Ortografia: «geladeiro»


Chi fa e vende gelati


      Jornalista, poeta, dramaturgo, ficcionista e autor de uma vasta obra infanto-juvenil, José Jorge Letria foi ontem o convidado do programa Prova Oral, na Antena 3, com Fernando Alvim e Cátia Simão. Ao falar-se de Santini, o escritor usou a palavra «gelateiro». Está-se mesmo a ver: de «gelato» (sabem o que é: «dolce composto di succhi di frutta, latte, uova e altri ingredienti mescolati a bassa temperatura»), tinha mesmo de ser gelateiro. Lá que o Sr. Attilio Santini Mosena dissesse «gelataio», não vamos agora, escritores como somos, ainda por cima, dizer isso em vez do mais correcto «geladeiro» ou, como fazem os Brasileiros, «sorveteiro». Simpatizo muito (devia ter começado por aqui, para cativar o público) com José Jorge Letria, e aproveito até para sugerir o último trabalho deste escritor, Histórias de Chocolate, um CD, com a voz do autor, composto de 12 histórias que têm no chocolate o protagonista.

«Charril»?

Há-de ser bonito

Ainda não visitei o Museu do Oriente. As filas, confesso, são suficientemente persuasivas a fazerem-me renunciar a tal ideia. Mas fui ver recentemente «A Evolução de Darwin» na Fundação Calouste Gulbenkian. Ao Museu do Oriente, iria tanto para ver a exposição «Mulheres do Hindustão», pelo interesse que o tema me desperta, como para ver um charril. «Margarida Aguiar, pintora, 25 anos, observa que os visitantes não vêem os bancos portáteis e depois queixam-se da falta de cadeiras para relaxar e reflectir. “Deve-se orientá-los, estão num charril na entrada”, sublinha» («Falar de arte, o trabalho dos assistentes de exposição», Isadora Ataíde, Diário de Notícias, 15.03.2009, p. 14).

Léxico: «anádroma»

Tudo grego



      «As lampreias são peixes anádromas, uma vez que se reproduzem em água doce, mas desenvolvem-se até à forma adulta no mar» («Novas barragens ameaçam sobrevivência da lampreia», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 15.03.2009, p. 50). Anádroma (do grego ἀνάδρομος, «anádromos», que significa «que se eleva a correr», como os salmões e as lampreias fazem) é o peixe que passa parte da vida no mar e sobe os rios para desovar em água doce. O artigo refere ainda que «as formas larvares de lampreia se designam por amocetas». Os dicionários, contudo, apenas registam a grafia «amocete», o que, tendo em conta o étimo grego, é mais correcto.

«Abaixo» e «a baixo»

Abaixo!


      «Era Clyde, que se aproximara sem repararem nele, e estava na outra extremidade da sala, besuntado de cima abaixo com óleo e a segurar o fecho de uma caixa frigorífica» (Travessia de Verão, Truman Capote. Tradução de Manuel Cintra, revisão de tradução de Maria João Freire de Andrade e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2007, p. 83). Na realidade, a locução adverbial é «de cima a baixo».

«Debaixo» e «de baixo»

Desembucha

«Foi atravessada por um rugido vindo de debaixo do chão. Parara em cima de uma grade de metropolitano: no fundo dos interstícios da grade, conseguia ouvir o chiar de rodas de aço, e a seguir, mais próximo, um ruído mais atordoador» (Travessia de Verão, Truman Capote. Tradução de Manuel Cintra, revisão de tradução de Maria João Freire de Andrade e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2007, p. 75). «De debaixo»? Não vamos agora gaguejar por tão pouco. Com um verbo de movimento, nunca se poderia usar a locução prepositiva «debaixo de». Como, na frase, o verbo é regido pela preposição de, deveria ter-se escrito: «Foi atravessada por um rugido vindo de baixo do chão.»

