«País-membro»?

Falemos disto


      «Organização Mundial de Saúde (OMS) pediu aos países-membros que activem os seus planos contra a epidemia da gripe suína, depois de ter elevado para cinco o nível de alerta pandémico da doença, o segundo mais grave» («OMS aumenta nível de alerta para pandemia de gripe suína», Global Notícias, 30.04.2009, primeira página). De vez em quando, lê-se, sobretudo na imprensa, o vocábulo composto país-membro (geralmente no plural, países-membros). Está correcto escrever assim, com hífen? Só conheço uma obra que aborda a questão: o Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo, de Eduardo Martins (São Paulo: Editora Moderna, 3.ª ed., 1997), nas páginas 176 e 274: «Membro. Use como adjetivo quando vier depois de um substantivo: país membro, estados membros.» «Substantivo mais substantivo. Quando dois substantivos se unem na frase formando um conjunto, podem ocorrer duas situações:
      1 — O segundo modifica o primeiro com a função de adjetivo, dispensando, por isso, o hífen. Exemplos: funcionários fantasmas, rádio pirata, formiga gigante, torneio relâmpago, garoto prodígio, país membro, camisa esporte, marca recorde, fita cassete, usina piloto, concentração monstro.
      2 — O segundo representa uma superposição em relação ao primeiro e por isso o hífen se impõe: elemento-surpresa, atleta-sensação, mulher-maravilha, criança-fenômeno, papel-título, desconto-padrão, imagem-síntese, preso-problema, disco-solo, país-símbolo, linguagem-modelo, posto-chave, carro-bomba, mandato-tampão, torneio-incentivo, torneio-início, homem-máquina, personagem-tipo, ponto-limite, público-alvo, salário-base, homem-hora, garoto-propaganda, edifício-sede, auxílio-maternidade, hora-aula, carnê-leão, almoço-homenagem, vale-transporte, caderneta-pecúlio, cidade-porto, empréstimo-ponte, carro-pipa, país-continente
      Bem, não concordo. Pegando no exemplo mais flagrante, «estados membros», é óbvio que vai contra o uso português e contra uma lógica que me parece irrebatível: uma vez que as duas palavras (e é claro que «Estado» é com maiúscula) formam inequivocamente um todo com significado próprio, o hífen impõe-se. Por analogia, não vejo como negar que país-membro também deve levar hífen. Naturalmente que, pela nossa pertença à União Europeia, o vocábulo Estado-membro passou a fazer parte do nosso quadro linguístico, ao passo que país-membro é relativamente raro, de onde advirá a estranheza que os falantes poderão sentir ao lê-lo.

Actualização em 14.1.2010

      «A União Europeia, num “primeiro gesto”, desbloqueou três milhões de euros para auxílio de emergência e vários países-membros desencadearam acções próprias: a França, antiga potência colonizadora, enviou dois aviões com ajuda e equipas de socorro» («Lançada “operação de ajuda em massa”», João Manuel Rocha, Público, 14.1.2010, p. 3).

Sobre «palestino»

Também eu


      Não sei se Jorge Sampaio, alto-representante da ONU para a Aliança das Civilizações, usa «palestino» em vez de «palestiniano», mas, a fazer fé na transcrição da entrevista que deu ao Diário de Notícias, a acrescer ao facto de este diário usar sempre «palestiniano», assim é: «Houve uma desconfiança inicial, por ser uma iniciativa da ONU que falava de Israel e dos palestinos, mas o presidente Obama representa uma linha que vai claramente no sentido da Aliança das Civilizações» («“Sou prudente. Houve uma obamania exagerada”», Diário de Notícias, 12.04.2009, p. 5).

«Júri» e «jurado»

Simples, pois…

Estava aqui a ler o regulamento de um concurso internacional e apareceu a palavra «jury». Tentei então lembrar-me de quando tinha sido a última vez que tinha visto um profissional, um jornalista, a confundir júri com jurado. Procurei nos meus registos, e ei-la: «[Pedro Granger] É júri num programa de talentos e apresentador e moderador de um programa de debate sobre a juventude» («Objectos», Mariana Guedes de Sousa, Pública, 26.04.2009, p. 55).

