Palavrões

Retórica parlamentar

Metade do editorial da edição de ontem do Diário de Notícias foi para o episódio dos insultos que o deputado José Eduardo Martins, do PSD, dirigiu ao deputado Afonso Candal, do PS. E mais: toda a página 7 foi dedicada aos insultos proferidos no Parlamento. O que mais estranhei foi saber que, segundo os serviços parlamentares, desde finais dos anos 80, os palavrões estão proibidos nas actas das sessões publicadas no Diário da Assembleia da República. Segundo o Diário de Notícias, Francisco Sousa Tavares, personalidade truculenta que se envolveu em vários episódios semelhantes, uma vez, em 1982, até procurou teorizar sobre o que era um insulto: «“Mandar à merda uma pessoa não ofende ninguém. É uma expressão à antiga portuguesa de uma pessoa que está aborrecida.”» Mas não foi o único a fazê-lo, pois também António Lopes Cardoso pediu à Mesa da Assembleia da República critérios objectivos para se avaliar o que são insultos: «“É o peso, pejorativo ou não, que em termos de opinião pública tem a linguagem usada que devem ser os critérios da Mesa e não a interpretação de que cada um se socorre, ou seja, se badameco é mais ou menos insultuoso do que anticomunista primário ou se mandar à merda é mais ou menos insultuoso do que dizer ‘vá àquela parte’”» («Palavrões há muitos (mas fora das actas)», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 7.03.2009, p. 7). Tirando os blogues, em nenhum lado se lê que o deputado Martins mandou o deputado Candal para o caralho. Afinal, não é só nas actas parlamentares que não se podem incluir palavrões.

Necessidade de revisão


E-escolinha e diplomacia

Segundo noticia o Expresso, 200 000 computadores Magalhães têm software cheio de erros de português, «80 erros clamorosos de ortografia, gramática e sintaxe nas instruções dos jogos incluídos no ambiente de trabalho». Lamentável, e sobretudo quando tudo poderia estar correcto se o texto tivesse sido revisto. Noutras paragens, o desleixo e a ignorância também fazem estragos. A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, ofereceu ao seu homólogo russo, Serguei Lavrov, um «botão de reinício» (reset) para simbolizar a retomada das relações entre os Estados Unidos e a Rússia. Só que, em vez de perezagruzka, escreveram peregruzka, que significa «sobrecarga». Só não descambou em incidente diplomático porque já não estamos no tempo da Guerra Fria.

Um blogue, uma editora, uma obra

Imagem: http://www.upatijuca.blogger.com.br/

Bem pautado

José Guilherme Sacramento, autor do primeiro livro publicado em Portugal sobre notação de música, Notação Musical — Manual para Escrita, Edição e Revisão, e sócio fundador da editora Notação XXI, tem agora também um blogue, Notação XXI.

Recurso

Mais uma flor

O Termcat acaba de disponibilizar mais um dicionário em linha (já são 32, alguns plurilingues), Nome de Plantas, com 25 mil nomes de plantas. A pesquisa tanto se pode fazer pela designação científica como pelo nome catalão.

Pontuação

Uma subtil metafísica


      Em dois números, 63 e 65, ambos de 1838, de O Panorama, o «jornal litterario e instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis», Alexandre Herculano abordou a pontuação em português. No primeiro texto, lembrou que os Antigos pontuavam de outra maneira. «Serviam-se tão sómente de um ponto nos manuscriptos : e segundo este era collocado ao alto, no meio, ou abaixo da linha , significava um sentido começado , continuado , ou acabado.» E acaba o texto afirmando: «Quanto ás regras de pontuação, deduzidas dos principios ideologicos , e da grammatica geral , ainda se póde dizer que não estão assentadas ; e por ventura nunca se assentarão. Parece-nos que ainda se não mostrou a verdadeira causa disto ; a não ser a difficuldade que nasce das variadas maneiras porque as phrases e as palavras podem ser collocadas.»
      Passaram 171 anos e, como vêem, nem a pontuação nem a ortografia nos causam grandes engulhos.