Sobre «departamento»


Isso é inglês

Onde é que Isabel Figueira apresentou o sutiã Aumentax: na secção de lingerie ou no departamento de lingerie do El Corte Inglés?
«Até aos dezassete, Anne usara roupas infantis do departamento para crianças da Ohrbach; então, um dia, de repente, comprou um par de sapatos de salto alto, um ou dois vestidos amalucados, um par de seios postiços, um estojo de maquilhagem e um frasco de verniz cor de pérola; ao deslizar pelas ruas com o seu novo visual, parecia uma menina num baile de máscaras» (Travessia de Verão, Truman Capote. Tradução de Manuel Cintra, revisão de tradução de Maria João Freire de Andrade e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2007, p. 68). O Ohrbach era um grande armazém em Nova Iorque — em inglês, uma department store. Department porque são lojas organizadas em departments, «secções».
Também temos departamentos, claro, mas não nas lojas. Temo-los nas circunscrições marítimas divididas em capitanias de porto, nas divisões administrativas em alguns países, como a França, nos sectores de certos organismos, estatais ou particulares, destinados a um fim específico, nos sectores ou divisões correspondentes a um grande ramo do saber na estrutura de uma universidade. E quando algum colega nos pede algo que não nos apetece dar, sempre podemos dizer, segundo o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, que «isso não é do meu departamento», embora me pareça que é apenas a tradução do inglês «that’s not my department».

Sobre «fronteiriço»

Badajoz à vista

«O ruído do trânsito intensificava a tranquilidade matinal de Central Park em Junho, e o sol carregado do início do Verão que seca a crosta verde da Primavera atravessava as árvores fronteiriças ao Plaza, onde estavam a tomar o pequeno-almoço» (Travessia de Verão, Truman Capote. Tradução de Manuel Cintra, revisão de tradução de Maria João Freire de Andrade e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2007, pp. 9-10). O adjectivo «fronteiriço» diz apenas respeito à fronteira, à raia. Há postos fronteiriços, controlos fronteiriços, guardas fronteiriços, diferendos fronteiriços, regiões fronteiriças, e por aí fora. Terá equivalente no inglês borderline. No original desta obra de Truman Capote, lê-se isto: «[…] the dazzle of traffic heightened the June morning quiet of Central Park, and the sun, full of first summer, that dries the green crust of spring, plunged through the trees fronting the Plaza, where they were breakfasting.» «Fronting the Plaza» traduzir-se-á então por «em frente ao Plaza, «defronte do Plaza». Só refiro o erro por ser muito comum.

«Catecumenato» e «baptismo»

Trapalhadas

      «A fé católica é professada por 88,10 por cento dos portugueses, segundo o último Anuário Católico, que aponta para um decréscimo no número de sacerdotes. […] Em 2000, foram registados mais de 92 mil baptismos de crianças com menos de 7 anos (77.272 em 2006) e 5938 baptismos depois dos sete anos, o chamado “catecumenato” (5165 em 2006)» («Quase 90 por cento diz-se católico», Público, 10.04.2009, p. 10).
      O baptismo depois dos 7 anos designa-se catecumenato, é isso? Isso é para rir? O catecumenado ou catecumenato é o período ou a própria instituição que, no âmbito da iniciação cristã, se destina a ajudar o recém-convertido a passar de uma fé inicial à fé adulta requerida pelos sa­cra­men­tos do baptismo, confirmação e euca­ris­tia. O baptismo, por sua vez, é o pri­meiro dos sete sacramentos e o primeiro dos três da iniciação cristã, juntamente com a con­fir­mação ou crisma e a co­mu­nhão. O que acontece é que, no caso de uma criança antes do uso da razão, não há propriamente uma caminhada catecumenal antes do baptismo, mas depois, ao contrário do que sucede com o adulto que quer ser baptizado.
      Em suma, o catecumenato é a preparação para o baptismo e não o baptismo de uma criança com mais de 7 anos, como se afirma na notícia.

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