Particípios passados


Está explicado

Acabei de ouvir na Antena 1 que no próximo dia 21 de Abril se realiza, no Centro Cultural e de Congressos de Aveiro, a segunda conferência do ciclo «Biologia da Noite», este ano dedicado ao tema da evolução. Entre as comunicações, estará a do Prof. António M. de Frias Martins, da Universidade dos Açores, intitulada «Terá Darwin morto Deus? Criacionismo, Evolucionismo e a Plenitude da Vida». Não percebi logo, confesso, o título, fosse pela dicção do locutor, fosse pelo atropelo da gramática. Quanto a esta, é simples e já aqui foi explicado: com os auxiliares ser e estar, usa-se habitualmente o particípio passado regular, a forma mais longa. Logo, correcto seria «Terá Darwin matado Deus?».

Reformas ortográficas

Vai demorar

Boas ou más que sejam as soluções trazidas pelo Acordo Ortográfico de 1990, uma coisa é certa: daqui a quarenta anos ainda há-de haver quem diga que não sabia. Como acontece actualmente, é o exemplo que sempre dou, com a reforma publicada a 1 de Fevereiro de 1973, e que só tinha um artigo: «São eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se assinalam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente e com os sufixos iniciados por z.» Quase todos os dias vejo que há quem, devendo saber, ainda não sabe: «Todos temos o nosso próprio (respire fundo) portefólio léxico-audiovisual. Mas — hélas! —, por muito que o queiramos vender aos nossos amigos (para podermos fazer uma pequena ideia do que estão a falar), eles não o compram, porque não abdicam dos portefóliozinhos deles» («Não, não sabia», Miguel Esteves Cardoso, Público, 10.04.2009, p. 33).

VOLP


Vontade de comunicação

Fez agora um ano que Fernando Venâncio escreveu no Aspirina B: «Nós somos, uns mais outros menos, mas todos um pouco, uns fetichistas da ortografia. Nisso não há mal. O problema surge quando, com o balde da ortografia, se deita fora o bebé do idioma.» Incongruências à parte, não creio que tinha sido isto que se fez com o Acordo Ortográfico de 1990. Tenho nas mãos a 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, com as suas 877 páginas (é sintomático que a imprensa portuguesa avente números diferentes deste) e, segundo informação da editora, 349 737 vocábulos com as suas respectivas classificações gramaticais, além dos cerca de 1500 estrangeirismos que aparecem no fim. Mais do que uma pedra, mesmo angular, creio que será a superstrutura do futuro e necessário vocabulário ortográfico comum exigido pelo Acordo Ortográfico de 1990. Junte-se-lhe depois os contributos da Academia das Ciências de Lisboa, o contributo, já entregue, da Academia Galega da Língua Portuguesa e, naturalmente, o contributo dos demais países de língua oficial portuguesa.
Mas ainda a propósito da afirmação de Fernando Venâncio, lembro o que Fernando Cabral Martins escreveu nas notas à edição da Mensagem, de Fernando Pessoa, que aqui citei recentemente: «A edição de David Mourão-Ferreira [6.ª edição da Ática, 1959] é a primeira a propor a actualização ortográfica de um livro que parecia apostar na inactualidade. Isto é: a ortografia utilizada por Pessoa em 1934 era arcaica em relação à convenção dominante nesse tempo, o que poderia ser recebido, como por vezes o é, como uma ortografia simbólica e intocável» (Mensagem, Fernando Pessoa. Edição de Fernando Cabral Martins. Lisboa: Assírio & Alvim, 3.ª ed., 2002, p. 93). A obra de Pessoa perdeu com o critério? Perderam algo os leitores? Não me parece. Conclui Fernando Cabral Martins: «Quer dizer: a vontade de comunicação que tornou Mensagem o único livro em português publicado por Pessoa só pode ser hoje servida por uma escolha de legibilidade.» A ortografia é, sem qualquer dúvida, importante, mas não é a essência da língua.

Tradução: «bullying»

«Como temos feito?»



      A leitora M. T. S. pergunta-me se se deve usar o estrangeirismo bullying ou se, pelo contrário, se deve usar um termo português equivalente e qual. Bem, o anglicismo tomou conta do juízo dos falantes, sobretudo, como é habitual, dos jornalistas. Contudo, em parte por pressão dos leitores, alguns jornais vão tentando substituí-lo, como neste excerto de uma notícia: «O lusodescendente alegadamente vítima de intimidação [bullying] pelos colegas em Inglaterra desistiu do processo judicial contra a sua antiga escola devido aos receios com o seu bem-estar psicológico» («Vítima de ‘bullying’ desiste de processo contra colégio», 1.04.2009, Diário de Notícias, p. 16). Infelizmente, nos jornais, de uma maneira geral, não se reflecte muito na língua, não se pergunta como se deve escrever. Quando se pergunta, pergunta-se como se tem feito na publicação até então. Sei do que falo.

