Sobre a gripe

Façam um referendo

Num texto publicado anteontem, os revisores do Le Monde afirmam que, à semelhança do vírus, também a designação sofreu mutações: «grippe mexicaine, grippe porcine, grippe A (H1N1)». Se a enumeração pretendia ser cronológica, está incorrecta e incompleta, pois a primeira designação foi gripe suína. Só quando, nos finais de Abril, o vice-ministro da Saúde israelita, Yakov Litzman, pediu ao público e aos jornalistas que deixassem de usar a designação de gripe suína, em deferência às sensibilidades judaica e muçulmana em relação ao porco, e propondo em alternativa gripe mexicana, é que esta designação passou a ser usada em todo o mundo, mas somente como alternativa. Entretanto, também a Confederação de Suinicultores Mexicanos reclamou uma alteração à denominação dada à doença (e estes, supõe-se, estão mais preocupados com o negócio do que com os concidadãos, pelo que pouco se importarão que se chame gripe mexicana). Observam os revisores do Le Monde que «dans un titre, grippe porcine peut se révéler plus intéressant que grippe A (H1N1)». Por ordem: gripe suína, gripe mexicana, gripe A (H1N1), gripe A, gripe H1N1. Cinco designações para a mesma doença? Não pensam nos leitores?
«Gripe mexicana é “muito pouco provável” na criança de Chaves» (Jornal de Notícias, 29.04.2009). «Gripe H1N1: Brasil com mais 3 novos casos, sobe para 14 o número de casos confirmados» (Jornal de Notícias, 29.05.2009). «Portugueses em cruzeiro onde há casos de Gripe A “estão bem”» (Jornal de Notícias, 29.05.2009). «Primeiro caso suspeito de gripe suína em criança» (Diário de Notícias, 29.04.2009). «Gripe A H1N1: Vírus em franca expansão no Canadá fez passar fasquia dos 3500 doentes» (Jornal de Notícias, 13.06.2009).
No dia 30 de Abril de 2009, a OMS passou a designar a gripe suína por gripe A.

Verbo «meter». Confusões (II)

Mete pena

      Já aqui abordei mais de uma vez as confusões em relação aos verbos pôr e colocar e, menos frequente, entre estes e o verbo meter. Veja-se este exemplo: «Sai do mato dentro de uma carrinha vermelha de caixa aberta. Apanha o cabelo, mete os óculos escuros, compõe o sutiã e vira-se de novo para a estrada» («Romenas disputam estrada», Sónia Trigueirão, Correio da Manhã, 14.06.2009, p. 7). Ó senhora jornalista (e senhora, não é?, revisora), então meter não é «inserir, pôr dentro, fazer entrar, introduzir»? Podia ter metido os óculos num estojo, isso sim.

«Porta a porta»

E dar em terra

      «Amanhã, os pães que sobrarem serão distribuídos porta a porta pelos elementos da irmandade, juntamente com um litro de vinho de cheiro (feito a partir da casta americana Isabelle)» («Espírito Santo. O Divino sai à rua — e as melhores roupas também», Sandra Silva Costa, Público/P2, 7.06.2009, p. 5). Está certo: porta a porta, porque é locução. Se for substantivo, será porta-a-porta (distribuição porta-a-porta, v. g.). Por coincidência, na Gramática Histórica, de Ismael de Lima Coutinho, que citei no texto «Ou velho lusismo?», leio: «Até hoje a preposição em é empregada com idéia de movimento, em português correto, nos seguintes casos: Saltar em terra, ir de porta em porta, etc.» (p. 339). No dicionário de Rafael Bluteau, lê-se no verbete «porta»: «De porta em porta, i e. de casa em casa v. g. “mendigar de porta em porta”».

