Iliteracia


Não lhes falta chá

Reparem na apresentação do produto: «Infusão de plantas em saquetas individuais de 1,5 g gravadas a 1 cor. Embalagem individual de 10 saquetas.» Vamos fingir que infusão não é a operação que consiste em deixar macerar plantas ou outra substância num líquido a ferver, de forma a extrair-lhe os princípios alimentícios ou medicamentosos. No modo de preparação, lê-se: «Para garantir uma boa extracção dos activos e assim obter uma infusão de aroma intenso e paladar agradável, deve prepará-la sempre com água fervente.» Espera lá: mas a infusão não estava já preparada na saqueta?
Quem é que escreve estas parvoíces? Na Coutinho & Alexandre fariam bem em consultar um dicionário que lhes infundisse algo de bom.

Nova edição do «Volp»


Dia de São José

O leitor Paulo Araujo, a quem fico muito grato, acabou de me enviar o texto acima, publicado hoje no jornal O Estado de S. Paulo. As notícias, como podem ver, não podiam ser melhores: dia 19 a 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) será lançado. O volume terá 349 737 palavras com as respectivas classificações gramaticais. Em relação a certos vocábulos, a Comissão de Lexicografia da Academia Brasileira de Letras e principal responsável do Volp teve de estabelecer critérios no vazio deixado pelo Acordo Ortográfico de 1990. «Outro caso omisso no acordo foi a utilização de “não” e “quase” como prefixos — como não fumante ou quase irmão. Preferiu-se a forma sem hífen», escreve o autor do texto, Alexandre Gonçalves, que termina o texto afirmando: «A reacção portuguesa será conhecida na primeira quinzena de Abril, quando o Volp chegará ao país.» Este Volp será, não há qualquer dúvida, a base do futuro e tão necessário vocabulário ortográfico comum exigido pelo acordo.

«Stande»?

Não me convence

Até já me esquecia que o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, regista e recomenda «stande». ‘Stá bem, mas, já agora, não era melhor «estande»? «Não se trata de nenhuma espécie de adoração de um novo carro, nem nenhum sinal de espanto perante a sua beleza. Trata-se, apenas, de dois vendedores que fazem exercício físico antes da abertura do stande, em Banguecoque. Com a crise, é preciso muita força para vender...» («Tailândia», Global Notícias, 10.03.2009, p. 2).

Estrangeirismos e moda

Imagem: http://www.plan59.com/images/

Enfia este




      Se lermos uma peça jornalística sobre moda, tropeçamos em cada linha com inúmeros estrangeirismos. Valha este exemplo: «Os vestidos de cocktail expõem a pele nos sítios certos devido ao efeito de cut-out. Sapatos de salto alto, pumps, loafers (sapato clássico raso masculino) e botas sem fecho» («Peças-‘top’ de Hilfiger inspiram moda acessível», Catarina Vasques Rito, Diário de Notícias, 7.03.2009, p. 58). Contudo, antes de chegarmos a esta frase ainda topámos pelo caminho com passerelles, designer (mas a jornalista não o acha insubstituível, pois também usa «estilista»), camelhair e top, e depois desta frase ainda lemos bomber, trench-coats e pied-de-poule. Mas não nos podemos fiar: podem surgir termos que não estão em itálico e deviam estar. Não acontece no texto que estou a citar, mas noutros. Por exemplo, neste: «Ciente de que as calças chino permanecem um símbolo histórico do design americano, com lugar marcado no guarda-roupa dos fãs, o criador Tommy Hilfiger reinventou-as para a sua nova colecção Hilfiger Denim Chino, numa aposta de simplicidade e conforto» («Calças em exclusivo», Notícias Sábado, 12.02.2009, p. 59). Por parecer uma palavra portuguesa, passou a ser uma palavra portuguesa: não há itálico nem aspas. Outro exemplo: «Por essa altura, já havia contra-anúncios em que um cowboy, chapéu Stetson na cabeça, dizia para outro cowboy: “Bob, tenho um enfisema”» («Drogados em dívidas», Ferreira Fernandes, Notícias Sábado, 12.02.2009, p. 4). O termo stetson designa um tipo de chapéu, popularizado pelos cowboys, que é fabricado tanto pela empresa Stetson, agora com sede em Nova Iorque, mas no tempo de John B. Stetson, o inventor do chapéu, com sede no Missuri, como por qualquer chapelaria em S. João da Madeira. Não é, pois, uma marca.

