Verbos reflexos

Treino sem me ajoelhar

«— Ela pediu ensopado de mexilhões de Nova Inglaterra — disse-me, enquanto eu ajoelhava ao seu lado, ainda de sobretudo e a segurar-lhe a mão — e eu pedi de Manhattan» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 32). É verdade que M. Said Ali, na Grammatica historica da lingua portugueza (São Paulo: Melhoramentos. 2.ª ed., 1931, pp. 201-2), escreve que «verbos desta espécie [os que se referem a actos materiais, em geral movimentos, que o sujeito executa iguais aos que executa em coisas ou noutras pessoas] na sua própria pessoa dispensam por vezes o pronome, como mudar ou mudar-se (para outro lugar), ajoelhar ou ajoelhar-se», eu é que não me convenço nem ninguém me persuade. Mas a tradução da obra de Roth usa o nefando treinar-se: «Pela primeira vez em alguns meses, parecia bem-disposta e confiante e é muito possível que tenha saído naquela tarde na esperança de começar a treinar-se para a nossa volta estival» (p. 31).

«Recebedor», «recipiente», «recipiendário»


Dilemas

      «O seu afã de satisfazer a necessidade (real ou imaginária) do recebedor era tão grande que nem sempre pensava no efeito que a sua impulsividade produzia no dador involuntário» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 26). Não sei que palavra está no original em vez daquele «recebedor», mas imagino facilmente que será «recipient». Não têm conta as vezes que já emendei em traduções, de novatos mas não só, a tradução de «recipiente» para «destinatário», ou, num circunlóquio, «aquele que recebe» ou algo que o valha. Se recipiente me faz apenas e logo lembrar uma vasilha, recebedor traz-me à memória o Cobrador do Fraque (que eu nunca vi nenhum à frente). Que sim, leitor virulento, recipiente também significa «o que recebe», tal como recebedor. Já temos sorte (temos?) por esses tradutores não optarem por recipiendário. Sim, também significa «que ou aquele que tem de receber qualquer coisa». Acho que, sem deixar passar, os desculparia mais indulgentemente, pois recordo-me da emoção que foi, teria 15 anos, a descoberta desta palavra.

Trindade e Tobago

Ou nas calendas gregas

Na TSF, ouviu-se durante a semana passada que a V Cimeira das Américas se realizava em Trinidad e Tobago. Nos jornais, mais judiciosos, não se leu tal. Escrevem que foi em Trindade e Tobago. Só quando disser santísima Trinidad e começar a rezar um padre nuestroPadre nuestro que estás en el cielo,/santificado sea tu Nombre… — é que passarei a escrever e a dizer Trinidad e Tobago.

«Luiz», «Queiroz»…

Agora me lembro

Os analistas e comentadores políticos gostavam que, na entrevista de ontem, o primeiro-ministro tivesse respondido a perguntas que não lhe foram feitas… Ah, mas este não é um blogue político. Retomo a questão da grafia dos antropónimos. E não só com o nome Carlos Queiroz. Quem é que «actualiza» o nome de Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco? Sim, o escritor (mais ou menos…) maldito Luiz Pacheco. Nem Pedro Bingre, aposto. Não há, até porque o ridículo mata, nenhuma criatura a escrever Luís Pacheco.

«Corte» e «campo de ténis»

Manda quem pode

      Por alguma razão os revisores ali não gostam mesmo nada da palavra «corte» para designar o campo de ténis. Está aqui a explicação: se temos «campo de ténis», para quê aportuguesar court, palavra inglesa? O recurso chegou às traduções: «Steve era advogado, e como pertencia a uma firma que negociava com o pai dela, os Bolton eram muitas vezes solicitados para ir a Old Tree, o nome com o qual os McNeils tinham dignificado o seu terreno: Steve servia-se da piscina deles, e dos cortes de ténis, e havia uma casa que pertencera a Apple que o Sr. McNeil lhe permitia usar, mais ou menos, à vontade» (Travessia de Verão, Truman Capote. Tradução de Manuel Cintra, revisão de tradução de Maria João Freire de Andrade e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2007, p. 30).

