«Continente Negro»

Sem desculpa

      No dia 14 de Fevereiro de 2008, às 9.30, um locutor da NPR, um operador público de rádio nos Estados Unidos, afirmou que o presidente Bush estava no «dark continent». Uma hora mais tarde, o locutor pedia desculpa por ter usado a expressão. Dois dias depois, o próprio sítio da rádio na Internet referia-se ao caso, concluindo: «This was totally inappropriate and offensive, and we apologize for allowing such an antiquated and pejorative term to air.» Bem, inadequada ou não, usa-se. Ainda ontem, no Diário de Notícias, num texto assinado por Helena Tecedeiro sobre a visita do papa a África, se podia ler: «Bento XVI no continente negro». A meu ver, o Diário de Notícias devia era pedir desculpa por escrever incorrectamente. Tratando-se de um prosónimo, tem de se grafar com maiúscula inicial: Continente Negro.

«Sorte de gaiola»

Imagem: http://forcadosdemontemor.com/

Azar da sorte




      Pelo menos uma vez já aqui abordei o léxico da tauromaquia. Hoje é a vez de assinalar o uso da locução «sorte de gaiola», usada hoje na imprensa. Um elemento do Grupo de Forcados de Portalegre foi violentamente colhido por uma vaca, durante o treino do grupo no fim-de-semana, em Arronches, e faleceu ontem. «O jovem encontrava-se em estado muito grave desde que no sábado foi colhido por um touro. Francisco, há quatro anos naquele grupo de forcados, ensaiava uma pega em “sorte de gaiola” (tentativa de pegar a vaca mal esta saísse dos curros), quando sofreu o acidente e foi violentamente projectado contra a parede da Praça de Toiros» («Forcado de 25 anos morre depois de colhida», Diário de Notícias, 17.03.2009, p. 14).


Ensino de Português

Regresso ao trivium


      Portugal é o país da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) com menos horas de língua materna (três horas por semana) segundo o presidente da Associação de Professores de Português, Paulo Feytor Pinto. Isto explica muita coisa. Explica quase tudo, na verdade. Acabo de ler no Diário de Notícias que esta associação «vai pedir hoje no Parlamento mais horas para o ensino da língua materna, sugerindo também o desdobramento das turmas nas aulas de gramática e produção escrita» («Mais português», Diário de Notícias, 17.03.2009, p. 14). Ainda regressamos ao trivium, o sistema medieval da organização dos conhecimentos, e não ficaríamos mal servidos: na Gramática estudavam-se os mecanismos da língua; na Dialéctica, os mecanismos do pensamento, da análise e da mensagem; na Retórica, estudava-se a arte de usar a linguagem para persuadir e instruir. É inacreditável, por exemplo, como as licenciaturas em Direito não têm uma cadeira de Retórica. Não sabem escrever, não sabem falar… «Peço justiça.»


Plural de «córtex»

Cérebro dividido

aqui referi o plural de palavras como «tórax» e a solução dada pelo Acordo Ortográfico de 1990. Contudo, depois ter abordado aqui a questão do plural da palavra «dúplex» (e aludi mesmo à palavra «córtex»), fiquei ainda mais convencido de que o desentendimento dos linguistas é insanável. Ontem revi um texto em que se falava de alguém «a quem se cortaram as conexões entre os córtex esquerdo e direito». Neste caso, a solução não podia ser outra: a forma culta do plural de córtex seria córtices. O texto do novo acordo ortográfico não veio, infelizmente, preconizar soluções mais lógicas neste campo.
Os anglo-saxónicos também não se entendem completamente: uns, talvez a maioria, afirmam que «the plural of cortex is cortices»; outros, que é cortices ou cortexes. Só nos resta tomar uns ataraxes ou uns xanaxes e esperar que nem os componentes nem os plurais nos façam mal.

Léxico: «mecatrónica»


Esta aparece

«Frederico “tropeçou” por acaso no curso profissional de mecatrónica, mas o colega Bruno assume ter escolhido a área porque lhe garante emprego. Juntos, formam uma das duas equipas que disputam no Campeonato Nacional das Profissões a prova de mecatrónica — profissão pluritecnológica que implica o domínio de áreas como electricidade, pneumática, electrónica e mecânica — que, num modelo também pouco habitual nos campeonatos, será disputada em equipa» («Prova de mecatrónica é novidade», Diário de Notícias, 9.03.2009, p. 34). A definição é ilustrada pela imagem acima, que pertence ao sítio da Universidade de Évora e que, concretamente, aparece na área da licenciatura em Engenharia Mecatrónica. O termo «mecatrónica» vem do inglês mechatronics (de Mechanical and Electronics [Engineering]). Já aparece registado em alguns dicionários.

«Mundividência» ‘vs.’ «mundivivência»

Dicionários mundificados


   Quantas palavras não se usam diariamente sem estarem registadas em dicionários! «Mundivivência» é uma delas. Tanto quanto sei, nenhum dicionário a regista. Há quem creia mesmo, ignorando os elementos de composição de ambos os vocábulos, que está em vez de «mundividência». A mundividência ou mundivisão (e em espanhol também se diz mundivisión) é a visão, a concepção, que uma determinada pessoa tem do mundo. A mundivivência é a vivência do mundo, a experiência que se tem do mundo.



Léxico: «chancas»

Imagem: in Público/P2, 6.03.2009, p. 2

Muito teológico

Pouca gente já conhecerá o termo (o significado) «chancas», principalmente porque o próprio objecto (o referente) só se encontra actualmente em museus. Eu próprio nunca vi umas chancas na minha vida, excepto em imagens. Lembro-me é de a minha mãe usar a expressão «entrar de chancas». As chancas são uma espécie de calçado com base de madeira, pelo que quem andar assim calçado não entrará de mansinho onde quer que seja. O vocábulo «chanca» vem do latim planca, «tábua», que também originou «prancha». A tábua de salvação teológica de Tertuliano era uma planca: planca post naufragium. O naufrágio, entenda-se, que é a perda da graça. Há duas tábuas de salvação: a primeira é o baptismo e a segunda, a penitência.

«Pessoa humana»

Qual pleonasmo! Asno

      Não faltam, por essa lusofonia afora, ignorantes que achincalham quem usa a expressão «pessoa humana». Trata-se de um conceito técnico-jurídico largamente usado noutras áreas, como na religião e na filosofia. Qualquer participante dos cursilhos de Cristandade a conhece. No fundo, o conceito serve para distinguir entre pessoa física (eu, o leitor) e pessoa jurídica (uma empresa), ambas sujeitos de direito. Não faltam exemplos de formas de dizer peculiares de certas áreas do saber que extravasam do seu âmbito original de uso.

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