Grafia dos antropónimos

In nomine status…

É só a mais recente intromissão do Estado, cada vez mais omnipotente, pese embora a aparência do contrário, na vida privada dos cidadãos: ao requerer o cartão de cidadão, uma pessoa pode ter a desagradável surpresa de ver que passou, por exemplo, de «Manuel» para «Manoel» ou de «Lurdes» para «Lourdes» — «para retomarem a grafia utilizada no ano de nascimento, disse, esta manhã [ontem], fonte ligada à emissão do novo documento», segundo o Jornal de Notícias. A provar que o Estado não é autoritário, há duas hipóteses para os cidadãos que não concordam: «“Ou aceitam a nova grafia do nome e o caso está resolvido ou tem que pedir um novo averbamento do nome e, depois de averbado, têm que solicitar a emissão de uma novo cartão, pagando mais 12 euros”, referiu a mesma fonte» («Cartão de Cidadão troca nomes para obedecer à grafia do ano de nascimento», 8.03.2009).

Artigo em nome de países

«Portugal empatado com Chipre»

Olhamos para o título e pensamos: «Finalmente, aprenderam.» Mas não, pois no corpo da notícia lê-se: «Frederico Gil começou o dia a ganhar, mas Rui Machado não conseguiu superar Marcos Baghdatis e a primeira eliminatória do grupo dois da zona Europa/África acabou empatada com uma vitória para Portugal e outra para o Chipre» («Portugal empatado com Chipre», Diário de Notícias, 7.03.2009, p. 15). «O Chipre»? O tanas!
Recentemente, Miguel R. M. lembrou e muito bem no seu Enxuto: «Chipre é um país que sempre foi designado em português sem artigo definido (como Marrocos ou Timor). Há uns anos, mais precisamente por volta de 2004, data da adesão de Chipre à União Europeia, passou a aparecer mais vezes na imprensa portuguesa o nome desse país mediterrânico. Um dia ouvi um locutor de televisão dizer “o Chipre” e pensei “onde é que terão ido buscar este artigo definido?” Pois bem, nestes anos tem-se repetido o aparecimento deste artigo espúrio. Porquê? Por imitação acrítica, como é óbvio. Apareceu uma vez, duas, três e agora está a generalizar-se, sabe-se lá porquê.»

Léxico: «audiodescrição»


Ouça lá

«A RTP aumentou a oferta de conteúdos adaptados para pessoas cegas e amblíopes com a exibição do programa Pai à Força, às sextas-feiras, às 21.00, com audiodescrição» (RTP reforça audiodescrição», Diário de Notícias, 7.03.2009, p. 55). A audiodescrição é uma faixa de áudio em que uma voz descreve pormenores visuais importantes para que espectadores cegos ou com deficiências visuais graves possam compreender um programa ou espectáculo, seja na televisão, no teatro ou no cinema.

Léxico: «perfilista»

Jornalista no divã



      «O perfil psicológico de Bernard Madoff, o autor da maior e mais recente fraude financeira mundial, aproxima-se do de um psicopata, diz Gregg O. McCrary, antigo agente do FBI e especialista na elaboração de perfis criminais, citado pelo New York Times» («Madoff no divã», Notícias Sábado, 7.03.2009, p. 14). E como é que o autor (J. A. Sousa) deste texto acha que se deve chamar a alguém que faz perfis criminais? Está na cara: profiler. Veja-se: «“Ao arruinar tanta gente talvez se julgue uma espécie de deus”, conjectura o profiler.» Para o jornalista, «perfilista» era demasiado terra-a-terra, qualquer badameco podia perceber, e, como se sabe, não é esse o objectivo do jornalismo.

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