Lapsos jornalísticos

É uma bica e um dicionário

A jornalista do Público Sandra Silva Costa cometeu a duvidosa proeza de escrever uma reportagem, «Espírito Santo. O Divino sai à rua — e as melhores roupas também» (P2, 7.06.2009, pp. 4–7), sobre a festa do Espírito Santo nos Açores em que usou seis vezes a palavra «império» sem nunca explicar do que se trata. O leitor, que já é crescidinho, que se desenrasque. Vá lá, façam qualquer coisa, que a senhora jornalista tem mais que fazer. Em três páginas inteiras de texto, não tivemos mais que aproximações: «De um dos lados, atrás da fila de carros de bois, está uma pequena capelinha branca debruada a cor-de-rosa. É um Império do Espírito Santo e foi construído em 1894.» Sim, mas o que são «impérios»? «Nos Açores, explica Rui Costa, o culto ao Divino gira em torno dos impérios — e só na Terceira são mais de 60, aos quais correspondem outras tantas irmandades.» Sim, mas o que são «impérios»? «São oito domingos em que há coroações, sendo que os dois últimos domingos são os do bodo, que se distinguem dos outros porque a irmandade responsável pelo império em causa oferece pão a toda a comunidade.» Sim, mas o que são «impérios»? «Agora que a procissão acabou, o padre da freguesia dirige-se para o império — o feno verdinho espalhado pelo chão dá-lhe um agradável aroma campestre.» Sim, mas o que são «impérios»? «O primeiro império dos Açores data de 1670 e a manutenção, ainda hoje, de tradições como o abate de animais revela que o culto “tem um fundo judaico muito forte”.» Sim, mas o que são «impérios»? «E chegamos ao bolo: “A organização das irmandades é um exemplar valiosíssimo de uma forma de democracia que tem funcionado em pleno”, entende Antonieta Costa, que, entre 2000 e 2003, coordenou a candidatura dos impérios dos Açores a património cultural imaterial da UNESCO.» Sim, mas o que são «impérios»?
O Dicionário Houaiss explica que é o «recinto (coreto, capela ou ermida de madeira ou de pedra) onde se expõe a coroa do Espírito Santo no Domingo de Pentecostes; arraial por ocasião dessas festividades». Fica-se igualmente a saber que, por metonímia, é, nos Açores, o nome que se dá «ao conjunto de festejos em honra do Divino Espírito Santo». Para agravar a culpa da jornalista, o termo é usado no texto nestes dois sentidos.

O elemento «anti-»

Culpa da Lusa?


      Lamento sempre quando algum jornalista se limita a copiar, e bastas vezes mal, a fonte para a notícia que redigiu. Valha este caso: «O sol, as sardinhas e o salmão são algumas fontes de vitamina D, uma substância que ajuda a prevenir doenças como o cancro, as depressões, a demência, a esquizofrenia, o raquitismo e os enfartes, alertou o especialista norte-americano Michael Holik no II Congresso Ibérico de Medicina Anti-Envelhecimento, em Vilamoura» («Sol, salmão e sardinhas ajudam a prevenir cancros», Público, 7.06.2009, p. 14). O jornalista tem obrigação de saber que o elemento anti- se aglutina com o elemento seguinte, excepto quando este tem vida própria e começa por h, i, r ou s, separando-se, neste caso, por hífen. Logo: antienvelhecimento. Sim, é isso mesmo que estou a afirmar: o jornalista deve estar a borrifar-se para o nome «oficial». Por outro lado, o jornalista tinha obrigação de pesquisar o nome do especialista citado. Dá-se o caso de existir um Michael Holik, mas é outro macaco qualquer, não o professor de Medicina, Fisiologia e Biofísica e director do Centro Médico da Universidade de Boston (BMC). E mais: pergunto-me se não será ambíguo afirmar que o especialista é norte-americano, quando é canadiano. (E sim, sei o que registam muitos dicionários: de ou relativo aos naturais de qualquer dos países que constituem a América do Norte [Canadá, Estados Unidos e México].)

As dobragens e os erros

Tomem esta insónia

aqui lembrei um dia o caso da minha condiscípula Amélia, que não era capaz de articular o vocábulo «mesa», saindo-lhe sempre, qual moçoila do Lácio, «mensa». No episódio de ontem de Era uma vez os irmãos Grimm, no canal Panda, que se apresenta como um «canal temático educativo», uma ou duas personagens diziam «condensa» em vez de «condessa». Os actores terão lá as suas deficiências, mas é imperdoável que o director de dobragem não exerça controlo sobre a forma como as palavras, matéria-prima da sua actividade, são pronunciadas. Macacos me mordam se eu, e que Laurence Peter (uma nota de cultura highbrow para servir de pábulo às luminárias que frequentam estas paragens) me valha, não fazia uma dobragem com mais qualidade.

