«Skiff»? «Esquife»!

O esquife da língua

«A skiff com oito piratas da Somália que ontem tentou atacar o navio de Singapura, chegando a disparar para a ponte do navio, já tinha sido registada pela Corte-Real» («Fragata acaba missão a impedir ataque pirata», João Pedro Fonseca, Diário de Notícias, 23.06.2009, p. 9). Só um lamentável desconhecimento da língua portuguesa pode explicar que um jornalista escreva, sem explicar, «skiff» em vez de «esquife». A língua inglesa terá recebido a palavra do francês — e nós também. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em linha define esquife como uma embarcação pequena, semelhante à baleeira. (Talvez o nosso leitor Paulo Araujo nos possa explicar se é assim.) Vejam como o Estadão escreve: «O tenente comandante da Otan Alexandre Fernandes afirmou que o petroleiro norueguês MV Kition solicitou ajuda por rádio na tarde de sexta-feira depois que um esquife cheio de piratas armados com rifles e granadas se aproximou» («Forças da Otan evitam ataque a petroleiro norueguês», Alison Bevege, Estadão, 2.05.2009). Na legenda de uma imagem que ilustrava o artigo, lia-se também a variante Côrte-Real. No sítio da Marinha, contudo, lê-se sempre Corte-Real. A anteceder o nome dos navios da Marinha, está sempre a abreviatura N. R. P., que não é de nosso reverendo padre, mas de Navio da República Portuguesa, como a anteceder o nome dos navios da Marinha inglesa está a abreviatura HMS. A propósito, os Brasileiros têm um Dicionário de Formas de Tratamento, da autoria de Luiz Gonzaga Paul, publicado pela AGE em 2008.

Anglicismo sintáctico

À flor da pele

«As gueixas debruçavam-se das janelas e das varandas, as compridas mangas de seda flutuando como bandeiras vermelhas e roxas» (Madame Sadayakko, Lesley Downer. Tradução de Maria José Figueiredo e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Bertrand Editora, 2004, p. 292). Isto é português? Bem, não exactamente. Na segunda oração, com o verbo no gerúndio, a sintaxe inglesa, com o sujeito em posição pré-verbal, está lá toda, mal disfarçada. Nesta obra concretamente, os exemplos são mais que muitos (mas podia apontar exemplos de dezenas de traduções): «A zona era atravessada por avenidas, percorridas por centenas de riquexós que se deslocavam a alta velocidade, as rodas produzindo o ruído típico do metal enquanto os condutores berravam advertências aos transeuntes que se lhes atravessavam à frente» (p. 38). Os tradutores acham e os revisores aprovam, submissos. O que acha o Fernando?

Tradução de «fret»

Imagem: http://www.andrewshearman.com/

Don’t fret

Parece ter sido Blaise Pascal (1623–1662), quando especulava com uma ideia para uma máquina de movimento perpétuo, o inventor da roleta (em francês, roulette, «pequena roda»). O que me interessa agora é saber o nome que se dá à divisória entre cada uma das 36 casas, mais o 0 (e 00 na roleta americana), alternadamente vermelhas e pretas. Em inglês é fret, por causa, imagino, da semelhança com cada um dos filetes metálicos que, no braço dos instrumentos de corda, orientam a posição dos dedos. A estes filetes damos nós o nome de trastos, que vem do latim transtrum, «travessa; viga transversal; banco do remador» (de onde também poderá derivar o inglês thwart, «banco de remador; bancada de embarcação»). E na roleta?

Caracteres especiais


No Algarve!?