Definição de bebé

Eu perguntei primeiro

      Até que idade uma criança é bebé? Sim, eu sei que é uma boa pergunta. «Bebé de dois anos caiu ontem dentro de um poço e morreu» («Mangualde. Bebé caiu num poço e morreu», Diário de Notícias, 15.03.2009, p. 72).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, bebé é a «criança recém-nascida ou de pouca idade». Quanto aos recém-nascidos, não temos dúvidas — mas essa «pouca idade» chega a quanto? O Dicionário Houaiss não anda longe desta definição, substituindo o «de pouca idade» por «poucos meses». O Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa avança com outra definição: «Bebé, s. m. Criança de peito, criancinha.» E quanto aos dicionários de outras línguas? Para o Cambridge Advanced Learner’s Dictionary, bebé é a «very young child, especially one that has not yet begun to walk or talk». Para Le Trésor de la Langue Française Informatisé, «bebé» é «enfant en bas âge». A etimologia, neste caso, não ajuda muito. Como se sabe, Bébé foi o nome que, por volta de 1755, o rei Estanislau I Leczinski (ou Stanisław I Leszczyński), rei da Polónia, deu ao seu anão Nicolas Ferry (1739-64), que teve na época uma grande celebridade. Estanislau I, palatino da Posnânia, teve de fugir do trono polaco, onde o pusera Carlos XII da Suécia, depois da derrota de Poltava, como teve de fugir do principado de Zweibrücken, oferta daquele monarca sueco, refugiando-se em França. Estanislau I deu duas coisas à França: a mão da filha Maria Leszczynska a Luís XV e a palavra «bebé» à língua francesa.

«West Bank»?


Recado

      Senhor jornalista, fale à vontade da Guerra dos Seis Dias em 1967, mas não diga que os Palestinos em Jerusalém e na West Bank passaram a viver sob ocupação de Israel. Então agora já não temos palavras para nomear esse conceito tão complexo como é a margem de um rio? Já agora, porque não Gaza Strip? Se nós não defendermos a nossa língua, quem o vai fazer — os Israelitas? A Margem Ocidental (do rio Jordão), ou Cisjordânia, um território com menos de 6 mil quilómetros quadrados, é tão topónimo como Margem Sul, logo, com maiúsculas, mas em português.


Actualização em 5.11.2009

Nas traduções, é comum ver-se «Margem Ocidental»: «Condenavam também a proibição israelita de envio de auxílio externo para a Margem Ocidental, através de Amã, para projectos educativos, habitacionais e agrícolas» (Palestina: Paz sim. Apartheid, não, Jimmy Carter. Tradução de Pedro Garcia Rosado e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Quidnovi, 2007, p. 82).

«Tailor-made» e «bespoke»

Imagem: http://www.sarti.com.au/

Alfaiatar a língua


      A propósito do termo tailor-made, lembrei-me deste excerto de um artigo: «Este alfaiate português Bespoke (expressão inglesa que significa molde criado à medida) não se considera artista, mas diz que alfaiataria é uma arte» («O real alfaiate português», Hugo Bordeira, Diário de Notícias/DN Gente, 14.03.2009, p. 1).
      Não é exactamente assim. Criado à medida tem equivalência no inglês made-to-measure, em que preexiste um molde na alfaiataria, fazendo o alfaiate uns acertos no fato em função do cliente a que se destina. No bespoke, o fato é feito de raiz para cada cliente. Actualmente, o termo aplica-se a muitos outros bens, desde sapatos a automóveis.
      O alfaiate português entrevistado para o Diário de Notícias afirmou: «“Depois o príncipe Carlos cumprimentou-me, e eu contei-lhe que gostava muito dos casacos que ele usa, tipo trespasse, com quatro botões. Ele respondeu-me que raramente tinha fatos novos porque restaurava muitos dos que já tem”, lembra Ayres [Gonçalo, aprendiz da Savile Row].» Já aqui tínhamos referido esta expressão, casacos de trespasse.

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