MBA, “master”, mestrado

MBA, LL.M, blá-blá-blá...


      «Natalie, que completou recentemente um bacharelato em Estudos da Mulher, pretende agora iniciar um master em Casamento e Terapia Familiar, segundo o site Daily Beast» («Virgindade de Natalie já vale três milhões», Patrícias Viegas, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 27). Na Universidade Aberta e na Universidade Nova de Lisboa há mestrados em Estudos sobre as Mulheres. Já quanto ao master… Qual ao certo a diferença entre master e mestrado? O primeiro é um vocábulo inglês e o segundo, português, isso é certíssimo. Ou seja, fosse a estudante portuguesa, Natália, e o que ela seria era titular de um mestrado em Casamento e Terapia Familiar. E quanto a MBA e mestrado? Bem, o MBA (master business admnistration) tem características próprias e um cariz muito mais prático e aplicado, ao contrário da maioria dos mestrados, que são essencialmente teóricos, mas, sobretudo — sobretudo, repito — é um nome de fantasia, pois o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior nunca usa a sigla MBA ou o seu desdobramento, master business admnistration. Trata-se, isso sim, de um curso de pós-graduação, não conferente de um título académico, como previnem algumas instituições de ensino superior. Ao lado do MBA para áreas como Gestão de Empresas, há também os LLM (ou LL.M) para a área jurídica, sigla do latim legum magister, mestre em Leis.

Léxico: «bongo»


O bom sabor da selva

Já tinham visto esta imagem do campeão olímpico Michael Phelps a pôr a boca num tubo de ensaio? Claro que não é um tubo de ensaio, anjinhos. De fóruns de discussão a artigos científicos, portugueses, em todo o lado vejo que se designa por bongo esta espécie de tubo de ensaio utilizado como cachimbo para fumar canábis. É o aportuguesamento do termo inglês bong, que por sua vez pode ter vindo do tailandês baung. É provável que tenham sido os veteranos da Guerra do Vietname a levarem o termo e o objecto para os Estados Unidos, ainda na década de 1960. Automedicação para o stress pós-traumático de guerra, dizem eles.
«O nadador e campeão olímpico norte-americano Michael Phelps apareceu ontem na capa do jornal britânico News of the World a fumar um bongo, ou seja, um cachimbo de água usado para fumar e inalar cannabis» («O bongo», Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 7).

Uso do apóstrofo

A métrica do erro


      Freire d’Andrade? Mera adesão à obra de Sttau Monteiro. No entanto, é tão legítimo usar neste caso o apóstrofo como em Victorino D’Almeida. A verdade, porém, é que só o uso do apóstrofo nas ligações de duas formas nominais quando é necessário indicar que na primeira se elimina um o final está previsto no texto dos acordos ortográficos: Nun’Álvares, Pedr’Eanes. Em certos compostos, também se usa este sinal diacrítico para assinalar a eliminação do e da preposição de, em combinação com substantivos como borda-d’água, cobra-d’água, copo-d’água, estrela-d’alva, galinha-d’água, mãe-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco, pau-d’óleo. Recentemente, tudo o que se refere a Barack Obama é notícia, como a escolha da raça do cão para as filhas do presidente dos Estados Unidos da América: «O “melhor amigo” de Sasha e Malia, filhas de Barack Obama, já está escolhido: vai mesmo ser um cão-d’água português» («Cão da Casa Branca descende do canil de Conchita Cintrón», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 27.02.2009, p. 32). Os Brasileiros usam (e abusam) muito mais o apóstrofo do que nós, que, todavia, usamos incorrectamente «p’lo» em correspondência de carácter formal, como se tal elisão se justificasse.

Apodos

Hipocrisias

      No drama Felizmente Há Luar, António de Sousa Falcão, amigo do general Gomes Freire d’Andrade, diz a Matilde de Melo, mulher do general: «D. Miguel [Forjaz, do Conselho de Regência] é um cristão de domingo, Matilde» (Porto: Areal Editores, 2003, Acto I, p. 117). O que me fez lembrar a alcunha alentejana comunista de Inverno, de que falei aqui. Trata-se do mesmo: referir, de forma jocosa, a falsa adesão a princípios, a hipocrisia de quem se diz comunista ou cristão apenas para interesse próprio.

