«Hachemita» ou «haxemita»?

Sem dilemas


      «“Nascido” nos finais da década de 40, o reino hachemita da Jordânia — cujo monarca descende da linhagem directa do Profeta — é um país desértico e pobre em recursos naturais» («Um povo afável do deserto», Lumena Raposo, Diário de Notícias/DN Gente, 16.05.2009, p. 18). A forma hachemita é, de longe, a mais usada, mas também se vê haxemita, que prefiro. Num aviso (n.º 47/2001) do Ministério dos Negócios Estrangeiros português, lê-se: «Por ordem superior se torna público que o Governo do Reino Haxemita da Jordânia depositou, em 30 de Outubro de 2000, o seu instrumento de adesão à Convenção sobre Conservação de Espécies Migratórias Selvagens, assinada em Bona em 23 de Junho de 1979.» Assim, hachemita ou haxemita são variantes igualmente admissíveis. Tudo menos — e leio tantas vezes! — hashemita.

Iliteracia

Senhora doutora

Afinal, o uso de telemóvel nas aulas talvez seja benéfico… Só assim pudemos ficar a saber como se exprime aquela professora de História da Escola Básica 2,3 Sá Couto, de Espinho. «Quem corrige os testes sou eu, tu nem sabes no que te metestes», disse a professora, que se ufana de ter andado doze anos na escola, quatro na faculdade, dois nos estágios, dois numa pós-graduação e um numa especialização… Tudo para quê? Ó mediocridade, ó tristeza!
A 2.ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo dos verbos não tem s final: amaste, baixaste, caíste, deste, erraste, fugiste, gaguejaste, houveste, içaste, jornadeaste, leste, meteste, naufragaste, oleaste, partiste, quiseste, roubaste, suaste, troçaste, usaste, vieste, xadrezaste, zuniste…

«Dinheiro vivo»

In Jornal de Negócios, 15.05.2009, p. 2


Não percebo



      «Quase todos os portugueses utilizam o dinheiro vivo para pagar compras de baixo valor, transacções até aos dez euros, 71,6% utilizam-no em compras até 30 euros e metade da população (de acordo com a análise de uma amostra de todas as classes sociais) recorre ao dinheiro para compras até aos 50 euros» («Contas pequenas pagas em ‘cash’», DN Bolsa, 15.05.2009, p. 7). Na última semana, li vários artigos relacionados com esta questão. Pelo menos em dois usava-se a expressão dinheiro vivo entre aspas, como no desenho de Luís Afonso. Ora eu não sei que falta ali fazem as aspas. Dinheiro vivo significa dinheiro em moedas de metal ou em papel-moeda. É o mesmo que dinheiro à vista, dinheiro em espécie. Vejam como no título do artigo (por imposição do espaço?) se optou pelo estrangeirismo, muito usado, cash.

«Sri Lanca»

Acabou

Acabou tudo em bem: os rebeldes admitiram a derrota e o jornal Público acabou a escrever Tigres Tâmiles: «O brigadeiro Nanayakkara disse também que os seus soldados ainda lutavam contra bolsas de resistência para conquistar “cada centímetro quadrado” do último território em poder dos Tigres Tâmiles, que no auge do seu poderio, na década de 1999, chegaram a controlar quase dois terços do país» («Tigres admitem “fim amargo” dos combates», Ana Fonseca Pereira, Público, 19.05.2009). O pior foram os milhares de mortos. E a propósito, sabiam que o diário i escreve Sri Lanca? «Quando estes refugiados, fugindo à guerra no Sri Lanca, chegaram a terras indianas, dez dos 21 passageiros iniciais haviam morrido ou saltado para o mar» («Em vez da segurança, a morte no alto mar», Somini Sengupta, The New York Times/ i, 15.05.2009, p. 3).

Ortografia: «baixo-ventre»

Monorquidismo

      «Franco, então capitão, fez [na Batalha de Biutz, perto de Ceuta, Marrocos] um assalto durante o qual ficou seriamente ferido no baixo ventre» («General Franco tinha apenas um testículo», Público, 18.05.2009, p. 27). Franco, soube-se agora, só tinha um testículo. Quando li o artigo do Público, ocorreu-me logo a palavra «monórquido», que é como se designa o homem ou animal que só tem um testículo. Vi depois que Ferreira Fernandes, num texto intitulado «O testículo perdido do ditador», escrevera no Diário de Notícias uma crónica à conta do facto, usando aquela palavra e brincando com a semelhança que tem com a palavra «monárquico». Como seria de prever, não escrevo este texto só para exibir os meus conhecimentos do léxico, mas para assinalar um erro no texto do Público. Na verdade, escreve-se baixo-ventre e não baixo ventre. Há livros de estilo, como o Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo, de Eduardo Martins (São Paulo: Editora Moderna, 3.ª ed., 1997), que registam o termo, prova de que é habitualmente mal ortografado: «Baixo-ventre. Plural: baixos-ventres» (p. 51).

