Se há «tai», para quê «thai»?

Somos portugueses

      «De ascendência portuguesa [Pathorn Srikaranonda de Sequeira], é hoje director da banda pessoal do rei da Tailândia. Entre as suas obras conta-se uma oratória baseada em palavras de Camões. Nos seus planos está uma ópera em português e em ‘thai’» («Evocar ecos da História através da música», Nuno Galopim, Diário de Notícias/DN Gente, 11.07.2009, p. 9). Nuno Galopim anda há semanas a arreliar-nos (a foder-nos o juízo, talvez dissesse — diria? — Miguel Esteves Cardoso) com o «thai». Claro que, sem nunca primar pela defesa acurada do idioma pátrio, também não escreve Thailândia, como, em coerência, devia fazer. Veja o Houaiss: «tai adj.s.m. LING 1 diz-se de ou família de línguas do grupo tibeto-birmanas faladas no Sudeste Asiático (Sul da China, Laos, Tailândia e Myanmar) 1.1 diz-se de ou língua oficial da Tailândia, a mais importante desse grupo; tailandês.»

Léxico: «criptomnésia»

Boa desculpa


      «Segundo, porque não há dúvida de que o plágio não intencional existe. Há até uma palavra para isso: criptomnésia. Uma palavra fantástica. O leitor poderá conhecê-la. Eu não conhecia até a ter encontrado no meu fiel Webster’s:Criptomnésia: surgimento de imagens da memória na consciência que não são reconhecidas enquanto tal, parecendo criações originais”» (Onde Deixei os Meus Óculos?, Martha Weinman Lear. Tradução de Jorge Beleza. Porto: Porto Editora/Ideias de Ler, 2008, p. 108). Então eu recorro ao meu fiel Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado: «Criptomnésia, s. f. Faculdade em virtude da qual se conservam no espírito, despercebidas, noções que depois se podem revelar; memória inconsciente.» Também se lhe dá o nome de memória implícita. Alguns casos de suposto plágio poderão dever-se, na realidade, à criptomnésia (Martha Weinman Lear refere mesmo um caso de autocriptomnésia). Há imensos estudos sobre a criptomnésia. Há até estudos de criptomnésia social. Pesquisem, é um mundo que se abre.

«Ao mesmo tempo em que»?

Falta de ouvido

      «“A árvore celebra o maior criminoso da história da humanidade. Nós não precisamos de um símbolo nazi mesmo no centro de Jaslo”, precisou [Maria Kurovska, presidente da Câmara de Jaslo] a um jornal polaco, ao mesmo tempo em que um dos vereadores da câmara municipal da cidade, Krzystof Czelusnik, saiu em defesa da dita árvore» («Ameaçada árvore que foi plantada para Adolf Hitler», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 9.07.2009, p. 26). Podia ser, mas não é assim: se dizemos, e bem, no tempo em que os animais falavam, não devemos dizer, porque está mal, ao mesmo tempo em que uns acertam, outros erram. É um erro frequentíssimo, que parece resultar da confusão entre a estrutura das duas locuções, tanto mais que ambas exprimem uma relação temporal.

Tradução: «coroner» (I)

