«Governo pasteleiro»

Outras fusões

Entre 1834, termo da guerra civil entre liberais e miguelistas, e 1851, ano do pronunciamento militar da Regeneração, imperou largamente a violência política no País, legado perdurável da Revolução Francesa de 1789. Alguns políticos, de que Rodrigo da Fonseca (1787-1858) foi um dos expoentes, procuraram evitar a ameaça por meio de concessões, que se esperava que esvaziassem de conteúdo as reivindicações dos adversários e satisfizessem as ambições pelo menos de alguns deles. Era a táctica dos governos chamados «pasteleiros», a partir dos versos jocosos que então estavam na boca do cidadão comum: «Um pasteleiro queria/fabricar um pastelão/e, porque tinha de tudo,/deu-lhe o nome de fusão.» Aos esforços de agradar às clientelas, dava-se o nome de «pastelarias».

Léxico: «cisionista»

Dá que pensar

Embora o termo «cisão», na acepção de divisão de uma agremiação, de um partido, de uma sociedade, de uma doutrina, etc., se aplique em qualquer área ideológica, parece que são quase exclusivamente os comunistas que usam o adjectivo «cisionista», que nenhum dicionário regista. Do anarquista Bakunine ao mais cordato zé-ninguém, muitos têm sido os indivíduos acusados de «actividade cisionista».

Léxico: «heminegligente»


Pela metade

Conheci ontem um novo vocábulo: «heminegligente». É a tradução do francês héminégligent e pertence ao jargão da neuropsicologia, designando o paciente que, na sequência de uma lesão parietal do hemisfério direito, ignora tudo o que se passa no seu lado esquerdo, ignora metade do seu universo. Sobretudo no campo da terminologia da medicina, há outras coisas pela metade: hemiagnosia, hemialgia, hemicrania, hemianestesia, hemianopsia, hemiopia… Contudo, o hemi- de que mais se fala, sobretudo nos meios de comunicação social, é o hemiciclo, o Parlamento.

Plural de «viés»

Não me parece

O autor terminava a frase escrevendo que a manipulação linguística «acaba por criar em qualquer indivíduo bem-intencionado um mundo mental onde os viés são poderosos». Não contesto a verdade da afirmação — só a gramática. Convenho: «viés» não é palavra de todos os dias. Por isso mesmo, o autor devia ter consultado um dicionário ou gramática. O plural de viés é vieses, como o de revés é reveses. Não é como lápis, que é invariável: um lápis, duzentos lápis.

À volta de «alunagem»

Sem perigo

Há almas cândidas que se vão preocupando já com o que vai acontecer quando naves espaciais pousarem nos planetas Vénus, Plutão, Saturno e todos os outros. É que na Lua as naves alunaram… Essas almas cândidas, contudo, que se calhar nunca embarcaram num navio, dizem que o fazem num avião, num comboio… Valha-nos a catacrese, que é o nome que se dá ao uso de um termo figurado por falta de termo próprio. Se aterramos na Terra, talvez também o possamos fazer, sem perigo para ninguém, na Lua, em Marte, em Neptuno…

Actualização em 23.05.2009

«A agência espacial norte-americana, NASA, está a preparar uma nova missão à Lua. O objectivo é encontrar água e locais adequados à alunagem — duas condições essenciais para planear o regresso dos seres humanos àquele planeta e uma eventual colonização» («Procurar água e locais para novas alunagens», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 39).

Concordância verbal

A seita

Imaginem, se não custar muito, esta frase: «Nada nem ninguém, nem sequer os entes mais queridos, conseguiam persuadi-lo a abandonar a seita.» Com tantos «nem», podemos ficar obnubilados, mas, passado um bocado, indagamos que faz ali aquele plural, «conseguiam». Parece muita coisa e muita gente, mas talvez o verbo no singular seja o mais adequado. As gramáticas que consultei não contemplam este tipo de construção com pronomes indefinidos. Para já, esqueçamos o segmento «nem sequer os entes mais queridos», que, mais do que não adiantar, atrasa a análise. Sobra isto: «Nada nem ninguém conseguiam persuadi-lo a abandonar a seita.» Se tivermos uma enumeração quilométrica cujo último termo seja «nada», o verbo vai para o singular. Se tivermos uma enumeração quilométrica cujo último termo seja «ninguém», o verbo vai para o singular. Sendo assim, porque é que a construção «nada nem ninguém» levaria o verbo para o plural? É que não são substantivos, lembrem-se.

«Pegada de carbono»

Imagem: http://bioplasticnews.blogspot.com/

Pensem bem

Poucas vezes se adoptou, traduzindo, tão rapidamente uma palavra ou expressão do inglês como aconteceu com carbon footprint. Sem contestação nem estranheza. O pior, e o que motiva este texto, é que muitos jornalistas a usam sem a explicarem. Isso é um erro. A pegada de carbono, deviam esclarecer, é a medida do impacto das actividades humanas sobre as emissões de gases com efeito de estufa, ou seja, representa a quantidade de dióxido de carbono equivalente libertada na realização de cada actividade do nosso dia-a-dia.

Porquê «Serra algarvia»?

Alto conceito

Se se aceitasse, à luz das regras que nos regem, que se escrevesse Planície alentejana, Lezíria ribatejana, Sertão brasileiro e Tundra siberiana, por exemplo, então sim, também teria de se aceitar Serra algarvia. O que acho é que é mais um caso de uso arbitrário da inicial maiúscula (a «letra grelada» a que se referia o poeta António Feliciano de Castilho). Juizinho.

Actualização em 22.05.2009

Nos jornais, por vezes escrevem correctamente: «Para os mais experientes ou determinados, os 240 quilómetros da Via Algarviana, que faz a ligação pedestre entre Alcoutim e o cabo de São Vicente, serão o desafio a não perder, sobretudo se estão interessados em conhecer melhor a serra algarvia» («Caminhando pelos trilhos de Portugal», Liliana Duarte, Público, 22.05.2009, p. 42).

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