«Nos antípodas»

Assim é que é

O astrólogo (ou «astrofilósofo»?) José Prudêncio foi ontem entrevistado por Isabel Angelino no programa Há Conversa, na RTP Memória. A determinada altura, disse que qualquer coisa estava «nas antípodas» de outra coisa. Disse mal. A designar, em sentido real ou figurado, dois pontos opostos, «antípodas» é um nome masculino plural: nos antípodas. Como adjectivo, é uniforme; como nome para designar o habitante que, relativamente a outro, se encontra num lugar diametralmente oposto do planeta, tem os dois géneros.

Ortografia: «hidrolisado»


Polivalência

Já com o vocábulo «catalisador» se passa o mesmo: vejo-o quase sempre escrito, até por pessoas cuidadosas quanto ao resto, com z. Mesmo em textos revistos o vejo grafado com z. Falta de reflexão sobre a língua: se deriva de uma palavra com s, «catálise», os derivados não podem ter z. Assim, de «catálise», «catalisador», e de «hidrólise», «hidrolisado». Difícil?
Todavia, sabe Deus quem escreve estas coisas, em especial nestas empresas como a que comercializa a farinha láctea (Jerónimo Martins). Com o império da polivalência, poderá ser mesmo um segurança ou uma telefonista (que muitas vezes acumula as funções de recepcionista, especialista nas revistas Maria e Ana e bisbilhoteira) que «têm jeito para a escrita». O resultado está à vista. Sim, é mais grave do que com as leis, porque estas só são conhecidas de umas escassas centenas de pessoas, ao passo que os rótulos de produtos são lidos por muito mais gente.
Ah, sim, escreve-se betacaroteno ou β-caroteno, que a Infopédia afirma que «é um percursor da vitamina A».

Redacção das leis

A redacção final

Boa notícia, esta de o procurador-geral da República criticar abertamente a redacção das leis. Perdão: das propostas de lei. «O PGR apontou também falhas na redacção da lei, uso indevido de siglas (que geram confusão) e até de neologismos, como “empoderamento”, uma importação do inglês “empowerment”. Pinto Monteiro criticou a má técnica legislativa. Opiniões não contrariadas pelos deputados que, entre dentes, fizeram questão de dizer que se trata de uma “proposta de lei”. Ora, da autoria do governo, sendo que a redacção final será mais cuidada» («“Tirem lá a vírgula entre o sujeito e o predicado”», Diário de Notícias, Carlos Rodrigues Lima, 11.03.2009, p. 15). O argumento de que se trata de uma proposta de lei e não de uma lei é revoltantemente risível.

«Quarentão» e «quadragenário»

Parece mais velho

«Ontem, no tribunal de Munique, o quadragenário de fato negro e óculos de massa levantou-se para pedir publicamente desculpa às vítimas, que não estavam presentes na sala» («Casanova suíço confessa extorsão a ‘Senhora BMW’», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 10.03.2009, p. 29). Está certíssimo: quadragenário é aquele que tem idade na casa dos 40 anos. A verdade, porém, é que a palavra «quarentão» é muito, mas muito mais usada. Até hoje, nunca ouvi ninguém proferir a palavra e na escrita só em traduções. Trintão, quarentão, cinquentão, sexagenário…

Groenlândia ou Gronelândia?


Jamais

      Sabe qual é a capital da Gronelândia? Bem me parecia… Ah, sim, este blogue é sobre língua.
«Desta água fria (parece que vinda do degelo da Groenlândia) tenho medo» («Água a mais para um gato escaldado», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 12.03.2009, p. 56). Se vem do dinamarquês Grønland, até se afigura mais correcto, e é mesmo a grafia preferida dos Brasileiros. Contudo, no Grande Vocabulário da Língua Portuguesa, José Pedro Machado afirma que Gronelândia é preferível a Groenlândia. O que me parece é que Groenlândia é mais difícil de pronunciar, e nunca a pronunciei.

Verbo «tratar-se», de novo


Só vi 5 minutos

Em Sintonia do Amor (Sleepless in Seattle, no original), que ontem à noite passou no canal Hollywood, Sam Baldwin (Tom Hank) diz ao filho, Jonah (Ross Malinger): «Tratam-se de coisas que quero descobrir, e por isso é que saio com ela.» A tradutora foi Susana Bénard (Ideias & Letras). Alguns tradutores serão proficientíssimos na língua de partida — mas na língua de chegada?

Ortografia: «termossolar»

Imagem: http://www.aquasol.com.br/TSnovo.htm

Mais brio


Estão a ver a palavra «termossifão» na imagem? Parabéns, vêem. Agora a sério. Na edição de hoje do jornal económico Oje lia-se o seguinte título: «ACS totaliza investimentos de 2.200 milhões em eólica e termosolar». O que me pergunto é se esta gente — jornalistas, editores, revisor, paginador — não tem pelo menos curiosidade em saber como se escrevem as palavras. Acaso não aprenderam, como eu, na escola primária que um s isolado vale por z? Lidam com as palavras como se se tratasse de pedras. Termorresistente, termossifão, termossolar…

«Porque» e «por que»

Também dormita

O leitor M. C. pergunta-me se a seguinte frase de Ferreira Fernandes está correcta: «Um das razões porque gosto de futebol é que chuta a semântica para ela ser discutida em lugares impensáveis» («Mais uma discussão da treta», Diário de Notícias, 10.03.2009, p. 52). «E não me refiro», acrescenta o leitor, «à falta de concordância.» Bem me parecia que não iria incomodar-me pela falta de concordância… Tem, contudo, razão: Ferreira Fernandes deveria ter escrito «uma das razões por que», o que equivale a «uma das razões pelas quais». Que, na frase, é um pronome relativo. Substitui o nome antecedente «razões». Este continua a ser um erro bastante frequente.

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