Imagem: http://doctorbulldog.wordpress.com/

Inspecção de si mesmo


      «Há muitos anos escrevi um perfil para o The New York Times Magazine sobre o homem que era então o coroner-chefe de Nova Iorque, o lendário Milton Helpern» (Onde Deixei os Meus Óculos?, Martha Weinman Lear. Porto: Porto Editora/Ideias de Ler, 2008. Tradução de Jorge Beleza, p. 50). Embora muitas vezes se afigure ser a única solução, ficar metade da palavra em inglês e metade em português não me parece boa ideia, e já aqui o disse mais de uma vez. Na obra citada ainda há mais: entre a palavra «coroner» e o hífen ainda há uma chamada de nota de pé de página (o que não consigo reproduzir aqui, por limitações do Blogger). Nesta, o tradutor escreve que «coroner» é o «magistrado encarregado de investigar casos de morte suspeita». Um reparo: não teria sido preferível escrever «chief-coroner», cargo que de facto existe? Assim, a nota de rodapé teria a redacção ligeiramente alterada. Quanto à nota: não sei se magistrado explica bem esta figura do sistema legal norte-americano. (O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora regista apenas para coroner: «juiz de instrução».) Vejamos. Em 1950, por exemplo, dos 70 coroners que havia no Wisconsin, 33 eram morticians, isto é, agentes funerários. Talvez seja melhor dizer que coroner é o funcionário público, habitualmente eleito, que investiga todas as mortes que se suspeitem não sejam naturais. Por outro lado, se é verdade que Milton Helpern (1902―1977) aparece muitas vezes referido como coroner, o certo é que Nova Iorque aboliu este sistema em 1915 (e já tinha sido abolido no século XIX noutros Estados), instituindo em seu lugar o de medical examiner, e para exercer este é preciso ser-se, pelo menos em princípio, médico, patologista ou médico-legista. E Milton Helpern era licenciado em Medicina. É que o medical examiner faz autópsias (palavra, a propósito, bem infeliz, pois que significa «olhar-se a si próprio». Ora, na autópsia não olhamos para nós próprios. Melhor será dizer «necropsia»). Milton Helpern, uma autoridade mundial, tornou-se chief medical examiner em 1954. O cargo de coroner, que tinha sido criado no sistema legal inglês em 1194, foi levado para a América. Não, não me enganei: é do tempo pré-normando. Originalmente, designava-se por custos placitorum coronæ, e daqui proveio, através de crowners, o vocábulo coroner.


«Showneral»?

Funeral da língua

      «Os milhares de fãs que acorreram à Baixa de Los Angeles levaram a peito o tema de showneral anunciado desde a véspera: vestidos de luto, os que privilegiavam um sóbrio tributo, ou, os que mais investiram na vertente do show, imitando o ídolo, com óculos espelhados e casacos de couro vermelho» («Um showneral para dizer adeus a Jackson», Rita Siza, Público, 8.07.2009, p. 23). Creio que foi na imprensa brasileira que li a amálgama pela primeira vez. Catarina Carvalho teve mais juízo (não há-de ser por acaso que é subdirectora do Diário de Notícias) e escreveu: «A morte de Michael Jackson está a ser uma das mais mediáticas dos últimos anos. Teve direito a especulações policiais, histeria de fãs, e até um espectáculo-funeral» («Michael Jackson, um caso de estudo de exploração familiar», Catarina Carvalho, Diário de Notícias, 11.07.2009, p. 8).

Idiomatismos

Na ponta da língua

      Na tradução, como se sabe, é preciso ter um cuidado especial com as fusões fraseológicas ou idiomatismos, pois são combinações de palavras que, devido a seu constante uso, perdem a independência e adquirem um sentido global diferente das palavras isoladamente consideradas. Primeiro é preciso identificar a sequência como um idiomatismo (e nem sempre isso acontece), e depois encontrar uma correspondência adequada, habitualmente com recurso aos dicionários bilingues, que, por vezes, apresentam apenas uma definição ou uma explicação da expressão idiomática e não o seu equivalente na língua de chegada, contribuindo assim para que o tradutor não restitua o valor metafórico. Há, contudo, surpreendentes correspondências idiomáticas interlínguas, e é destas que eu queria falar, e não (pelo menos hoje) dos defeitos dos dicionários. Estou aqui a ler a obra Onde Deixei os Meus Óculos?, de Martha Weinman Lear (Porto: Porto Editora/Ideias de Ler, 2008, com tradução de Jorge Beleza) e, a propósito do idiomatismo inglês tip of the tongue (na ponta da língua), a autora escreve: «Quanto a nós, deixe-me dizer-lhe que, em termos de tip of the tongue, estamos por toda a parte. Os italianos dizem sulla punta della lingua; os espanhóis al punto de la lengua; os franceses, que normalmente não gostam de dizer nada como os outros, soam exactamente como todos os outros quando dizem sur le bout de la langue; os suecos dizem jag har det pa tungan, os croatas na vrhu jezika mi je e os holandeses op het puntje van mijn tong — só Deus sabe como o pronunciam mas, e isto é o que importa, todos descrevem exactamente a mesma sensação exactamente da mesma maneira» (p. 11). Nunca li ou ouvi al punto de la lengua. ¡Lo tengo en la punta de la lengua!, ouço os Espanhóis dizerem. Vejam isto.