Vírgula depois de reticências

Eu faço e você explica

Suponham agora que um autor escrevia esta frase: «Embora tenha sempre compreendido a necessidade da disciplina, foram muitas as vezes em que discuti as ordens..., mas eu não constituía um perigo sério.» Suponham também que o autor implicava, após a revisão do texto, com a vírgula depois das reticências e queria que o revisor justificasse a correcção da mesma. Absurdo, não é? No fundo, o código da escrita não é muito diferente do código da estrada: o que não é proibido é permitido. Consultei a Academia Brasileira de Letras, que me respondeu: «Se a vírgula fizer parte do texto ao final das reticências, deve ser mantida. Nessa frase, deve ser mantida por estar antes da conjunção adversativa mas

Substantivos sigmáticos

E se eles não sabem?...



      «Marguerite, a baronesa de Reuter, a última sobrevivente da família que fundou a agência internacional de notícias Reuters, faleceu ontem, aos 96 anos, num lar de idosos francês na fronteira com o Mónaco. Mecena das artes, Marguerite era viúva de Oliver, quarto barão de Reuter, cujo avô Paul Julius Reuter fundou a agência» («Baronesa de Reuter morre em França», Diário de Notícias, 26.01.2009, p. 56).
      Pode ser gralha, sim, mas quem sabe? O substantivo assinalado é sigmático, isto é, termina em s, como lápis, pires, ténis. Conceito diferente dos pluralia tantum, de que já aqui falei uma vez, que são palavras usadas apenas no plural, como afazeres, algemas, alvíssaras, anais, antolhos, armas (brasão), arras, arredores, avós (antepassados), belas-artes, belas-letras, calças, calendas, cãs, cócegas, confins, costas, endoenças, esponsais, exéquias, férias, fezes, hemorróidas, idos, maiores (antepassados), matinas, núpcias, óculos, olheiras, parabéns, penates, pêsames, primícias, suíças, trevas, vísceras, víveres… Como também há os singularia tantum, palavras usadas apenas no singular, como sucede com as palavras que expressam ciências e artes (arquitectura, pintura), os nomes dos minerais (ouro, prata), o nome de produtos animais ou vegetais (leite, manteiga), o nome das virtudes ou vícios (caridade, malvadez), o nome de substâncias inorgânicas (azoto, oxigénio), os nomes abstractos (brancura, nobreza), alguns colectivos (prole, plebe), etc.


Tradução: «essay»

Ensaio… de porrada

Matt, o irmão de Lizzie McGuire, um miúdo de 11 anos, para participar num concurso tinha de redigir um ensaio. Quer dizer, para a tradutora, Celina Marto, da série Lizzie McGuire é que se tratava de um ensaio. Não fez a coisa por menos: ensaio. Que eu saiba, um ensaio é um texto de análise e interpretação crítica de determinado assunto, muito usado em teses académicas, por exemplo. É um erro muito comum e decorre do método habitual de traduzir: escolhe-se a primeira acepção dos dicionários de inglês-português e já está. Além de «ensaio», essay também significa «tentativa, experiência» e, é o caso, «composição, redacção». No âmbito escolar e mesmo extra-escolar, é o exercício que consiste em escrever um texto sobre um tema proposto («a short piece of writing on a particular subject, especially one done by students as part of the work for a course», na definição do Cambridge Advanced Learner’s Dictionary).

A pronúncia de «icebergue»

Incoerência


      «Mesmo para passar o tempo há muita gente que joga a bisca dos nove, faz um desenho com nove espaços para o jogo do galo, vai ver os golos que no futebol são marcados sobretudo pelo camisola 9, tenta perceber as manobras dos nove jogadores da equipa que defende no beisebol» («A nossa vida de cada dia costuma abrir às nove», Fernando Madaíl, Diário de Notícias/DN Gente, 3.01.2009, p. 20). Isto é coerente: queremos ler à inglesa a palavra, então escrevemo-la «beisebol». O mesmo deveria suceder com o vocábulo «icebergue». Se queremos lê-lo à inglesa, deveremos escrever «iceberg»; se queremos lê-lo à portuguesa, deveremos escrever «icebergue». Mas não é assim que acontece. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, indica para o vocábulo «icebergue» duas pronúncias: com i e com ai. O Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, já registava a grafia «icebergue», aportuguesamento do inglês iceberg, mas sem indicar o valor de i, mas presume-se que vale i.

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