a invariável) nem na Internet encontra solução, quer saber qual o plural de sabe-tudo. Ainda acrescenta: «E porque será que neste caso os dicionários se calam?» Não há-de ser, suponho, pela complexidade da questão. Sendo composto por duas palavras invariáveis (verbo + pronome indefinido), nenhum elemento pluraliza. Logo, o sabe-tudo/os sabe-tudo. Em inglês diz-se know-it-all ou know-all; em espanhol, sabelotodo (que, pese embora pluralizar em sabelotodos, é comummente usado como sendo invariável).

Sobre «afro-americano»

Imagem: http://www.boston.com/

Comparemos



      «Nascido a 19 de Outubro de 1936, numa família de 17 filhos, na América de Franklin D. Roosevelt, o afro-americano serviu duas vezes na Marinha antes de terminar o curso no Seminário Teológico Baptista de Nashville» («O conselheiro rebelde de Martin Luther King», Diário de Notícias, 26.12.2008, p. 37). «Num segundo, este afro-americano casado, com dois filhos, viu-se pai de 14 crianças» («Ele acredita que é o pai, ela nega», Diário de Notícias, 26.02.2009, p. 25). «Afro-americana vai liderar saúde pública nos EUA» (Diário de Notícias, 14.07.2009, p. 52). Na tradução de livros não me surpreende o uso do termo «afro-americano», mas já é diferente na imprensa. Foi o termo que a vaga do politicamente correcto impôs nos Estados Unidos. É uma convenção a tentar substituir outra convenção. Tenho é sérias dúvidas de que todos os leitores, em Portugal, entendam exactamente do que se trata. De resto, como definem o termo os dicionários de língua portuguesa? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora afirma que «afro-americano» é o «que diz respeito a americano de ascendência africana». Deve ser por isso que Maria Teresa Thierstein Simões-Ferreira Heinz, mulher do ex-candidato democrata à Casa Branca John Kerry, por ter nascido em Moçambique, se definiu como afro-americana. Veja-se este texto meu sobre o uso equívoco da palavra «africano».

Cores (II)

Por ordem

Amorado adj. Da cor da amora.
Anil m. A cor azul.│adj. De cor azul; da cor do anil.
Calibado adj. Diz-se do animal ou de qualquer das suas partes que seja da cor do aço.
Cárdeo adj. De cor de cardo, lívida, arroxeada.
Cróceo adj. Poét. Que tem cor de açafrão; amarelo, dourado.
Garço adj. De cor verde-azulada; esverdeado.
Glauco adj. Verde-mar; esverdeado.
Gris m. A cor cinzenta.
Groselha adj. Que tem a cor da groselha, vermelho-acerejado.
Gualdo m. Amarelo, amarelado. O m. q. gualde.
Havana adj. Castanho-claro.
Isabel adj. De cor amarelo-esbranquiçada.
Miniano adj. De cor vermelha muito viva.
Múrice adj. Poét. Púrpura.
Níveo adj. Que tem o aspecto, a brancura da neve.
Ostrino adj. Que tem a cor ou a natureza da púrpura.
Pagiço adj. Diz-se de uma cor parecida com a da palha seca.
Rom m. Espécie de tinta amarela.
Rosura f. Cor-de-rosa, cor rosada.
Ruivo adj. Amarelo-avermelhado; vermelho-escuro; louro-avermelhado.
Rútilo adj. Poét. Afogueado; da cor do ouro muito viva.
Zabelo adj. Tirante a amarelo-claro.
Zinzolino adj. e m. Designativo e designação de uma cor roxa, tirante a vermelho.

Cores (I)