«Contentor monobloco»

Ora pensem lá

      «O último ainda ferve: o facto de 17 alunos de etnia cigana terem aulas à parte, num contentor ou monobloco, instalado na escola básica de Lagoa Negra, Barcelos, fê-la defender a “discriminação positiva” e sujeitar-se ao foguetório público e parlamentar» («Flores e espinhos da senhora DREN», Miguel Carvalho, Visão, 19.03.2009, p. 46). A frase refere-se à directora regional da Educação do Norte, Margarida Moreira, muito atreita a polémicas, que em entrevista à RTP 1, no mês de Março, afirmou que não se tratava de um contentor, mas de um monobloco. Uma boa parte da blogosfera argumenta, bah!, que a palavra «monobloco» nem sequer está registada nos dicionários, o que já nos permite aquilatar a valia intelectual dos autores. Do artigo que acabei de citar, infere-se claramente que o jornalista considera os vocábulos «contentor» e «monobloco» sinónimos. Se também é substantivo («Que ou o que é feito de uma única peça», regista o Dicionário Houaiss, por exemplo), «monobloco» aparece na maioria das vezes como adjectivo, e, no caso concreto, a qualificar «contentor»: contentor monobloco. Assim, é tão ridículo dizer que os vocábulos «contentor» e «monobloco» são sinónimos como afirmar que «chassis» e «monobloco» o são, pois existe o termo chassis (ou carroçaria, mais propriamente, inventado, ao que parece, por Vicenzo Lancia [1881–1937]) monobloco. Já que perguntam, respondo: sim, pode dizer-se contentor bibloco, mas se qualquer objecto não é monobloco, o normal é dizer-se que é constituído por módulos ou elementos.

«Portefólio de acções»?

Vocábulos tóxicos

      «Pergunto se falta muito para se inaugurar o BGM [Banco Granda Merda] porque tenho entre mãos um portefólio de activos tóxicos da minha lavra que eu gostaria de transferir para lá» («Quanto pior, melhor», Miguel Esteves Cardoso, Público, 17.06.2009, p. 39). Também se diz assim, caro Miguel Esteves Cardoso, mas é muito inglês. Mesmo no meio económico-financeiro, tão submissamente permeável à língua inglesa, usa-se carteira para dizer o mesmo. É assim que vejo portfolio of shares traduzido por carteira de acções. Até nas publicações de teor exclusivamente económico tenho visto «carteira»: «Por exemplo muitos dos Fundos de Pensões Fechados geridos pela ESAF investiram recentemente num fundo de acções com uma estratégia quantitativa que representa um complemento da sua carteira de acções em 2 a 5%» («“Fundos voltam a ser alternativa de poupança muito forte”», Vítor Norinha, Oje, 28.04.2009). E, naturalmente, nos jornais generalistas: «O seu pai, que trabalhava no Brasil, tinha-lhe deixado uma tarefa de peso: gerir uma carteira de acções da empresa familiar, a Orey Antunes» («Ambicioso e destemido», Rita Roby Gonçalves, Diário de Notícias/DN Bolsa, 10.07.2009, p. 14).
      «There is much evidence, for instance, that the performance of stocks is random — or so close to being random that in the absence of insider information and in the presence of a cost to make trades or manage your portfolio, you can’t profit from any deviations from randomness» (The Drunkard’s Walk — How Randomness Rules Our Lives, Leonard Mlodinow. Nova Iorque: Pantheon Books, 2008, p. 176).

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