Léxico: «excessividade»

Falta de moderação


      «Aurora Campelo frisa, contudo, “alguma excessividade[”] na forma como Marinho e Pinto se exprime e interroga se a crispação existente nalguns sectores não estará relacionada com “lóbis e interesses beliscados”» («“Permita que lhe diga, senhor bastonário… gosto muito de o ouvir falar”», Paula Torres de Carvalho, Público, 7.06.2009, p. 13). Não são todos os dicionários da língua portuguesa que registam o termo «excessividade». (Alguns, porém, até «excessivismo» registam.) A fiar-me na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que o regista, «qualidade de tudo o que é excessivo», não me parece que tenha sido utilizado com propriedade na frase do Público, mas gostava de ler outras opiniões. As restantes línguas novilatinas não registam nenhum vocábulo equivalente a este «excessividade». Em espanhol e em galego, apenas exceso; em catalão e em romeno, excés; em francês, excès; em italiano, eccesso. E «excesso», substantivo formado a partir do supino (forma nominal dos verbos latinos, em –um e em –u, que não passou para o português, de cujo radical se obtém o particípio passado e que, usada como nome, designa o resultado da acção, a finalidade: Hostes venerunt deletum oppidum [Os inimigos vieram para destruir a cidade]; Res facilis dictu [Coisa fácil de se dizer]) latino excessum, parece-me chegar para os gastos.

«Chegar em»: brasileirismo

Ou velho lusismo?


      Há um texto, «Quem mexeu no meu texto?!», do escritor Gabriel Perissé sobre o trabalho do revisor que se encontra publicado em vários sítios da Internet e que agora me enviaram. Em lado nenhum, e não me poupei a esforços, se lê que o autor é ou foi revisor, pelo que é mais um texto literário do que um testemunho.
      «Tal como o goleiro no futebol, o revisor, na editora, é aquele que evita o pior (o gol adversário, o erro de digitação, a escorregada gramatical, a incoerência que ninguém percebeu, etc.).
      No entanto, é também o revisor quem mais sofre com as derrotas de um texto. Ele é o último homem (ou a última mulher) a ler o livro antes da fase de impressão gráfica, quando não há retorno...
      Monteiro Lobato dizia que a tarefa do revisor era das mais ingratas. Que o erro ou a falha se escondiam durante o processo de confecção do livro para, depois de tudo pronto, aparecer na primeira página aberta, como um saci danado, pulando, debochando do revisor.
      O revisor é um caçador de distracções. Uma de suas maiores alegrias (em que há uma pitada de vaidade) é encontrar deslizes do autor, perceber as gralhas que ninguém viu antes, corrigir detalhes que iam passar despercebidos.
      O revisor revisa com amor.
      O revisor sai de manhã, caneta em punho, em busca de verbos mal conjugados e vírgulas fugitivas.
      O revisor revisa com dor.
      O revisor chega em casa, à noite, com o coração cheio de parágrafos amputados e tópicos frasais remendados.
      O revisor revisa com ardor.
      O revisor enfrenta moinhos de vento que de fato moem o vento de palavras que o vento não leva.
Madrugadas insones, manhãs e tardes quentes, noites chuvosas, o revisor vai pulando as linhas e entrelinhas do texto em busca das ciladas armadas sabe Deus por quem.
      O revisor entrega o seu trabalho bem suado e abençoado. Recebe as moedas de prata que são, na verdade, moedas de ouro. Recolhe seus instrumentos de caça, enxuga o rosto, sorri. Sabendo que o autor poderá reclamar de suas intervenções, que poderá referir-se ao revisor, gritando: quem mexeu no meu texto?!
      O mérito da frase perfeita é do autor.
      O crime do erro cometido será do revisor.
      O revisor, porém, não se considera um injustiçado. O revisor vitimista abandonou a profissão no primeiro dia. O verdadeiro revisor, como o goleiro no futebol, sabe que nasceu para ficar ali, na pior posição de todas, para agarrar centenas de bolas difíceis e, talvez, deixar passar a mais fácil de todas.
Oços do ofíssio.»
      Há quase consenso, pelo menos em autores contemporâneos, sobre aquela construção do verbo chegar com a preposição em ser um brasileirismo. Quase. Tenho à minha frente a 6.ª edição da Gramática Histórica de Ismael de Lima Coutinho, datada de 1969. Nela, o autor, muito conceituado, afirma que já no latim a preposição in se usava com verbos de movimento: Vado in portum. Lembra também o autor que no francês se usa a mesma preposição em determinados casos: Je vais en ville. E, por fim, que a prática dos Brasileiros encontra justificação na antiga linguagem portuguesa, citando, entre outros autores, Camões, que n’Os Lusíadas escreveu: «Nalgum porto seguro, de verdade,/Conduzir-nos já agora determina…» (II, 32). Reputa assim de falso brasileirismo esta construção, provando que não passa de um velho lusismo. Contudo, passadas várias décadas, a construção tornou-se de facto um brasileirismo.

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