Tradução: «gel des crédits»

C’est dommage

Suponhamos, porque isso nada custa, que o nosso tradutor não soubera ou se «esquecera» de traduzir a locução francesa gel des crédits. Suponhamos ainda que a frase era esta: «Sarkozy annule le gel des crédits.» Que fez Sarkozy? Que fizemos nós? Gel é «gelo» e também «gel» (gel coiffant, por exemplo). Em sentido figurado, contudo, é «paragem, bloqueio, suspensão». Gel d’un processus, por exemplo, é a interrupção de um processo. Nos domínios da administração, da economia ou das finanças, designa a suspensão de um estado, de uma actividade: gel d’un poste, d’une réforme; gel des armements; gel des crédits, des négociations, des prix. A dificuldade prende-se também com a falta de bons dicionários. Com a hegemonia do inglês, é bem provável que mais depressa o nosso tradutor saiba o que é credit freeze do que gel des crédits. Não vamos esperar pelo Natal: oferecemos-lhe hoje mesmo este glossário inglês-francês.

Sobre «Sorbona»

Não explique, use

«Ontem, o Corriere della Sera estudou melhor o vídeo e provou que Berlusconi, afinal, disse: “Eu andei na Sorbonne [Sorbona, em italiano].” Melhor que uma notícia gira é uma notícia ainda mais gira. Com Berlusconi não é importante que seja vero basta que seja bene trovato» («O suspeito do costume desta vez…», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 5.03.2009). Em vez de Io ti ho dato la tua donna, parece que Berlusconi terá dito Tu sai che ho studiato alla Sorbona.
Bem, Sorbona em italiano e em português. Admito que a forma Sorbonne é muitíssimo mais frequente, mas quando calha até o Diário de Notícias escreve Sorbona, sem explicações parentéticas, como aqui: «No entanto, de acordo com o The Guardian, Alexis Debat assegurava falsamente ter realizado um doutoramento na universidade francesa de Sorbona, e ter trabalhado como assessor do Ministério da Defesa francês» («Mas, afinal de contas, quem é Alexis Debat?», Diário de Notícias, 23.09.2007).

Plural de «persona non grata»


Não se metam nisso

Não há-de ser por acaso que certos jornais, como a Folha de S. Paulo, registam nos seus livros de estilo o plural da expressão latina, de uso diplomático, persona non grata. (O Livro de Estilo do Público só regista — para quê? — o singular.) Não basta acrescentar esses, como fazem neste artigo do Expresso: «As autoridades de Islamabad têm o hábito de interrogar e investigar a fundo os cidadãos que regressam ao país com o rótulo de personas non gratas» («Ashik pode ter problemas em casa», Hugo Franco e Ricardo Marques, Expresso, 24.01.2009, p. 17). O plural da expressão é personæ non gratæ. Quem sabe se eles não pensam que a expressão é espanhola…
A imagem faz-me lembrar uma expressão inglesa: carnival barker. Como traduzi-la? Gostava de ver como o fariam os consultores do Ciberdúvidas que afirmam que não precisamos de palavras estrangeiras… «Animador de circo», como já vi, está longe do conceito. Ele há malucos para tudo, e um carnival barker não é um animador de circo ou de festas.

Actualização em 9.03.2009

Um leitor informa-me de que o Dicionário Houaiss regista o termo empata-fodas, adequadíssimo, parece-me, para traduzir o inglês carnival barker.

Empata s.f. (1638) jur obsl. 1 arresto, confiscação ou penhora v s.2g. (c1920) infrm. pej. 2 indivíduo que atrapalha o andamento de algum processo ou a realização de qualquer intento alheio, quer por criar, propositadamente ou não, obstáculos ao seu progresso ou à sua actividade, quer por se intrometer em assuntos que não lhe são pertinentes; empata-amigos, empata-foda(s), empata-vazas ¤ etim regr. de empatar; ver empat- ¤ hom empata (fl.empatar).

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