Léxico: «mazute»

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Grandes distraídos…


«O Governo ucraniano deu ontem indicações para que o gás natural comece a ser substituído pelo mazout (óleo) no aquecimento» («Leste da Europa a tremer de frio sem o gás russo», Susana Salvador, Diário de Notícias, 7.01.2009, p. 25). Muito interessante — mas a palavra já corre por aí aportuguesada: mazute. É uma palavra russa, mas ter-nos-á chegado através do francês mazout. É um produto petrolífero líquido, de cor negra e de aspecto viscoso, resíduo da destilação fraccionada do petróleo bruto.

«Escalamento» e «escalonamento»

Assim não sobem




      «O outro jovem que com ele seguia e que acabou detido, Michel Mendes, tinha 19 anos e igualmente um vasto currículo criminal — já tinha sido detido em Março por furto no interior de um automóvel, e, em Abril, por furto em residência por escalonamento» («Família garante que o jovem não tinha armas», Licínio Lima, Diário de Notícias, 7.01.2009, p. 23). Era de toda a conveniência que os jornalistas de vez em quando consultassem um dicionário da língua portuguesa. Escalonamento é a disposição em degraus, a distribuição por níveis, graduação ou a organização segundo um dado critério, agrupamento. Escalamento, por sua vez, é o acto ou efeito de subir ou trepar, escalada. Entre os próprios verbos, escalar e escalonar, também já tenho visto grandes confusões. Claro que, tratando-se muitas vezes de gangues, bem podem operar por escalonamento…

Conjunção subordinativa final

A golpes de gládio


      Na obra que citei no texto anterior, escreve Fernando Cabral Martins: «O primeiro verso saiu na 1.ª edição, lição que é recebida na edição crítica de José Augusto Seabra, assim: “Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça”. Segundo a mesma edição crítica, este “porque” teria uma “função de conjunção final” (28). O facto é que só pode ter essa função se tiver a forma disjunta “por que”. Isto mesmo leu David Mourão-Ferreira, que escreve o verso desse modo — aqui seguido. No espólio, há um dactiloscrito (121-2) em que o verso tem esta mesma forma» (pp. 98-99). Celso Cunha e Lindley Cintra não sancionam a crítica do autor, pois entre as conjunções e as locuções conjuncionais subordinativas finais enumeram: para que, a fim de que, porque (Nova Gramática do Português Contemporâneo. 3.ª ed., 1986, p. 582). Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa. 37.ª ed. Rio de Janeiro, 2002, p. 328) diz precisamente o mesmo.


Apóstrofo

Apóstrofo inútil


      E, a propósito de apóstrofo, um poema da Mensagem, de Fernando Pessoa, tem por título «Nunálvares Pereira». Pelo menos numa edição que aqui tenho, da Assírio & Alvim (Lisboa, 3.ª ed., 2002), da responsabilidade de Fernando Cabral Martins, que, em nota final, esclarece: «O título do único poema aqui incluído é transcrito sem modificação pela edição crítica [Mensagem. Poemas Esotéricos, edição coordenada por José Augusto Seabra. Madrid, Colecção Archivos, CSIC, 1993], mas sofre na edição de David Mourão-Ferreira uma alteração de “Nunalvares» para “Nun’Álvares”[,] o que parece consistir apenas numa actualização ortográfica. No entanto, a grafia do nome tem uma dupla tradição, que remonta às primeiras edições impressas da Crónica do Condestável, no século XVI: ou com os dois nomes separados (por exemplo, “Nuno Alvarez”) ou juntos (por exemplo, “Nunalvrez”). Em Herculano, o nome é escrito também dos dois modos, “Nunalvares” e “Nuno Alvares”, nas primeiras edições de Lendas e Narrativas e de O Monge de Cister, por exemplo. Talvez tenha sido em Herculano que Pessoa leu esta possibilidade de grafia do nome — que torna a utilização do apóstrofo inútil» (pp. 99-100).

«Portfólio», «portefólio»


Um ezinho mais…

«Assim, até 28 deste mês, os candidatos podem inscrever-se através do site www.olhares.com/concursos/fhm e enviar o seu portfólio, que poderá incluir entre sete e 15 fotografias, todas subordinadas ao tema da moda e glamour» («Olhares.pt procura quem fotografe capa da ‘FHM’», Paula Brito, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 54). Um pouco mais de sol — eu era brasa… Não, não é isso. Um ezinho mais, e parecia português de lei. Na notícia acima, do pouco cuidadoso diário económico Oje, é portefólio que se usou.