      A propósito desta notícia, alguns jornais afirmam que a residência do falecido realizador sueco era na ilha báltica de Faro. Noutros, entre os quais destaco o Público (P2, 23.06.2009, p. 8), desta vez cuidadoso, o nome da ilha aparece grafado correctamente: Fårö. Quando, a propósito do nome do futebolista Nemanja Vidić, aqui publiquei um texto em que defendia o uso dos caracteres originais, um ignorante furibundo deixou-me um comentário virulento e insultuoso em que dizia que só um ignorante — no caso, eu — não tinha noção de que nos jornais era impossível grafar os nomes, topónimos ou antropónimos, da forma original. Pois, pois… As letras å e ö são, no alfabeto sueco, vogais, a par de a, e, i, o, u, y e ä. Logo, o sinal que encima o carácter não é um diacrítico, mas uma espécie de ligatura, até porque, historicamente, å veio a determinada altura substituir aa.

Quem faz estatísticas

Profissão?...

Não, não: ao indivíduo que se ocupa de trabalhos estatísticos não se dá o nome de especialista em estatística. Ou dará? Para espanto meu, dizem-se, pelo menos alguns, estaticistas e outros, estatísticos. E estaticista é, há ainda esse risco, quase parónimo de esteticista… O Dicionário Houaiss não regista «estaticista», mas estatista. Em inglês, é statistician; em francês, statisticien; em espanhol, estadístico. Prefiro a forma «estatista», por ser um substantivo comum de dois (o/a estatista) e ser mais curto.

«Auto-recreação», outra vez

Como disse?


      Maria Flor Pedroso esteve a entrevistar Tavares Moreira, antigo governador do Banco de Portugal e antigo secretário de Estado de Miguel Cadilhe, na Antena 1. O motivo, julgo, pois não ouvi desde o início, é a publicação de um livro, Processo Indecente, em que conta que o processo judicial de que foi alvo visava impedir que fosse nomeado para a Caixa Geral de Depósitos, no tempo de Durão Barroso. Às tantas, disse que qualquer coisa tinha sido feita por «auto-recreação». Já vimos aqui esse erro. Também disse, em relação a certa matéria, que não tinha sido «nem ouvido nem achado», o que parece ser a recriação de «nem visto nem achado».

Léxico: «bomba-lapa»

Sua lapa

«A explosão de uma bomba-lapa com cerca de dois quilos de explosivos, colocada junto ao depósito de gasolina, incendiou o carro e propagou as chamas a outros quatro veículos» («Polícia em chamas no seu carro destruído pela ETA gritou “tirem-me daqui”», Nuno Ribeiro, Público, 20.06.2009, p. 16). Em inglês diz-se limpet mine. Limpet traduz-se por lapa, o molusco gastrópode de concha univalve. Em sentido figurado, limpet designa o funcionário público agarrado ao seu lugar. «Chief Inspector Eduardo Puelles García died instantly when a limpet mine attached to his car exploded at 9.05am. The attack took place in car park near his home in Arrigarriga, near Bilbao» («Eta kills Bilbao anti-terror chief Eduardo Puelles García in car bomb attack», Graham Keeley, The Times, 19.06.2009).
Em francês diz-se bombe ventouse. «L’explosion “semble avoir été provoquée par une bombe ventouse fixée sous le véhicule, une méthode souvent employée par l’organisation clandestine pour ses attentats meurtriers, selon cette source [Paxti López, chefe do governo autónomo do País Basco]» («Un policier tué dans un attentat au Pays Basque», Libération, 19.06.2009).

Género de siglas

No… na… hum…

«Porque é uma matéria com uma atraente combinação de fascínio intelectual e porque elas me ouviram no NPR a fazer a crítica de livros e me viram no Thirteen a falar de cultura» (O Animal Moribundo, Philip Roth. 3.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, p. 11). Uma chamada de nota à sigla NPR explica: «National Public Radio. (N. da T.)» Sendo assim, deveria ser «na NPR», como vimos aqui, matéria relacionada com estoutra. Mais à frente, lê-se: «Eu, seu professor de Crítica Prática, o esteta do PBS dos domingos de manhã, a autoridade reinante da televisão de Nova Iorque acerca do que há presentemente de melhor para ver, ouvir e ler — eu declarara-a uma grande obra de arte» (p. 3). Aqui, uma nota a PBS diz: «Public Broadcasting Service. (N. da T.

Arquivo do blogue