Principal Sousa, de novo

Populares?




      Afinal, D. José António de Meneses e Sousa Coutinho é mais parecido ao inspector Varatojo, por exemplo, do que a Che Guevara — principal Sousa se deveria ter escrito. Pus-me a reler Felizmente Há Luar! e leio esta fala de Beresford: «Sim, também aqui se pode sair a cavalo, mas os prados são secos, Excelência, e as árvores tão entisicadas que parecem ter sido todas plantadas pelo principal Sousa…» (Porto: Areal Editores, 2003, Acto I, p. 57). E vejo coisas curiosas. Manuel, uma personagem popular, pergunta: «Que é isto?» Talvez por ser «o mais consciente dos populares». Mas também Vicente, «um provocador em vias de promoção», pergunta: «Que me quer ele?» E Beresford: «Excelências: não vim aqui para perder tempo com conversas filosóficas. Venho falar-lhes de coisas mais sérias» (p. 41). Sttau Monteiro sabia escrever. Demasiado bem, talvez.


O valor de ex-

Xelente actor

Há muito sei que a noção de que ex- vale eis se vem perdendo, mas ainda vou ficando surpreendido. Ontem, o Pascoal (João Didelet) da Floribella servia, no seu Chá de Letras, uma chávena de leite com mel à mãe do seu futuro filho, argumentando que o café que ela queria lhe faria mal, porque «toda a gente sabe que o café é /xitante/». Ainda se para a composição da personagem fosse necessário falar deste modo, vá lá. No blogue da série, a personagem é apresentada como tratando «os livros como se fossem seus filhos e faz questão de vigiar de perto quem os compra, recusando-se mesmo a vender livros a certas pessoas, se não lhe agradam». De alguém assim, esperava-se que não atropelasse a língua. E o actor, não teve lições de dicção?

Novas regras ortográficas

Depois do Acordo Ortográfico

Vai ter de chegar lá por analogia, como em inúmeras situações, cara Luísa Pinto. Se antes escrevia (espero!) «anti-semita» e com o Acordo Ortográfico de 1990 vai passar a escrever «antissemita», da mesma forma passará a escrever «antissalazarista», porque antes escrevia «anti-salazarista» (espero!). Anti- só se ligará por meio de hífen ao segundo elemento quando este começa por h (anti-higiénico), por r ou s (antirreligioso, antissemita) ou por i (anti-ibérico).

Conversão de unidades de medida


Não se convertem


      «Espremeu uma delas e saiu uma libra de sumo; o sabor era de mel.» É assim, sob o signo de S. Brandão, na Navigatio Sancti Brendani, que começo este texto para manifestar mais uma vez a minha estranheza por alguns tradutores deixarem para alguém — já adivinharam quem — a tarefa de converter unidades de medida que nos são estranhas. Que sentido faz, por exemplo, não converter graus Fahrenheit? Acho que até já vi a indicação em graus Réaumur! É claro que há técnicas de conversão facílimas, mas hoje em dia até alguns telemóveis têm conversores. A Internet tem conversores. Usem-nos.

Ortografia: «microespaço»

Os pseudoprefixos


      O leitor A. M. L. pergunta-me como se deve escrever: «micro-espaço» ou «microespaço». Bem, não o escreveu, mas quem sabe se não ponderou também a hipótese de se escrever «microspaço». Sim? O Acordo Ortográfico de 1945, agora na pré-reforma, estabelece que com o elemento micro- nunca se usa o hífen. O problema, contudo, é que a par de «microempresa», por exemplo, temos também dicionarizado e vai-se usando «microsfera»…
      Esta parte da língua não é propriamente um locus amoenus, um lugar ameno. A Base XVI, 1.º, b) do Acordo Ortográfico de 1990 estabelece que apenas se usa hífen «nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno». Assim, inequivocamente, microespaço.

Frases negativas

Partículas desconsagradas

Cruzei-me ontem na rua com duas mulheres, e uma delas ia contando: «Dizia ela: “Eu já não disse que eu é que sou a professora?”» Se a citação era fiel, estamos mal — ou estão mal os alunos da referida professora. Esta é mais uma área problemática da língua portuguesa. Em frases negativas, alguns, muitos, falantes (que o meu preconceito [se fosse sociolinguista, certeza científica] logo estabelece como pertencendo a certo estrato social) não sabem onde encaixar certas partículas. E por ali ficam elas, ao deus-dará.

«Volp»


Ei-lo


      O Assim Mesmo esteve ontem presente, por interposta pessoa, na palestra de Evanildo Bechara na Academia Brasileira de Letras. O leitor Paulo Araujo assistiu e pôde comprovar como aquele filólogo, responsável pela equipa que reviu o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, garantiu, «com muita ênfase, que todo o trabalho foi feito no estrito cumprimento da letra do Acordo e mais, onde ficou margem a dúvida, ou não está especificamente citado, ou não se enquadra nas regras, ainda assim valeu a tradição do Acordo de 1945, que o Brasil não adotou na época, mas agora, ironicamente, rende-se ao que ali foi estatuído. Portanto, ao que me parece, será aceito em Portugal, sem objeções».
      Como podemos ler no artigo do Estadão, enviado por Paulo Araujo, para o professor de Português e lexicógrafo da Academia Brasileira de Letras Sérgio Pachá, o vocabulário está a ser visto como um Messias. Para nós, será, suspeito, um D. Sebastião.

Principal Sousa

Próxima paragem

      Não ouvi, como sucedeu com Santo Agostinho, uma voz dizer-me «tolle, lege, tolle, lege!», mas foi o que fiz. Apanhei a folha A4 e pus-me a lê-la. Não tinha cabeçalho, mas era parte de um teste de Língua Portuguesa (12.º ano?). Uma das perguntas era porque se dava a D. José António de Meneses e Sousa Coutinho o nome de Principal Sousa. (Tão importante, suponho, do que saber porque a Ernesto Guevara se chamava Che…) O nome estava adormecido na memória e lera-o, decerto, no Felizmente Há Luar! de Sttau Monteiro. Mas porquê Principal Sousa foi uma pergunta que só não me deixou emudecido porque eu estava calado, como normalmente estão calados dois desconhecidos numa paragem de autocarro.
      A personagem pertencia, isso é certo, ao clero, que representava na Regência. E o termo eclesiástico «principal» designa o superior de uma comunidade religiosa. Será por isto? É o que se me afigura plausível. No caso, não só era principal, como estava entre os principais (outra acepção, esta no plural): pessoas importantes ou influentes numa dada sociedade. Sendo irmão de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, 1.º conde de Linhares e ministro de D. João VI, e do conde do Funchal, Domingos de Sousa Coutinho, embaixador em Londres, que negociou a ajuda inglesa contra os Franceses, pertencia ao escol.


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