Como se escreve nos jornais

Incoerências públicas

«Robert Mugabe era em 1970 um preso político do regime rodesiano branco de Ian Smith e tinha a mulher, Sally Francesca Hayfron, exilada em Londres, de onde as autoridades pensaram expulsá-la, por o seu visto de entrada no Reino Unido ter expirado. E agora documentos divulgados pelo Governo britânico falam dos diversos passos que ele deu, a partir da cadeia em Salisbúria (actual Harare), para tentar reverter a decisão de Downing Street» («O amor a Sally Hayfron teria gerado em Mugabe o ódio pelos britânicos», Jorge Heitor, Público, 7.4.2008, p. 16). «Na madrilena calle Génova, na sede nacional do PP, os assessores de comunicação travam a euforia» («Só 26 por cento dos espanhóis conhecem os cabeças de lista», Nuno Ribeiro, Público, 7.06.2009, p. 9). Já sei que sabem — mas eles não sabem.

Ortografia: «pai-nosso»

Oração dominical

      Como já vi este erro inúmeras vezes, alerto os meus leitores: «No Pai Nosso, também rezamos: assim na terra como no céu» («Trindade: mística de olhos abertos e mística de olhos fechados», frei Bento Domingues, Público, 7.06.2009, p. 38). Na frase, deverá escrever-se «pai-nosso», pois é substantivo composto por justaposição. Assim, devemos escrever: «Logo de seguida, rezou um pai-nosso cheio de unção e submissão: “Pai Nosso que estais no céu,/santificado seja o vosso nome,/vem a nós o vosso reino,/seja feita a vossa vontade/assim na terra como no céu.”»

Actualização em 18.04.2010


      E não é só, infelizmente, nos jornais: «Seguiram-se mais algumas orações, um salmo, o Pai Nosso e uma longa prece em que os tons descendentes da despedida se congregavam em torno de uma conclusão melancólica» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 368).

Provedor do «Público» e estrangeirismos

Bom critério



      Na sua crónica de 7 do corrente, escrevia o provedor do leitor do jornal Público: «Encontrando-se o provedor (não nestas funções) a dialogar, meses atrás, com o músico espanhol Paco Ibañez para lhe preparar uma entrevista, foi em certo ponto surpreendido pelo interlocutor com uma sucessão de impropérios no mais puro vernáculo castelhano, proferidos em estado de grande agitação. Demorou alguns segundos até o provedor perceber que tão explosiva reacção se devera ao facto de ter usado a sigla inglesa “OK”. O cantor de protesto protestava contra esta “submissão” linguística ao “imperialismo americano”, em termos tão vivos que chegou a ameaçar não conceder a entrevista. Não havia equivalente em português? Sim, o “está bem” (mas quem é que hoje entre nós diz “está bem” quando tem à mão o mais sintético e eficaz “OK”?)» («Que língua fala o Público?», Joaquim Vieira, Público, 7.06.2009, p. 39).
      Bem, eu nunca digo «OK», mas talvez porque, ao contrário de Joaquim Vieira, não tenho o inglês como segunda língua. Também lhe posso dizer que «OK» não é uma sigla. Continua o provedor: «É inevitável que muitos estrangeirismos venham a ser adoptados pela língua portuguesa, quando a sua utilização estiver mais ou menos massificada, e que os media incorporem logicamente pelo menos alguns deles na sua linguagem antes de os filólogos os acrescentarem aos dicionários. Por isso, não fará sentido, como propõe o leitor Odílio Lopes, vasculhar o vocabulário tradicional para dizer “roupa íntima” em vez de “lingerie”, “fígado gordo” em vez de “foie-gras” ou até mesmo “passagem de ano” em vez de “réveillon” (ou ainda, como impunha Paco Ibañez, “está bem” em vez de “OK”), tudo expressões a caírem em desuso no português.» Não apenas não me parece que os filólogos sejam os especialistas mais indicados, como em relação a «passagem de ano» e «réveillon» não é isso que vejo, antes diria o contrário. E mais: habitualmente, o termo francês é incorrectamente grafado sem acento.
      Um critério do provedor, sobretudo se for verdadeiro e seguido, me agrada: «No seu caso, o provedor, ao redigir um texto, costuma pensar: “Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?” (para esta crónica, se não desistirem a meio, vão seguramente necessitar de recorrer com muita intensidade aos dicionários). Tudo o que pode pois recomendar aos jornalistas do PÚBLICO é que tenham idêntica atitude.»

