Siglas e acrónimos (II)

Quase JEsUS

      Já aqui estranhei as siglas e acrónimos de instituições recentes. Vejam estes exemplos: «O Instituto da Construção e Imobiliário (InCI), organismo público que ficou responsável pela execução do Código dos Contratos Públicos, e pela criação de um portal, onde devem ser publicitados todos os ajustes directos e derrapagens, em nome da transparência e do rigor no uso dos dinheiros públicos, não está a conseguir, neste mesmo portal, dar o melhor exemplo» («Portal para a transparência das obras públicas adjudicado sem concurso», Luísa Pinto, Público, 29.06.2009). «O GEsOS [Gabinete de Estudos sobre a Ordem de Santiago] tem como objectivos promover a investigação historiográfica na área das Ordens Militares, divulgar o património histórico, documental e edificado das Ordens Militares e fomentar o apoio à edição e publicação de trabalhos de investigação nesta área» («Património cultural», Palmela É o Futuro, destacável do Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 10). Desde quando é que partículas como de, sobre e outras têm expressão na composição da sigla? AdP para Águas de Portugal ou BdP para Banco de Portugal é ridículo.



Elemento de composição «recém» (III)

Paciência…

      Ora vejam como o elemento de composição recém- continua a ser tratado: «Recém-ministro francês da cultura, Fréderic Mitterrand recusou o gabinete do antecessor e instalou-se no que pertenceu a Andrè Malraux» («Gabinete», João Vaz, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 30). «O brasileiro Luciano da Silva, de 33 anos, de Minas Gerais, teve pouco tempo para desfrutar a vida de casado. A polícia prendeu-o e acabou com o casamento: a recém-esposa descobriu que Luciano já era casado…» («Recém-casada descobre marido bígamo», Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 31). Em duas páginas seguidas...

Léxico: «estroncar»

Castiço, mas…

      «O ex-guarda estava encapuzado e, à cintura, tinha uma pistola, um pau com um bico em aço, um alicate e ainda uma chave de parafusos, alegadamente para estroncar as portas das casas que pretendia assaltar na madrugada de ontem» («GNR morto a tiro por ser assaltante», Almeida Cardoso, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 10).
      Estroncar é um verbo formidável, tenho é dúvidas se foi usado com propriedade, pois a acepção mais próxima é «partir; quebrar; desarticular». Ora, o contexto pedia algo como «arrombar», «forçar», «abrir».

Sobre «aminoácido»

Às três pancadas

      «Além disso, quando começaram a introduzir amino-ácidos que bloqueiam o acesso a estas bolsas, as moléculas de álcool já não conseguiam activar os GIRP» («Descoberta a área do cérebro onde o álcool actua», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 25). E amino-ácido pretende copiar o francês? Em francês é que é amino-acide, mas o étimo do nosso vocábulo é o inglês amino acid. Há autores que defendem que em compostos semelhantes a este, os semantemas se devem aglutinar entre si, pelo que melhor seria aminácido que aminoácido. Curioso é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registe «aminácido» mas neste verbete remeta para «aminoácido». Por outro lado, em todo o texto se lê GIRK, de Gbetagamma-activated inwardly rectifying K. Nesta frase saiu GIRP. Em compensação, explica-se o que são os GIRK: «são canais que abrem quando existe comunicação química entre os neurónios, enfraquecendo os sinais».

Preposições «sob» e «sobre»

Esforço brusco

      «É a segunda vez, em menos de um mês, que a PSP do Porto detém um grupo de menores sob o qual pendem fortes indícios da autoria de uma série de crimes violentos praticados na Baixa do Porto sob a forma de “arrastão”» («Rapazes de 12 e 14 anos fazem roubos violentos na rua», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 16). Como é que ainda há, não digo falantes comuns, mas jornalistas que confundem as preposições sob e sobre? Para a trapalhada ser maior, só faltava escrever que tinha sido «sobre a forma de “arrastão”». (Claro que as aspas são por conta do jornalista.) Também não percebo porque não corrigem na página da Internet os erros e gralhas que vão sendo detectados. Não vale a pena, não é?

Léxico: «mototriciclo»


Neologismo

      «Uma mototriciclo Piaggio Ape 50, mais conhecida por “vespa”, estava acorrentada a um carro Opel Corsa para evitar que a roubassem» («Moto acorrentada ‘travou’ roubo de carro», Daniel Lam, Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 16). Esqueçam a concordância. Nunca antes vi o vocábulo «mototriciclo». Aos veículos semelhantes ao da imagem vejo ser dada a designação de «triciclo», que é qualquer veículo, com motor ou sem motor, de três rodas. Para distinguir de um triciclo de crianças, desses que custam 10 euros num hipermercado, sim parece-me útil juntar-se o elemento moto-. E, por fim, é claro que o veículo da imagem não é conhecido por vespa.

«Khmeres» ou «Khmers»?

Esta é nova

      «As palavras são de Van Nagh, o primeiro dos três sobreviventes da prisão Tuol Sleng a testemunhar em tribunal no julgamento dos Khmeres Vermelhos» («O sobrevivente dos Khmeres testemunha», Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 24). Insinuou-se ali um ezinho que dantes nunca se via: Khmeres. Julgar-se-á que escrita desta forma a palavra é ou parece mais portuguesa? No Público, por sua vez, lia-se: «O pintor perdeu dois filhos nos “campos da morte” dos khmer vermelhos, que entre 1975 e 1979 foram responsáveis pelo desaparecimento de 1,7 milhões de pessoas — um quinto da população do Camboja — que não resistiram à fome, doenças ou exaustão, ou que foram simplesmente assassinadas» («O pintor de Pol Pot conta como sobreviveu ao centro de detenções S-21», Francisca Gorjão Henriques, Público, 29.06.2009).
      Bem, eu também tenho dúvidas se se deve grafar o nome deste movimento radical comunista com iniciais maiúsculas, questão que voltarei a abordar aqui, mas o certo é que no Livro de Estilo do Público se lê, a propósito da abordagem de assuntos com carga ideológica, Khmer Vermelhos («O sanguinário regime dos Khmer Vermelhos...»).

O elemento «neo-»

É confusão

      «Com este antigo deputado nascido na Colômbia, voltam as ideias neo-liberais do ex-presidente Carlos Menem, de quem Narvaez foi financeiro» («O milionário ruivo que beneficiou do voto anti-Kirchner», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 22). Helena Tecedeiro, uma das mais cuidadosas jornalistas que temos, queria escrever «neoliberais» e «Narváez». O elemento de formação de palavras neo- liga-se por hífen ao elemento seguinte quando este começa por vogal, h, r ou s. Quanto a «financeiro», ocorreu-me logo que pudesse ser má tradução do espanhol, mas não, o nosso substantivo «financeiro» também tem a acepção de «banqueiro» e não apenas o de «indivíduo versado na ciência das finanças», único significado do espanhol: «Persona versada en la teoría o en la práctica de estas mismas materias», o que remete para o adjectivo: «Perteneciente o relativo a la Hacienda pública, a las cuestiones bancarias y bursátiles o a los grandes negocios mercantiles» (in DRAE). De Narváez não é banqueiro: apoiou financeiramente, em 2003, a campanha de Carlos Menem.
      No Público, lia-se: «Narváez é um milionário de 55 anos que tem sido associado ao regresso das ideias neoliberais do antigo Presidente Carlos Ménem» («Derrota eleitoral põe em causa a “dinastia Kirchner”», Isabel Gorjão Santos, Público, 30.06.2009, p. 15). Neste texto, foi o nome de Menem que saiu errado.

Arquivo do blogue