Léxico: «biofilme»

Ah, chamam-lhe isso?

      «Como os fiambres e as mortadelas são produtos sensíveis, devem ser consumidos apenas dentro do prazo. Tenha especial atenção à formação de um biofilme de gordura no exterior, “possível sinal de microrganismos que podem causar febres e diarreias ou até malformações do feto em grávidas”» («Até quando posso comer…», Bárbara Bettencourt, Activa Saúde & Beleza, n.º 222, 2009, p. 60). Trata-se de um neologismo, empréstimo do inglês biofilm («a thin usually resistant layer of microorganisms (as bacteria) that form on and coat various surfaces (as of water pipes and catheters)», in Merriam-Webster), tendo-se registado o seu primeiro uso em 1981.

Actualização em 10.05.2009

      Vale a pena trazer para aqui a sugestão deixada na caixa de comentários pelos leitores Pedro e Fernando Ferreira: que biopelícula é termo mais adequado. Não me ocorreu na altura, mas concordo.


Parónimos

Perfeito, bedel

      Quando leio em gramáticas e em manuais escolares, como exemplo de parónimos, as palavras «prefeito» e «perfeito», rio-me sempre. Uma criança brasileira sabe o que é um prefeito, como o saberá um luso-descendente (e quando é que no Diário de Notícias começam a grafar correctamente esta palavra? «Bebé lusodescendente em coma induzido» [Alexandra Carreira, 26.01.2009, p. 24]) que viva em França ou na Suíça. Para uma criança portuguesa, um prefeito é algo tão obscuro como um bedel para a generalidade dos leitores. Palavras parónimas, vale lembrar, são as que têm escrita e pronúncia semelhantes e são passíveis de confusão. Um dos melhores exemplos são as palavras «dispensa» e «despensa». Acabei de rever um texto em que se lia: «O futuro da humanidade passa por olhar, de novo, para a Terra como a verdadeira dispensa, e privilegiar os produtos biológicos às refeições.» Entre eminente e iminente, florescente e fluorescente, descrição e discrição, apóstrofe e apóstrofo, as confusões são diárias…

Léxico: «cinegenia»

Quase cinegético

«No novo filme de Wim Wenders, Imagens de Palermo [Palermo Shooting, no original], o mais famoso punk rocker da Alemanha mostra toda a sua cinegenia» («Debutante. Campino», Rui Pedro Tendinha, Notícias Magazine, 1.03.2009, p. 18). Já tínhamos fotogenia, que é a qualidade do que fica bem representado ou resulta bem em fotografia. Cinegenia, termo que vai aparecendo, mas ainda arredado dos dicionários, é então a qualidade do que fica bem representado ou resulta bem em cinema. Fica também aberta a porta para o adjectivo cinegénico, à semelhança de telegénico.

Semântica: «mazagrã» e «capilé»

Imagem: http://www.jamaicanbluemountaincoffeeonline.com/

Refrescante

«Sanduíches de torresmos, capilé ou mazagrã serão servidos no quiosque do Largo Camões, uma estrutura centenária que foi recuperada e desde segunda-feira devolvida à cidade» («Mazagrã e capilé regressam com quiosque no Largo Camões», Público, 15.04.2009, p. 19). Eu sei que sabem, mas quero voltar a contar a história a mim próprio: em 1840, soldados franceses sitiados na cidadezinha de Mazagran, no Norte da Argélia, tiveram de racionar as provisões, e, entre elas, o café. Daqui terá nascido a bebida depois designada mazagrã. Capilé é o xarope ou calda feita com suco de avenca, planta também conhecida por capilária. O étimo de capilé é o francês capillaire, tomado do baixo latim capillaris, elipse de herba capillaris.

«Second degree murder»

Do you have any information?

«À segunda tentativa, porém, e após cerca de 30 horas de deliberações, os jurados consideraram Spector culpado de homicídio simples (sem premeditação, o equivalente ao second degree murder)» («De génio e de louco Phil Spector tem de tudo um pouco», Susana Almeida Ribeiro, Público/P2, 15.04.2009, p. 4). Ora vejam se este Manual to Assist Magistrates in Dealing with Spanish-Speaking Persons ajuda na tradução de alguma terminologia jurídica norte-americana.

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