Neologismo «referenciação»

Talvez faça falta

«Agora, com os critérios de Bolonha, as teses são significativamente encurtadas, seguindo uma filosofia mais anglo-saxónica, privilegiando-se mais a inovação do que a referenciação bibliográfica» («Teses de doutoramento à venda por 50 mil euros», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 5). O neologismo referenciação até pode não estar ainda registado em todos os dicionários, mais ei-lo aí, assim como o primo, georreferenciação. De qualquer modo, o verbo referenciar está dicionarizado e é usado. Como se usa a locução referência bibliográfica (série de indicações que possibilitam a identificação de um livro, texto, artigo, etc.), tratou-se de inventar uma forma de referir o acto de fazer essa referência. Nasceu assim — por influência do inglês referral, como alguns sugerem? — o termo referenciação.

«País das Pampas»

Em pleno processo

      «Na despedida, o mago, agora seleccionador do país das pampas, foi entrevistado pelo Benfica TV» («Diego diz que Di María marcou golo à Maradona», Bruno Pires, Diário de Notícias/DN Sport, 16.01.2009, p. 4). Já uma vez pude assistir ao raciocínio de um revisor, graças ao facto de ele, sentindo-se observado, ir falando em voz alta, que se deparou com a locução País das Pampas. Que não podia ser com maiúsculas, começou por dizer. Depois consultou o termo «pampa» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Encontrou o que era de esperar: «designação dada à estepe de gramíneas, que se estende pela vasta e uniforme planície de terra amarela da Argentina, de que ocupa a parte média, e que constitui zona de boas pastagens, em parte já agricultada». Só pode ser com minúsculas, concluiu, ufanoso e equivocado. País das Pampas é um prosónimo, conceito que já aqui expliquei três vezes, e por isso grafa-se com maiúsculas iniciais.

Sobre «oleão»

Podia ser

Em Junho de 2004, descobriram-se quase por acaso sepulturas colectivas no edifício da Academia das Ciências, instalada desde 1836 no Convento de Nossa Senhora de Jesus, da Ordem Terceira de S. Francisco. O estudo do achado feito até hoje permite afirmar que naquela época se recorreu ao canibalismo. Nos restos, até uma beata apareceu: «Botões de osso, fragmentos de vestuário da época, uma beata de cigarro de enrolar e até uma vértebra de cobra-rateira, capaz de crescer até dois metros de comprimento, foram encontrados nas sepulturas colectivas» («Testemunhos», texto de apoio ao texto «O sismo de 1755 contado pelos ossos das vítimas», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 29). Este texto podia ser sobre estes erros: «Mas uma improvável soma de coincidências ditou que o primeiro ossoário conhecido de vítimas do terramoto surgisse na Academia de Ciências […].» Mas não. É certo que se escreve ossário ou ossuário*, mas chamou-me a atenção a beata. Recentemente, alguém me perguntou aqui como se devia grafar o termo que designa o recipiente para conter óleo alimentar para reciclagem: óleão ou oleão? Uns dias depois, vi este texto: «As beatas à porta do café do bairro são a sua preocupação recente. “Deviam criar o beatão pois as pessoas fumam na rua e sujam tudo”» («Tutor encarregado de manter o bairro limpo», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 15.02.2009, p. 56). A criatividade linguística apoia-se aqui em termos semelhantes, como pilhão e vidrão, por exemplo, já registados nos dicionários gerais da língua. O primeiro a surgir foi vidrão e logo por analogia se construiu um paradigma de unidades linguísticas parafraseáveis por «recipiente de recolha de n para reciclagem», como beatão, embalão, livrão, metalão, oleão, papelão, rolhão… Ao oleão também se dá o nome quase impronunciável de ecoóleo.

* «
Eu tenho visto a pedra, desprendida/Da montanha, levar meia floresta/Na carreira — e não há-de esse granito/Colossal, que é o Povo, despregado/Por mãos do tempo, com trabalho imenso,/Ao rolar no declive da história/Esmagar, ao correr, os troncos secos/E o mirrado ossuário do passado?» («Secol’ si rinnuova», Odes Modernas, Antero de Quental).
«A presença de jazigos e um “columbarium” (conjunto de ossuários) atesta o uso da inumação e da incineração» (Guia Bíblico e Cultural da Terra Santa, João Duarte Lourenço. Revisão de Maria José Rodrigues. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2008, p. 126).

Actualização em 7.08.2009

«Os óleos alimentares usados para cozinhar vão passar a ser colocados no oleão, uma espécie de ecoponto que as autarquias terão de disponibilizar na via pública» («Óleo de fritar doméstico terá de ser posto no oleão», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 6.08.2009, p. 16).

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