Sobre «redingote»

Imagem: http://www.theaussiecoat.com.au/

Redingotes e contradanças



      O vocábulo trincheira também me deixou a reflectir em como são ínvios os caminhos do aportuguesamento dos estrangeirismos. Se neste caso se traduziu simplesmente o primeiro elemento da locução, trench coat, já em riding-coat aglutinaram-se os dois elementos, redingote, fazendo perder ao leitor a noção de que se trata originalmente de um composto. Como acontece também no vocábulo contradança, no qual é quase impossível descortinar o étimo country-dance.

«Guarda-prisional»? (II)

Tens aqui o prémio

Podia pensar-se que o universo dos meus leitores seria bem particular, todo circunspecção e saber ponderado, por particular ser o objecto dele. Contudo, se tenho leitores que já me enviaram livros de três continentes, fazem comentários pertinentes e suprem as deficiências dos meus textos, tenho outros que vêm aqui reiteradamente cuspir na sopa. Também tenho, é claro, todos devemos ter, maluquinhos que deixam os seus dejectos mentais. Como tenho os que se querem armar em minhas némesis, mas não têm estaleca nem persistência na maldade. Um da laia sopista/chupista, sempre acobertada pelo anonimato cobarde e irresponsável, deixou aqui ao texto «Divagações» o comentário: «Boa dissertação, excelente mesmo! Mas deve haver comprimidos para isso!» Mas já em 1919, na sua Gramática Histórica Portuguesa José Joaquim Nunes (1859–1932) escrevia: «A palavra guarda, que se juxtapõe a vários nomes, é umas vezes substantivo, outras verbo, e como tal toma ou não o sinal de plural; pertence à primeira categoria, quando a palavra que se lhe segue é adjectivo, considera-se como fazendo parte da segunda, se precede um substantivo; estão no 1.º caso estes nomes: guarda-nobre, guarda-real, guarda-municipal, guarda-campestre, guarda-florestal, guarda-nacional etc.» (p. 232). No etc. resolvem-se muitas incoerências ortográficas, tal como esta de não se escrever com hífen guarda prisional.

Pontuação

Os intocáveis

«Tudo o que podia fazer era, ou cancelar a viagem, ou aguardar que os deuses lhe fossem finalmente propícios» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 163). De quem são aquelas vírgulas, do autor ou da revisora? É que não estão correctas. É mau que sejam do autor, pior se a revisora as deixou passar e péssimo se esta as acrescentou. Embora, e sem ofensa, pelo conhecimento que tenho do trabalho de muitos revisores quando se trata de texto de autor português, me incline a pensar que a habitual subserviência daqueles se sobrepõe ao sentido crítico.

Ferramentas (III)


Ferramentas de carpinteiro



      Pela terceira semana, cá estamos com mais uma imagem de ferramentas de carpinteiro: plaina, rebote, garlopa, guilherme, cepo de rasto curvo. Na página da direita, temos ferramentas de aço: garlopa, plaina, guilherme, ferros de topos, corteché ou corta-chefe (e não «cortché»), ferro de cantos, plaina de rasto curvo, evasiadora (?), serrote e grampo. Vamos à definição dos mais desconhecidos. Rebote ou rabote: plaina grande de carpinteiro, semelhante à garlopa, mas mais curta e sem punho, com caixa ou cepo paralelepipédico, de arestas vivas e rasto desempenado. Garlopa: plaina grande (jack plane ou jointer plane, em inglês). Nas ferramentas de caixa, como a garlopa e o rebote, geralmente o ferro é duplo ou de capa. Se o rasto da garlopa (que não se vê na da imagem) é guarnecido por uma chapa de latão, toma o nome de garlopa calçada. Guilherme: utensílio de carpinteiro semelhante a uma pequena plaina, com cepo de pouca espessura, para fazer os filetes das junturas das tábuas (grooving plane, em inglês). Corteché: espécie de plaina com duas pegas laterais recurvadas e arredondadas com um orifício em cada extremidade, também chamada raspadeira-plaina (e draw knife em inglês). Pode ter diferentes ferros: rectos, côncavos, convexos, estriados, etc. O vocábulo evasiadora nunca antes o tinha visto, mas há-de ter algo que ver com o francês évaser, «dilatar; alargar; abrir».


Uso do hífen

Critério?

      «Para inverter o declínio das populações do abutre-do-egipto estão a ser tomadas diversas medidas» («Um voo cada vez mais raro no céu de Portugal», Mariana Correia de Barros, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 63). «Os tratadores de felinos escondem diariamente entre seis a sete quilos de carne nas árvores do recinto onde estão dois tigres da Sumatra, desafiando-os a procurar o seu alimento. A ideia é dificultar o acesso dos animais ao alimento, para que mantenham o exercício físico» («Dois mil animais de 360 espécies no Zoo de Lisboa», Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 63). Na mesma página, a incongruência faz impressão. Não há no Diário de Notícias quem lance um olhar competente para todo o jornal e detecte esta falta de critério.

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