«Às próprias custas»

João Marcelino, é consigo


      Pela primeira página do Diário de Notícias de hoje, ficámos a saber que os agentes da PSP e os militares da GNR estão a comprar coletes e algemas a prestações. Eis um excerto: «Os agentes da PSP e os militares da GNR estão a comprar, às próprias custas, equipamento básico de protecção pessoal que não é garantido pelos comandos.» Se erros deste calibre já vêm para a primeira página, o descalabro atingiu este outrora jornal de referência.



Verbo «convir»

Isto diz-lhe respeito, Raul

No programa de informação Este Sábado, na Antena 1, com Rosário Lira, o jornalista Raul Vaz, a propósito dos novos eurodeputados portugueses, disse: «Alguns prometem voltar cedo se o resultado das eleições for aquele que mais convir.» O verbo convir (e os verbos avir, convir, desavir, entrevir, intervir, provir, sobrevir…) conjuga-se como o verbo vir. Logo, o futuro imperfeito do conjuntivo é convier (convier, convieres, convier, conviermos, convierdes, convierem). Se todos temos de ter cuidado com a forma como escrevemos e falamos, muito mais cuidado terá de ter um jornalista. Espero que a dúvida não tenha que ver com o modo. O modo conjuntivo indica a eventualidade e a possibilidade, o que se adequa ao desconhecimento que se tem do futuro. Neste caso, o resultado das eleições. O erro talvez advenha do facto de o futuro imperfeito do conjuntivo e o infinitivo impessoal dos verbos irregulares, e este é-o, terem formas diferentes, ao contrário do que sucede com os verbos regulares, que têm formas idênticas naqueles tempos.

Sobre o Ocidente

Evidentemente

O filósofo Desidério Murcho perguntou anteontem se era só ele «ou o leitor também considera uma tolice que se fale sistematicamente do ocidente (às vezes até com maiúscula!), quando na verdade se quer falar apenas (de partes) da Europa e dos Estados Unidos da América, esquecendo-se 1) a África, que tem países mais ocidentais do que muitos países europeus, e 2) o Japão, que lá por estar no oriente é mais parecido com a Europa e os Estados Unidos do que muitos países africanos? Não seria melhor deixar de usar um termo geográfico quando temos em mente uma classificação política e económica e social e cultural?» («Tento na língua», 11.07.2009, aqui).
Decerto que a pergunta também é para mim, porque sou leitor do filósofo, e por isso vou responder. Não, não acho. E muito me apraz que não tenha depreciado desta vez a insuficiência da língua portuguesa. É que esta questão do Ocidente (ah, sim, com maiúscula, evidentemente) diz respeito a muitas línguas. Ocidente, no primeiro desvio que sofreu em relação à acepção puramente geográfica, começou por significar, por metonímia, a civilização e os povos que habitavam os países da Europa situados no Oeste do continente. Passou depois, em política internacional, a designar-se por Ocidente o conjunto que abrange os países capitalistas da Europa Ocidental e os Estados Unidos, por oposição aos países do Leste europeu, de economia socialista e à China Popular. Por vezes, surpreendemos o significado de Estado-membro da NATO (ou OTAN, se quiserem). A propósito de regime político, o Cambridge Advanced Learner’s Dictionary já apresenta a seguinte definição: «the West (COUNTRIES) noun [S] North America, those countries in Europe which did not have communist governments before the 1990s, and some other parts of the world». Ponha Desidério Murcho nestas some other parts of the world o Japão e demais países que se lhe afigurem ficar bem ali. E também deixo uma pergunta: e íamos substituir Ocidente por que termo menos controverso e adequado?