Interjeição «duh»

Imagem: http://wakeupitstuesday.org/wp-content/uploads/2009/04/duh.jpg


Acorda!


      «À parte o sujeito inefável e creepy daquele “devemos”, há outro problema: que fazem os estrangeiros, portugueses e lisboetas que já sabem das coisas fantásticas que Lisboa tem? Ou que sabem como hão-de saber? Por exemplo, indo à Net, duh» («Oh do shut up!», Miguel Esteves Cardoso, Público, 14.05.2009, p. 31). Esta interjeição inglesa, que eu nunca antes tinha visto num texto português, é muito usada por certos adolescentes e serve para expressar sarcasticamente que algo é óbvio.

Actualização em 27.09.2009

      Já vai aparecendo adaptado: «— Da-aa — diz ela. — As actrizes têm de usar maquilhagem, não têm, por causa das luzes todas do palco? Além do mais, quero chamar a atenção da professora Dulce» (Azul Mar, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 103). Mas com hesitações: «— Tu sabes, a tatuagem do gato que mandaste ao Lucas — digo eu. — Daa! E o KitKat também» (Amigos à Deriva, Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2009, p. 81).

Actualização em 31.12.2009

      «É difícil descobrir-lhe a origem ou a forma como chegou até nós (ao contrário dos anglófonos dizemos “dahhh”), a eficácia que a tornou omnipresente, contudo, é de fazer arrepiar qualquer purista da língua. Está tudo no tempo que se dá ao “h”. Com um (duh) exclama “Óbvio!”, com dois (duhh) já inclui uma nota de desdém irónico, com três (duhhh) o desprezo pela estupidez alheia já estala à laia de vergastada de chicote. Mas com uma irrisão de humor de tal forma solar que não deixa margem para ofensas. Mas já sabia tudo isto, claro... Não?! Como não?! Duhhh...» («Duhhh», Vanessa Rato, Público/P2, 31.12.2009, p. 4).



Léxico: «dobradiço»

Erros nada achadiços

«Portanto, ali estavam eles, os Grace: Carlo Grace e a mulher, Constance, o filho Myles, a rapariga ou a jovem que eu tinha a certeza que não era a rapariga que ouvira rir dentro de casa naquele primeiro dia, rodeados pela tralha toda, as cadeiras dobradiças, as chávenas de chá, copos de vinho branco, a saia indiscreta de Connie Grace, o cómico chapéu, o jornal e o cigarro do marido, o pau de Myles, o fato de banho da rapariga atirado para o lado, numa bola suja de areia como se tivesse sido arrastada pelo mar» (O Mar, John Banville. Tradução de Teresa Curvelo. 3.ª ed. Porto: Asa Editores, 2006, pp. 22-23). É verdade que existe o adjectivo «dobradiço», mas significa «que se dobra com facilidade; flexível». Dobradiço apresenta o sufixo -iço, formador de adjectivos provindos do particípio passado, com certa conotação frequentativa, «algo pejorativa, algo depreciativa, mas certamente propensiva», como se lê no Dicionário Houaiss, que regista, a título exemplificativo, umas dezenas de exemplos: abafadiço, abespinhadiço, acabadiço, achacadiço, achadiço, acomodadiço, afogadiço, agarradiço… As cadeiras são dobráveis ou desdobráveis.

Aportuguesamento de antropónimos

Realmente

Habituámo-nos a ver os nomes dos reis e príncipes estrangeiros, e nomeadamente os ingleses, traduzidos. É assim que actualmente temos a rainha Isabel II e o príncipe Carlos. (Quase nunca temos, porém, e aqui tão perto, um rei João Carlos de Espanha.) Contudo, e apesar de haver uma regra nesse sentido, como se pode ler no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, a sensibilidade dos nossos dias é um pouco avessa à tradução dos antropónimos e até mesmo dos topónimos. Ainda assim, há dias li, e agora não consigo localizar o recorte, «Ernesto de Hanôver», quando sempre tinha lido «Ernst de Hannover» ou, vá lá, numa concessão que havia de causar muitos engulhos ao jornalista, «Ernst de Hanôver». Mas agora li na edição de 16 do corrente da revista Única: «Rainha Rânia no Twitter». Mas não era só no título: «Rânia, rainha da Jordânia, habituou-nos há muito aos sinais de modernidade. Pioneira no You Tube e na Internet, Rânia voltou a provar estar na dianteira das novas tecnologias, ao ir comentando em directo a visita de Bento XVI à Jordânia» (p. 8).

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