Léxico: «herpetofauna» e «herpetologia»

No reino animal

«Sapos e rãs, tritões, relas e salamandras. Até final do ano, no Fluviário de Mora, todos eles são embaixadores da herpetofauna nacional, representada, com fins pedagógicos, na exposição “Anfíbios de Portugal”. Comissariada por Paulo Sá e Sousa, biólogo e docente da Universidade de Évora, especialista em Herpetologia (ramo do saber que se dedica ao estudo de anfíbios e répteis), “Anfíbios de Portugal” apresenta uma selecção das principais espécies encontradas em território nacional, num alerta, também, para os riscos que pairam sobre a sua sobrevivência» («Fluviário de Mora apresenta ‘Anfíbios de Portugal’», Maria João Pinto, Diário de Notícias, 26.04.2009, p. 67). Já estamos habituados a termos técnicos semelhantes, como avifauna.

Léxico: «filactérios»

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Portas da Esperança

«Filactérios são as duas pequenas caixas de cabedal que contêm extractos bíblicos que um judeu ortodoxo prende a si mesmo com pequenas tiras de couro — uma atada à testa e a outra ao braço esquerdo — durante as preces matinais dos dias da semana» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 83). Filactérios vem do grego, língua em que significa «posto avançado; fortificação; protecção», nome adequado para o que é basicamente um amuleto. Em hebraico, por sua vez, o termo usado para referir estas caixas é תפילין, que, transcrito, é tefilin, com raiz na palavra tefilá, «prece». Não raramente, é o termo hebraico que vejo em traduções e não o português. O vocábulo «filactérios» é um pluralia tantum, de que já aqui falei. Se quiserem saber mais, visitem a Sinagoga de Lisboa. É muito melhor do que estarem aí sentados em frente ao computador.

«Por que diabo»

Vai havendo paciência

Cada vez que aqui escrevo, e já foram algumas, «por que raio» ou «por que diabo», há sempre alguém, que suponho ser a mesma pessoa, que me pergunta se não deveria ser «porque raio» ou «porque diabo». Nunca publiquei nem respondi a esses comentários. Hoje, contudo, faço-o, para ilustração do anónimo que se dá ao trabalho de comentar e de todos os que têm dúvidas. Se não há dúvida que se deve escrever «por que razão» (embora daqui a cinquenta anos ainda haja quem não tenha a certeza), por que diabo há dúvidas quanto a «por que diabo»? Que diabo!...

«Por que diabo lho dissera ela? Tinha obrigação de saber!)» (O Sonho mais Doce. Doris Lessing. 2.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Editorial Presença, 2007, p. 17).
«Era o que ele tinha para me dar, era o que ele quisera dar-me, era-me devido por costume e tradição, e por que raio não mantivera eu a boca fechada e não permitira que acontecesse o que era natural acontecer?» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 94).
«Afinal, perguntaria o senhor se fosse pessoa para cortar um depoimento com perguntas desnecessárias, afinal por que diabo deu o casamento em pantanas?» (Primeiro as Senhoras. Relato do Último Bom Malandro, Mário Zambujal. Revisão de Oficina do Livro, Lisboa, 3.ª ed., 2006, p. 67).

Uso do hífen

Ora essa

«Tirei a cortina da janela, apesar de parecer limpa, enfiei-a na fronha de almofada e onde estavam as outras coisas sujas, fui à casa de banho de Claire, peguei num frasco de água-de-colónia e salpiquei com mãos-largas o aposento levado e esfregado, sacudindo-a das pontas dos dedos como se fosse água-benta» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 157). Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjectivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, só por excepção já consagrada pelo uso se emprega o hífen, mas água benta não é manifestamente uma delas. É-o, e refiro-o por estar na mesma frase, água-de-colónia.

«Vice» é substantivo

Mais incoerências

«Obama pode escolher Tim Kaine como seu ‘vice’» (Pedro Correia, Diário de Notícias, 30.07.2008, p. 29). Sem grandes elucubrações, imagino que o critério por detrás da decisão de aspar o vocábulo «vice» seja o de que se trata de mero elemento de formação, prefixo. Pois bem, então porque não fizeram o mesmo com o vocábulo «páras» no seguinte título? «Valença Pinto elogia páras» (Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 1.04.2009, p. 8). No Dicionário Houaiss, «vice» é também classificado como substantivo dos dois géneros, que é o que morfologicamente são tanto «vice» como «páras» (e mais claramente este, pois está flexionado no plural, e os prefixos são invariáveis) nos títulos citados.

«Autismo» e «mongolismo»

Fim do mundo


      Em conferência, os líderes parlamentares acordaram que deveriam evitar o uso dos vocábulos (das «expressões, escreveu a jornalista do Público Sofia Rodrigues…) «autismo» e «autista» no hemiciclo. Sobre a palavra «caralho», ao que parece, não disseram nada. É o politicamente correcto a impor-se. Por este andar, qualquer dia vão proscrever a palavra «anquilosado» com que a oposição qualifica o sistema. Com o tempo, poderá mesmo deixar de haver provas cegas nos concursos de enofilia, janelas cegas na arquitectura e voos cegos na aviação. Nada de sentidos figurados, em suma.
      Já aqui tinha analisado uma questão semelhante: o uso do termo «mongolismo». O certo é que mesmo os especialistas continuam a usá-lo: «No entanto, com o avançar da idade da mãe, tornam-se mais prováveis “anomalias cromossómicas numéricas, como a trissomia 21 (o chamado mongolismo)”, adianta Heloísa Santos [geneticista e pediatra], devido ao envelhecimento dos óvulos, que nascem com a mulher» («Erro em espermatozóides do pai afecta QI dos bebés», Sara Gamito, Diário de Notícias, 15.03.2009, p. 18).

«Favorecer»?

Do jornalês

      «Obama favorece painel independente para investigar tortura» (Rita Siza, Público, 23.04.2009, p. 2). Um leitor chamou-me ontem a atenção para este título, perguntando: «Favorecer ou ser a favor?» Ao que suponho, o leitor vê ali um to favour com o rabo de fora. Contudo, favorecer também é «apoiar, ser favorável». Admito, porém, que nem todos os leitores compreenderão o título. Tirando as minhas leituras de dicionários, para uma pessoa como eu que convivi com carpinteiros e marceneiros, painel pouco mais é do que a «almofada de porta, janela ou tecto». Mas a língua evolui, ah claro, a bem ou a mal. Só à conta do jornalês, a língua vai ficando outra.

Tradução: «fantásmico»

Agora eu inventava

«Parecia-me que não era do medo das coisas dela e do seu poder fantásmico que queria livrar sem demora a casa — sepultá-las agora, também —, mas sim porque se recusava a passar ao lado do mais brutal de todos os factos» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 29). Fantásmico como fantástico, é isso? Do inglês phantasmic, «irreal, próprio de fantasma». Pois, mas é um aportuguesamento inútil, pois temos os adjectivos fantasmal e fantasmagórico. Para nos assustarem, chega e sobra.
É, contudo, verdade, que o termo está registado no Dicionário Houaiss, assim como na novíssima edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, até porque o étimo do vocábulo inglês é o latino phantasmaticus.

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