«Xixi» e «chichi»

Eu faço chichi


      «É como poder fazer xixi ou falar português depois de muito tempo. […] Falta fazer o elogio do sedentarismo. É o indesporto radical do nosso tempo. Define-nos. Delicia-nos. Sentamo-nos e sentimo-nos bem. Sentemo-nos pois» («O elogio do sentar», Miguel Esteves Cardoso, Público, 16.06.2009, p. 31). Alguns etimologistas de meia-tigela dir-nos-ão (lembrem-se dos Urales) que em espanhol é que é chichi — e é, mas em espanhol chichi é «vulva». Carlos Marinheiro, no Ciberdúvidas, assegura que «em Portugal escreve-se chichi, quando se trata de urina. No Brasil prefere-se, na mesma situação, xixi». Joseph M. Piel, nos Novos Ensaios de Etimologia Portuguesa, também escreve «chichi» e diz que é termo infantil. Em francês também se diz faire du (des) chichi(s), só que é outra coisa: é fazer cerimónia, ter modos afectados. E às pessoas afectadas, que em Portugal não temos, os Franceses (que alguns jornalistas, num assomo de parvoíce, dizem «gauleses») chamam gens à chichi. Curiosamente, os etimologistas franceses dão como étimo provável o redobro do radical onomatopaico tchitch, que exprime a ideia de pequenez.

Urais ou Urales?


Ah, isso!...

      «Os líderes das quatro maiores economias emergentes vão dar sinal ao mundo da vontade crescente de se fazerem ouvir em uníssono, numa reunião ao mais alto nível hoje na cidade de Iekaterinburg, nos Urales russos» («Brasil, Rússia, Índia e China vão afinar a uma só voz nos Urales», Dulce Furtado, Público, 16.06.2009, p. 16). Este título do Público foi vilipendiado, de uma forma geral com frases cheias de erros, em toda a Internet. Contudo, esta variante, Urales, vai-se encontrando por aqui e por ali: «Já ninguém tem ou cultiva um sentimento de pertença, ao mesmo tempo afectiva e intelectual, a essa realidade matricial que se estende do Atlântico aos Urales» («Euroanalfabetos», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 13.05.2009). Em relação a esta matéria, concordo com F. V. Peixoto da Fonseca, que escreveu: «A forma correcta é Urales, embora, pelo menos antigamente (quando eu era muito novo) correntemente se usasse Urais, como ainda prefere o Prof. José Pedro Machado, no Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Assentando a palavra no singular Ural (através do francês Oural, de origem russa), sou de opinião que o plural não deve ser Urais, por não se tratar de termo vernáculo, como tal e tais, qual e quais, animal e animais, etc., com plural etimológico, em que o -l- latino intervocálico caiu por evolução fonética, visto estar entre vogais.»
      Já não me lembro como se escrevia na Vida Soviética (que eu lia com tanta avidez como lia a revista da John Deere, fiquei especialista teórico em forragens, ou as obras e adaptações de Adolfo Simões Müller), mas ia jurar que era Urales, o que seria natural, e foi a forma que sempre preferi. Argumentar-se que em espanhol é que é Urales é um completo disparate. Diria antes que também é a forma usada em espanhol, o que é diferente.

Actualização em 15.05.2010


      «Eram conhecidos pela palavra siberiana chaman e, no século XVIII, foram encontrados pelos exploradores por toda a parte desde os Urales a Tchuktchi, no Extremo Oriente» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 232).

«Incrementar de» e outras coisas

A queda dum anjo

      Um leitor pede a minha opinião sobre duas frases na mais recente crónica do Nuno Crato no jornal Expresso. Ei-las: «Dissemos ainda que a expressão ‘passeio aleatório’ designa um conceito científico importante, cujo seu estudo tem ocupado matemáticos, físicos e outros cientistas.» «Em cada momento, a variável X — a posição do cavalheiro — é incrementada ou subtraída de uma unidade, conforme dê um passo em frente ou a trás.»
      A construção «cujo seu» não tem quase nada que se lhe aponte — só que o pronome relativo cujo seguido do pronome possessivo adjunto seu é assaz anómalo. E de notório sabor arcaizante. Nuno Crato parece Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda a falar no Parlamento. «Um dia, porém, quando elle saia da festividade de S. Sebastião, cujo mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais graudos lavradores da sua freguezia e das visinhas.» E mais: a vírgula antes de «cujo» está incorrecta, já que a oração introduzida por este pronome, sendo inequivocamente uma relativa explicativa, não precisa de pontuação, dado o valor adjectival de «cujo».
      «Incrementada ou subtraída de» é também construção incorrecta, como já vimos aqui a propósito da construção paralela «aumentar em/de»: «Rodrigo de Sá Nogueira, na obra Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem (Lisboa: Clássica Editora, 4.ª ed., 1995, p. 65), escreve: “Outra construção condenável é: ‘aumentar em 50%’. — Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, p. 374 (2.ª ed.), diz: “b) Várias preposições: Preposição de. Erros: aumentar de um metro, e mais velho de um decénio, por aumentar um metro, e mais velho um decénio, ou um decénio mais velho; peço-lhe de vir por peço-lhe que venha…”»
      Quanto, finalmente, ao advérbio, só posso crer que foi lapso, pois que se escreve «um passo em frente ou atrás».

