Sobre «marchante»

Marchand des quatre-saisons

O filho de David Kepesh, o protagonista de O Animal Moribundo, de Philip Roth (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Manuela V. C. Gomes da Silva, p. 11), tem uma empresa de restauração de obras de arte. Diz-lhe o pai: «Conheces todos esses artistas. Conheces todos esses marchantes» (p. 76). Algo nos escapou. Mas a empresa não é de restauração de obras de arte? Nos dicionários que conheço, marchante é aquele que negoceia em gado para os açougues ou talhos. Já alguém me dirá que «neste caso nem é uma palavra nova, é uma apropriação natural de significante para um significado». Pois é, mas o problema nem é esse, mas o leitor desconhecer a intenção (nem todos somos leitores especializados, revisores ou professores universitários, não é?) do tradutor.
O galicismo marchand configura um caso muito interessante. Na língua francesa tem um sentido abrangente de «comerciante»; entre nós (e o mesmo se passa no âmbito do espanhol), usamo-lo para designar apenas o comerciante de obras de arte.

Ortografia: «semiópera»

Semioculto, o erro

Tive de rever um textinho (ou textículo, se quiserem) em que se lia que Henry Purcell compôs «pelo menos meia centena de semi-óperas». Até em publicações da Fundação Calouste Gulbenkian, habitualmente cuidados, vejo o erro: «Henry Purcell deixou-nos um total de cinco semi-óperas: The Dioclesian (1690), The Fairy Queen (1692), The Tempest (ca. 1695), The Indian Queen (1695) e King Arthur (1691) a única com um libreto especificamente escrito para o efeito da autoria de John Dryden, já que as restantes quatro foram adaptações de peças já existentes» («A música como teatro», Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian, 1998). Semioculto, semiobscuro, semioficioso…

Léxico: «flanelógrafo»

Imagem: http://3.bp.blogspot.com/

Na escola


«Para quem não se lembrar, o dito flanelógrafo consistia numa prosaica flanela onde as professoras colavam umas árvores, cães, casas, etc., tudo devidamente recortado em flanelas coloridas» («O flanelógrafo, o acetato e o Magalhães», Helena Matos, Público, 26.03.2009, p. 33). Bem, método pedagógico do passado, sim mas não é exactamente uma «prosaica flanela». É antes uma prancha rija, de cartão, cartolina, platex, corticite ou isopor, com um lado revestido de flanela ou feltro (chamando-se então feltrógrafo), habitualmente verde-escura ou preta, onde são aplicados elementos recortados em cartolina e com pequenos pedaços de lixa ou de velcro colados na parte posterior para garantir a aderência de figuras: árvores, cães, casas, etc.

Como se escreve nos jornais

Escrever com propriedade

«“Não tinha a noção do que estava a fazer”, afirmou Vítor Santos, que conseguiu votar em duas freguesias (uma do concelho da Batalha e outra de Leiria), porque possuía dois números de eleitor, um já antigo e um outro indexado ao novo Cartão do Cidadão» («Cidadão vota duas vezes», Diário de Notícias, 18.06.2009, p. 11). «Indexado»? Indexado é posto, registado num índice ou lista ordenada. Será o termo correcto? Escrever qualquer coisa que vem à cabeça não me parece lá muito judicioso.

«Tanatoprator»?

Ambiente ascético


      O Diário de Notícias entrevistou Nuno Coutinho, técnico de tanatopraxia na funerária Servilusa: «Eu não embalsamo corpos. Para ser preciso, sou um tanatoprator. Utilizo uma técnica muito parecida com um embalsamamento e mais generalizada. A diferença está nos líquidos que injectamos nos cadáveres. O tanatoprator utiliza líquidos mais fracos do que o técnico que faz os embalsamamentos» («“Será impossível disfarçar a decomposição dos corpos”», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 22.06.2009). Na página na Internet da Servilusa, lê-se, a propósito da tanatopraxia, isto: «Os tratamentos de Tanatopraxia permitem a difusão no conjunto dos tecidos de uma dose suficiente de um produto bactericida adaptado, cujo efeito é somente destruir as bactérias existentes, mas ainda estabelecer um ambiente ascético capaz de resistir a uma invasão microbiana.» Vejamos: os mais comuns dicionários já registam o termo quiropraxia, ao qual não fazem corresponder o adjectivo e nome masculino *quiroprator, mas quiroprático. Assim, a tanatopraxia só pode corresponder tanatoprático. O Dicionário Houaiss regista *tanatopráctico e tanatopráxico. A primeira forma, que aparece em dois verbetes, só pode ser lapso, pois regista, e bem, quiroprático.