Quase catálogo

«Não senti raspas de contrariedade quando se aproximou um rapaz, todo de amarelo-torrado, que deduzi ser o namoradinho em exercício» (Primeiro as Senhoras, Mário Zambujal, p. 30).
«Os seus quadros, cuja boina original era castanha, usam agora uma de cor verde-seco» («Forças Armadas portuguesas têm quatro forças especiais», Diário de Notícias, 18.4.2008, p. 7).
«Caminhamos seis horas por trilhos intocados. Atravessamos pontes suspensas, a mais alta a setenta metros do rio, um rio azul-cobalto, o maior e mais caudaloso do Nepal, que serpenteia o vale e agarra a cordilheira num longo abraço» («Nos Himalaias com João Garcia», Tiago Salazar, Notícias Sábado, 9.05.2009, p. 19).
«A noite estava macia e o céu era de um escuro azul-safira sobre os reflexos opalinos do mar de Cascais que marulhava preguiçosamente» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura, pp. 46-47).
«Aproximando o cigarro da chama, ela pôs em concha as mãos de dedos longos e unhas pintadas de um vermelho-vivo» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura, p. 56).
«Marcou a gola alta com uma larga pincelada vermelho-escura» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura, p. 238).
«São grenás, já o dissemos, e têm bordadas a coroa e uma pomba branca» («Espírito Santo. O Divino sai à rua — e as melhores roupas também», Sandra Silva Costa, Público/P2, 7.06.2009, p. 5).
«Uma colcha azul-damasco com franjas, a primeira fronha e a roupa que usou em bebé, bordados pela mãe, testemunham a infância» («Espólio antecipa regresso de Jorge de Sena», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 18.06.2009, p. 29).
«Não daqueles em que o mamilo é como uma teta, mas sim grande, rosa-acastanhado-claro, que é tão excitante» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 32).
«Parava à frente de uma pessoa, pequena como era, com as pernas ligeiramente afastadas, especada, cheia de sardas, o cabelo louro curto, sem qualquer maquilhagem a não ser bâton vermelho-vivo, e o seu grande sorriso confessional: é isto que eu sou, é isto que eu faço, se não gostas, paciência» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 48).
«Carolyn ainda era bonita, com feições radiantemente grandes, embora, por baixo dos olhos cinzento-claros, as órbitas a puxar para o grande parecessem diáfanas e fatigadas, não tanto, achei, por causa da sua insónia crónica, mas sim devido àquela mistura de decepções que não é rara nas biografias de mulheres profissionais bem-sucedidas na casa dos quarenta, cujas refeições nocturnas lhes são com frequência entregues à porta dos seus apartamentos em Manhattan, numa embalagem de plástico, por um imigrante» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 47).
«Dissimulado entre a erva alta, bem camuflado na sua pelagem castanho-acinzentada, um coelho-bravo pasta calmamente, mas sempre atento aos predadores» («A fuga aos ziguezagues da extinção», Mariana Correia de Barros, Diário de Notícias, 26.07.2009, p. 60).

Género de «Festschrift»


Sem ofensa

Caro M. C.: tanto quanto tenho visto, o mais habitual é atribuir-se o género masculino à palavra alemã «Festschrift»: o Festschrift. À letra significa, como saberá, «publicação de celebração». É uma obra, geralmente editada por instituições do ensino superior, em que se homenageia um académico reputado. Logo, deveria ser «a Festschrift». Ou, mais rebuscadamente, terá em mente, quem assim escreve, a tradução «documento escrito comemorativo»? Ou nada disto — saindo o que calha?

«O suficiente»

Pormenores

      «Também são sólidos o suficiente para afastarem a maioria dos visitantes, amigos e aliados» (Quente, Plano e Cheio, Thomas L. Friedman. Tradução de Carla Pedro e revisão de Marta Pereira da Silva e Almerinda Romeira. Lisboa: Actual Editora, 2008, p. 12). Embora, sem se distinguir pela vernaculidade, actualmente seja forma admitida (e o que não o é?), não é a mim que me apanham a escrever assim. Prefiro sempre: «Também são suficientemente sólidos para afastarem a maioria dos visitantes, amigos e aliados.»

Iliteracia

Imagem: http://www.diariodetrasosmontes.com/

E esse ensino primário?

No noticiário das 9 da manhã na Antena 1, Eduarda Maio falou da inauguração da ponte internacional de Quintanilha, sobre o rio Maçãs, em Bragança, prevista para hoje. No local estava o repórter Virgílio Cavaco, que, depois de ter dito que o atraso na abertura da ponte se deveu ao facto de os acessos do lado espanhol só agora terem sido concluídos, disse «como tu referistes». Ainda que uma tratadora de cães fale assim, vá que não vá — mas um jornalista? Como disse a propósito dos professores, é uma absoluta, completa e irremissível vergonha. Na televisão, na escola, na rádio… estamos bem entregues.

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