Léxico: «spotter»

Vejam e disparem

      Atenção: os jornalistas descobriram uma nova palavra, um estrangeirismo, e não nos vão poupar nos próximos tempos: «A PSP, cujos spotters (elementos especializados na vigilância de claques e adeptos problemáticos) estavam encarregados de acompanhar a claque do Benfica No Name Boys até à Academia de Alcochete, remete a responsabilidade da falta de controlo sobre os incidentes de anteontem para o dispositivo da GNR no local» («PSP empurra culpa para a GNR», Correio da Manhã, 29.06.2009, p. 5). «Enquanto Sporting e Benfica se travam de razões em comunicados, a GNR remete para hoje uma posição cabal sobre os incidentes de sábado em Alcochete que levaram à interrupção do jogo entre os dois clubes que decidia o campeonato de juniores. Mas, apurou o DN, a GNR ignorou a informação dos spotters (agentes da PSP que acompanham e vigiam as claques) no sentido de fechar os portões aos 65 membros das claques do Benfica que depois se envolveram numa troca de pedras» («GNR ignorou dicas de segurança dos ‘spotters’», António Pedro Pereira, Diário de Notícias, 29.06.2009). Em inglês, spotter é simplesmente um observador. Coloquialmente, no inglês americano é detective particular.

Nomes de etnias

Um pouco mais

      «Os três presidenciáveis na eleição de ontem eram Kumba Ialá, líder do PRS, balanta, convertido ao islão, Malan Bacai Sanhá, muçulmano, beafada, e Henrique Rosa, independente, católico, filho de pai português e mãe fula. […] Sanhá é beafada, pelo que receberá votos dos mandingas, dos próprios beafadas e dos djakancos e sarankulés, que foram islamizados pelos mandingas, havendo entre estas etnias uma aliança cultural, social e religiosa. […] Por outro lado, o PAIGC, e não Sanhá, mobiliza os votos dos papeles, manjacos, mancanhos, bijagós, fulupes e bramís» («Prospectivas étnicas», Raul M. Braga Pires, Diário de Notícias, 29.06.2009, p. 23). Estão quase todos dicionarizados: Bijagós, Beafadas (ou Biafadas), Felupes (não vi «Fulupes»), Manjacos (ou Manjaques), Mancanhas (não vi «Mancanhos»), Brames (e não «Bramís», além de que o Dicionário Houaiss o dá como sinónimo de «Mancanhas»). Na Internet, a única ocorrência de «Djakancos» remete para o texto citado, isto porque esta etnia é conhecida por Jacancas. Quanto a «Sarankulés», já tenho lido Saranculés e Seraculés. E ora aparece Papeles ora Papéis. Quando a preocupação, louvável, era escrever os nomes das etnias em português, não percebo porque optou o autor do texto por escrever «djakancos» e «sarankulés».

Verbo «faltar», de novo

Uma gramática ajudava

      «Os jogadores vão concentrar-se no Mar para os habituais exames médicos, numa altura em que ainda faltam acertar algumas aquisições para fechar o plantel.» «Fernando Oliveira, líder da Comissão de Gestão, confirmou ontem que, apesar de faltar dois ou três jogadores, o plantel está quase fechado.» É verdade que os erros se encontravam em páginas diferentes, em textos escritos por dois jornalistas, mas eu estava lá e impedi o desastre. Não vejo a dificuldade. Vejo é que não aprenderam nem provavelmente irão aprender.

O uso de estrangeirismos

Adivinhem

      «Este [o debate nos meios de comunicação social nos Estados Unidos] encontra-se quase completamente ocupado por políticos e por pundits como Bill O’Reilly, Keith Olbermann e Sean Hannity, estes últimos cumprindo a função de comentadores supostamente informados mas, na prática, fazendo parte de um sistema de produção de opiniões cada vez mais politizado e partidarizado, e cuja relação com alguns factos básicos conhecidos sobre a vida política é, no mínimo, problemática» («Os politólogos», Pedro Magalhães, Público, 29.06.2009, p. 29). Nesta última crónica para o Público, Pedro Magalhães usou duas vezes o termo inglês pundit sem nunca explicar do que se tratava. Claro que, não sendo jornalista, não tem a mesma gravidade, mas as consequências para leitor são as mesmas — não compreenderá do que se trata. Pundit é o nosso «pândita», mas noutra acepção que desconhecemos, a de «analista».