Género de «SMS»

Nem pensar



      «E para que as clientes não esperem no exterior, a Pink Ladies envia um SMS a avisar que o táxi já chegou» («Táxis rosa contra agressões sexuais», Diário de Notícias, 6.4.2006, p. 24). «O homem terá então trocado mensagens sms com a vítima, que não conhecia, e em Dezembro de 2008 marcou um encontro em Lisboa, em que sujeitou o jovem “à prática de diversos actos sexuais”» («Seduziu através de ‘chat’ e violou rapaz de 14 anos», Diário de Notícias, 21.02.2009, p. 24). «Mas até ao fecho desta edição a pivô do Jornal Nacional 6.ª Feira e directora adjunta da TVI não atendeu os telefonemas nem respondeu à SMS enviada» («“Moura Guedes é um exemplo de péssimo jornalismo”», Tiago Guilherme, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 59).
      Primeiro do género masculino (considerado o correcto, por ser service o núcleo desta sigla inglesa), depois a adjunção do nome «mensagem» e, finalmente, a passagem ao género feminino, por suposta elisão do nome «mensagem». No meio, algo mais mudou: a sigla passou a ser, irregularmente, grafada em minúsculas.

«Encomendar» e «pedir»

Are you ready to order?

«Com as pernas a tremer, dirigiram-se ao restaurante mais próximo, onde começaram a encomendar — bifes, caril, tudo aquilo com que haviam sonhado no decurso das últimas semanas» (Madame Sadayakko, Lesley Downer. Tradução de Maria José Figueiredo e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Bertrand Editora, 2004, p. 153). Fico sempre espantado quando vejo tradutores, e tradutores experientes, a encomendar pratos nos restaurantes. E os revisores, na euforia da companhia, fazem, inconscientemente, o mesmo. Lá por em inglês encomendar e pedir poderem ser expressos pelo mesmo verbo, to order, e order, como substantivo, poder ser traduzido por encomenda ou pedido, não quer dizer que seja tudo o mesmo.

Ortografia: «narcoestado»

Sem narcoanálise

      «O resvalar da antiga Guiné Portuguesa para o estatuto de Narcoestado fora admitida o mês passado pelo Departamento de Estado, em Washington» («Primeiro Narcoestado da África Ocidental terá cocaína a circular à média de mais de mil milhões de dólares por ano», Jorge Heitor, Público, 26.03.2009, p. 4). Sim, senhor: narcoestado escreve-se sem hífen, pois o antepositivo narc(o)- solda-se sempre ao elemento seguinte, excepto, naturalmente quando este começa por h, mas, mesmo nesse caso, podemos ter: narco-hipnose e narcoipnose. Já não me parece, caro Jorge Heitor, que precise de começar por maiúscula inicial. Veja este exemplo com outro antepositivo: «Os modelos seleccionados por Pazzi são todos padres católicos que transitam por Roma, mas não são necessariamente italianos: o padre de Fevereiro, por exemplo, é espanhol, de Saragoça, e na cidade que acolhe o microestado do Vaticano, o fotógrafo — que é de Veneza — apanha na sua objectiva sacerdotes de toda a Itália» («Um belo padre por mês», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 6.06.2009, p. 32). Escusado será dizer que o termo «narcoestado», cada vez mais usado nos meios de comunicação social, ainda não está dicionarizado.

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