«Catequese» e «escola dominical»

Imagem: http://www.piccportoalegre.org/

Religião à letra


      Na edição de ontem de Mais Cedo ou Mais Tarde, na TSF, João Paulo Meneses entrevistou Tiago Cavaco, pregador na Igreja Baptista de São Domingos de Benfica e cantor rock. A determinada altura, o entrevistador disse: «Não sei se na lógica baptista se diz “catequese”.» Tiago Cavaco respondeu: «Diz-se aquilo que nos filmes se traduz mal porque Sunday school, que é escola dominical, e nos filmes, quando se diz Sunday school, traduz-se por “catequese”. Mas é escola dominical. Era aquilo que o Tom Sawyer fazia quando ia à igreja.» Já antes se tinha referido que, no âmbito da Igreja Baptista, protestante, não se diz «missa», mas «serviço». São diferenças meramente terminológicas ou conceptuais? Certo é que os dicionários bilingues inglês-português não dão para a locução Sunday school outra tradução que não «catequese», o que, se não é argumento, nos permite avaliar que não é um entendimento consensual. Nas traduções também nunca vi a locução traduzida de outra forma que não «catequese», assim como Sunday school teacher por «catequista».

Léxico: «monumentologia»

Como é que é?


      «A monumentologia da Cidade de Coimbra, rica como é e diversificada em termos de estilos, de épocas e de modelos artísticos, constitui um indelével testemunho da história da cidade que foi sede da Corte, em alternância com Lisboa, e a primeira cidade universitária do País» («Coimbra, uma visita à cidade da memória», Ten RC Ana Rita Carvalho, Jornal do Exército, n.º 581, Fevereiro de 2009, p. 44). Tive de ler o Jornal do Exército para conhecer o termo: monumentologia. Não vou negar à partida uma ciência que desconheço, mas cheira-me a invencionice inútil. Quanto à substância do texto, neste trecho há uma imprecisão: a universidade, na verdade, estabeleceu-se primeiro em Lisboa. Ainda me lembro bem de o Prof. Doutor Ruy de Albuquerque, nas aulas de História do Direito, realçar este facto.

Sobre o trema


Das letras ramistas a Citroën

      No dia 1 de Outubro de 1885, André Gustave Citroen, filho do joalheiro holandês Levie Citroen e da polaca Mazra Kleinmann, entra para o 9.ºC no Liceu Condorcet em Paris. Quando se matricula, acrescenta um trema ao patronímico: Citroën. Passados 123 anos, alguns jornalistas portugueses ainda não sabem exactamente onde deixar cair os pingos, como dizem os Brasileiros. Em francês, o trema (tréma, nesta língua, cujo étimo é o grego τρημα, «orifício, buraco») é o sinal ortográfico formado por dois pontos justapostos que se escrevem sobre as vogais e, i e u para indicar que não formam um digrama com a letra anterior nem é a associação de uma semivogal com uma vogal, mas que se trata de uma disjunção entre duas vogais, que por isso devem ser pronunciadas separadamente: aiguë, Israël, maïs, capharnaüm...
      O trema foi introduzido em 1532 na língua francesa pelo médico Jacobus Sylvius para distinguir o i e o u vocálicos do i e do u consonânticos, que se confundiam graficamente. Só mais tarde foram introduzidas as chamadas letras ramistas (assim designadas em homenagem ao humanista francês Pierre de la Ramée, conhecido por Petrus Ramus, nascido em 1515, que na página 26 da sua Grammaire Française, publicada em 1572, propôs estas letras), o j e o v, desconhecidas do Latinos.

Citar a Bíblia

A Luz brilhou nas trevas

O Evangelho segundo S. João, que se lê na terça-feira da Semana Santa, contém o episódio do anúncio da traição de Judas. «Fazia-se noite» quando Judas saiu, lemos (Jo 13, 30b). (Na Vulgata, lê-se: «erat autem nox».) O que me fez lembrar a frase «felizmente há luar», que se repete na obra homónima de Sttau Monteiro. No drama, a frase tem significados diferentes, e mesmo opostos, consoante é proferida por uma ou por outra personagem. A frase bíblica, por seu lado, alude à luta final entre os poderes das trevas (e ao domínio das trevas, que é o triunfo passageiro de Satanás) e a Luz verdadeira.
E já que pergunta, leitor, dir-lhe-ei: a letra b depois do número do versículo indica que se cita apenas uma parte do versículo e não todo o versículo. «Tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite.» Naturalmente que só depois de localizar o versículo todo, o 30, neste caso, é que se poderá perceber a que parte se refere a letra.

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