Actualização em 14.08.2009

      «Clinicians, pundits and researchers all like to say things like ‘There is a need for more research,’ because it sounds forward-thinking and open-minded» (Bad Science, Ben Goldacre. Londres: Fourth Estate, 2008, p. 57). «Tanto os clínicos como os peritos e os investigadores fazem afirmações do género: «É necessária mais investigação», porque transmite uma ideia de visão do futuro e abertura de espírito» (Ciência da Treta, Ben Goldacre. Tradução de Maria Georgina Segurado. Lisboa: Editorial Bizâncio, 2009, p. 76).

Ortografia: «superior-geral»

Analogia


      «Apesar de ter agradecido ao Papa o levantamento da excomunhão, Bernard Fellay, superior-geral da Fraternidade [São Pio X], reafirmou as suas reservas quanto à doutrina saída do Concílio Vaticano II» («Integristas desafiam Vaticano», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 29.06.2009, p. 27). Sim, superior-geral escreve-se, à semelhança de director-geral, por exemplo, com hífen, embora poucas vezes se veja assim grafado. A língua é muito complexa e dificilmente se conseguirá uniformizá-la, ainda mais no que diz respeito à ortografia. Não é de ontem que o Diário de Notícias grafa assim a palavra: «A 35.ª Congregação Geral da Companhia de Jesus elegeu ontem, em Roma, o espanhol Adolfo Nicolás como novo superior-geral em substituição do padre Hans-Peter Kolvenbach. O padre espanhol, de 71 anos, torna-se o 29.º dirigente da ordem desde a sua fundação, em 1540, por Santo Inácio de Loyola» («Jesuítas elegem padre espanhol para novo superior-geral da ordem», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 20.01.2008).

«Quiquadrado»?

Qual delas?

      E a propósito de ler aqui num texto «cociente» em vez de «quociente», que prefiro por estar perto do presumível étimo latino: escreve-se qui-quadrado, qui quadrado ou quiquadrado? Em inglês escreve-se chi-square. Se é a mera leitura de X ao quadrado, sim, deveria escrever-se «qui quadrado». Qui é o nome da vigésima segunda letra do alfabeto grego. Contudo, substantivado, creio que o mais correcto é quiquadrado. Há quem escreva chi, mas, pelo menos dicionarizado, é apenas o termo popular e familiar para abraço.

«Liberado»

Muito bem

      Já alguma vez ouviram um português de gema dizer que determinada mulher era sexualmente liberada? Pois não, só um brasileiro o diz. Contudo, a acepção faz-nos falta. Se consultarmos um qualquer dicionário, para o adjectivo «liberado» só encontramos o significado de título que já foi pago. Referido àquele que se libertou de certas convenções sociais e morais seguidas pela maioria, é acepção que nem como brasileirismo aparece referida. Como fazemos: optamos por «libertada»? «Livre»? E será o mesmo? Eis que vejo numa tradução portuguesa, de Fernanda Pinto Rodrigues, a acepção brasileira: «Não é uma semiadolescente, não é desleixada e desgrenhada, não é uma rapariga liberada, digamos» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 12).

«V2»

Como um foguete

      Durante a Segunda Guerra Mundial, os Alemães lançaram V2 sobre Londres. Atingiam velocidades supersónicas ou ultra-sónicas: mais de cinco vezes a velocidade do som. As pessoas só as ouviam quando já tinham atingido o solo. Mas as V2 eram o quê? Em inglês, diz-se rocket. Numa tradução, vejo vertido por foguetão, mas, ao ouvir este vocábulo, mais depressa me ocorre a imagem de um veículo utilizado para transportar satélites artificiais e lançá-los em determinada órbita e para exploração do espaço cósmico do que a de uma arma de deflagração que se projecta à distância. Mas também tenho visto as V2 referidas como foguetes, pois um «foguete» é também um projéctil autopropulsionado. Finalmente, tenho lido igualmente que a V2 é um míssil, pois este é um «projéctil equipado com dispositivo motopropulsor, autoguiado, teleguiado ou não guiado, que pode atingir velocidades supersónicas e alcançar distâncias da ordem dos milhares de quilómetros e é geralmente usado como arma, para atingir um alvo» (Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). O que acham os meus leitores?

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