Ortografia: «Tigres Tâmiles»

E isso é singular ou plural?

«Chandrika Kumaratunga estava em campanha para a sua reeleição presidencial, em 2000, quando foi alvo de um atentado da guerrilha dos tigres tâmiles, que lutam pela independência do Norte e Nordeste do Sri Lanka» («A Presidente que escapou por pouco», Diário de Notícias, Abel Coelho de Morais, 7.03.2009, p. 31). Bem, eu também defendo o aportuguesamento integral, e não como faz o Público: «Aviação dos Tigres Tamil atacou o porto de Colombo» (20.02.2009). É claro que se escreve com maiúsculas iniciais: Tigres Tâmiles.

Ortografia: «má-criação»


O DN não usa dicionário

Logo na primeira página. Na verdade, escreve-se «má-criação», pois é um composto em que entram, foneticamente distintos, um adjectivo e um substantivo, como já se lia no Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves. O plural é más-criações. Segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990, escrever-se-á da mesma forma.

À parte e aparte

Cuidadinho

      Na «Varanda de São Bento», a jornalista da TSF Teresa Dias Mendes dá um pontapé na ortografia: «As imagens não mostram o deputado em pé a chamar o deputado socialista para sair do plenário e ajustar contas lá fora. Mas vários testemunharam o desafio. Que deu em nada. Mas, claro, belisca ainda mais a imagem dos políticos. Quantos á-partes, quantas insinuações já não se ouviram naquela sala?» («Os punhos e os palavrões assinalados», Diário de Notícias, 7.03.2009, p. 14). A jornalista deveria ter escrito «aparte», que é um comentário que interrompe um discurso. De qualquer modo, se pretendesse usar a locução adverbial que significa «em separado», deveria ter escrito «à parte», duas palavrinhas. Por isso é que é locução. Mais cuidadinho.

Palavrões

Retórica parlamentar

Metade do editorial da edição de ontem do Diário de Notícias foi para o episódio dos insultos que o deputado José Eduardo Martins, do PSD, dirigiu ao deputado Afonso Candal, do PS. E mais: toda a página 7 foi dedicada aos insultos proferidos no Parlamento. O que mais estranhei foi saber que, segundo os serviços parlamentares, desde finais dos anos 80, os palavrões estão proibidos nas actas das sessões publicadas no Diário da Assembleia da República. Segundo o Diário de Notícias, Francisco Sousa Tavares, personalidade truculenta que se envolveu em vários episódios semelhantes, uma vez, em 1982, até procurou teorizar sobre o que era um insulto: «“Mandar à merda uma pessoa não ofende ninguém. É uma expressão à antiga portuguesa de uma pessoa que está aborrecida.”» Mas não foi o único a fazê-lo, pois também António Lopes Cardoso pediu à Mesa da Assembleia da República critérios objectivos para se avaliar o que são insultos: «“É o peso, pejorativo ou não, que em termos de opinião pública tem a linguagem usada que devem ser os critérios da Mesa e não a interpretação de que cada um se socorre, ou seja, se badameco é mais ou menos insultuoso do que anticomunista primário ou se mandar à merda é mais ou menos insultuoso do que dizer ‘vá àquela parte’”» («Palavrões há muitos (mas fora das actas)», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 7.03.2009, p. 7). Tirando os blogues, em nenhum lado se lê que o deputado Martins mandou o deputado Candal para o caralho. Afinal, não é só nas actas parlamentares que não se podem incluir palavrões.

Necessidade de revisão


E-escolinha e diplomacia

Segundo noticia o Expresso, 200 000 computadores Magalhães têm software cheio de erros de português, «80 erros clamorosos de ortografia, gramática e sintaxe nas instruções dos jogos incluídos no ambiente de trabalho». Lamentável, e sobretudo quando tudo poderia estar correcto se o texto tivesse sido revisto. Noutras paragens, o desleixo e a ignorância também fazem estragos. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, ofereceu ao seu homólogo russo, Serguei Lavrov, um «botão de reinício» (reset) para simbolizar a retomada das relações entre os Estados Unidos e a Rússia. Só que, em vez de perezagruzka, escreveram peregruzka, que significa «sobrecarga». Só não descambou em incidente diplomático porque já não estamos no tempo da Guerra Fria.

Um blogue, uma editora, uma obra

Imagem: http://www.upatijuca.blogger.com.br/

Bem pautado

José Guilherme Sacramento, autor do primeiro livro publicado em Portugal sobre notação de música, Notação Musical — Manual para Escrita, Edição e Revisão, e sócio fundador da editora Notação XXI, tem agora também um blogue, Notação XXI.

Recurso

Mais uma flor

O Termcat acaba de disponibilizar mais um dicionário em linha (já são 32, alguns plurilingues), Nome de Plantas, com 25 mil nomes de plantas. A pesquisa tanto se pode fazer pela designação científica como pelo nome catalão.

Pontuação

Uma subtil metafísica


      Em dois números, 63 e 65, ambos de 1838, de O Panorama, o «jornal litterario e instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis», Alexandre Herculano abordou a pontuação em português. No primeiro texto, lembrou que os Antigos pontuavam de outra maneira. «Serviam-se tão sómente de um ponto nos manuscriptos : e segundo este era collocado ao alto, no meio, ou abaixo da linha , significava um sentido começado , continuado , ou acabado.» E acaba o texto afirmando: «Quanto ás regras de pontuação, deduzidas dos principios ideologicos , e da grammatica geral , ainda se póde dizer que não estão assentadas ; e por ventura nunca se assentarão. Parece-nos que ainda se não mostrou a verdadeira causa disto ; a não ser a difficuldade que nasce das variadas maneiras porque as phrases e as palavras podem ser collocadas.»
      Passaram 171 anos e, como vêem, nem a pontuação nem a ortografia nos causam grandes engulhos.

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