Interjeição «aha»

Aha, apanhei-vos!

      O agá não se aspira, aprendemos na escola primária. Conheci uma velhota, ex-professora de Inglês, entretanto já falecida, que pronunciava o agá do meu nome, o que desencadeava sempre em mim um sorriso prestes a rebentar em riso, que ela atribuía à minha simpatia. Ultimamente, porém, graças aos filmes, começou a usar-se a interjeição inglesa habitualmente grafada aha. «Aha, interjection, Middle English: Depending on manner of utterance, used to express surprise, pleasure, irony, derision, mockery, contempt, or triumph» (Intel Threading Building Blocks, James Reinders. Cambridge, MA: O’Reilly Media, 2007, p. 177). Sobre a pronúncia não há dúvidas: ouço sempre os falantes portugueses, que também terão aprendido, como eu, que o agá não se aspira, aspirarem o agá. Experimentem agora não ler o agá, e dir-me-ão se ainda estamos perante a mesma interjeição. Mas como se escreve em português? Vejamos: «“Como é que se chama aquela mulher que vem na minha direcção? Ora bem, vamos lá a ver… Ah, ha! SUSIE!”» (Onde Deixei os Meus Óculos?, Martha Weinman Lear. Tradução de Jorge Beleza. Porto: Porto Editora/Ideias de Ler, 2008, p. 232). «Ah, ha»? Como é que uma interjeição, aha (às vezes também grafada a-ha), se transforma, numa mitose fónico-gráfica, em duas interjeições, têm a bondade de me explicar? Só vislumbro uma solução: grafar à inglesa, pois que também pronunciamos à inglesa.

Actualização em 16.07.2009
      Eis uma tradução em que surge a interjeição: «Aha! — os livros não voam por sua livre vontade — quem os arranjou?» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Tradução de Cecília Rego Pinheiro. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008, p. 47).

Actualização em 16.11.2009

      E numa crónica jornalística: «A primeira resposta é: aha! O primeiro-ministro não pode querer ser uma pessoa normal (para processar jornalistas) e uma pessoa especial (para ter regras privilegiadas em escutas) ao mesmo tempo. Isso não está na lei, mas está na moral da República; ao contrário das antigas monarquias, a República não dá privilégios gratuitos; com esses privilégios tem de vir uma reserva especial de comportamento, quer ela esteja descrita na lei ou não»(«De Sócrates a Maquiavel», Rui Tavares, Público, 16.11.2009, p. 40).

Se há «tai», para quê «thai»?

Somos portugueses

      «De ascendência portuguesa [Pathorn Srikaranonda de Sequeira], é hoje director da banda pessoal do rei da Tailândia. Entre as suas obras conta-se uma oratória baseada em palavras de Camões. Nos seus planos está uma ópera em português e em ‘thai’» («Evocar ecos da História através da música», Nuno Galopim, Diário de Notícias/DN Gente, 11.07.2009, p. 9). Nuno Galopim anda há semanas a arreliar-nos (a foder-nos o juízo, talvez dissesse — diria? — Miguel Esteves Cardoso) com o «thai». Claro que, sem nunca primar pela defesa acurada do idioma pátrio, também não escreve Thailândia, como, em coerência, devia fazer. Veja o Houaiss: «tai adj.s.m. LING 1 diz-se de ou família de línguas do grupo tibeto-birmanas faladas no Sudeste Asiático (Sul da China, Laos, Tailândia e Myanmar) 1.1 diz-se de ou língua oficial da Tailândia, a mais importante desse grupo; tailandês.»

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