Idiomatismos

Untar as mãos

«Elle est l’occasion de découvrir que le système est largement corrompu, rémunérant grassement ceux qui le contrôlent et le jugent, et distribuant des revenus indécents aux responsables de ces desastres», escreveu Jacques Attali na página 15 do seu La crise, et après? (Paris: Fayard, 2008). É interessante comprovar como os termos «unto», «untar» e outros correlatos andam em várias línguas associados à ideia de corrupção e aos ganhos ilícitos. Em francês, graisser la patte à quelqu’un está atestado desde o século XVII, e, mais antigo e com o mesmo significado, oindre la paume, registado logo no século XIV.

«Descobertas» e «Renascença»

O estrangeirismo simpático

Em Abril de 1930, Agostinho da Silva assinou no jornal Princípio, editado no Porto, um texto intitulado «Paladinos da linguagem». Eis um excerto: «Quanto ao vocabulário, desculpai-me, mas creio que também errais; o galicismo não é inimigo da língua, mas seu amigo, e precioso; ele vem duma civilização superior, duma civilização que não vegeta sobre as suas recordações, trazer-nos o seu auxílio generoso, todas as vezes que os Sousas e os Barros não nos deixaram o termo exacto que exprima as novas ideias: é uma coisa extremamente simpática o estrangeirismo e vós transformaste-lo num monstro.» A primeira página da publicação indica que se trata de uma «edição da Renascença Portuguesa».
Tudo isto a propósito de António Cartaxo ter acabado de dizer na Antena 1 que Henry Purcell (1659―1695) foi um compositor inglês da «Renascença». Ora, os nossos antepassados deixaram-nos «o termo exacto» que exprime a ideia: Renascimento. E quem fala em Renascença (renassaince) não deixará de falar de Descobertas (découvertes). Acaso não temos Descobrimentos? Mas ainda recentemente um autor me dizia que «sabe, há em História, como em outras ciências, certos maneirismos lexicais, ou seja, vocábulos que trazem intrínsecos conceitos específicos cuja interpretação fora da História é diferente». Pois, pois…

«Chocolatier»?


Não andamos a perder nada


      Uma leitora brasileira, professora de Inglês, pediu-me uma vez que abordasse com mais frequência o uso de estrangeirismos na língua portuguesa. Mas isso foi há dois anos. Entretanto, já muitas vezes tratei aqui da matéria. Habitualmente, é o uso desnecessário, quando não incorrecto, inadequado, de estrangeirismos que suscita a minha intervenção. É o caso de hoje. A propósito do Festival do Chocolate de Óbidos, lê-se na secção «Boa vida» da revista Notícias Sábado de 21 de Fevereiro: «Vai haver esculturas em chocolate, concursos de chocolatier do ano, montras de chocolate e concurso internacional de receitas de chocolate» (p. 52).
      Agora é muito simples: confrontamos os verbetes «chocolatier» de um dicionário de francês e «chocolateiro» de um dicionário de português. «Chocolatier: personne qui fabrique ou qui vend du chocolat. Des parfums de vanille montant du sous-sol d’un chocolatier (ZOLA, Nana, 1880, p. 1260)» (in TLFI). «Chocolateiro: que ou aquele que fabrica ou vende chocolate (‘produto alimentar’)» (in Dicionário Houaiss). Ora digam-me lá se não é por pretensão que muitas vezes se usam estrangeirismos.


«Assar» e «cozer»


Ainda se queima

A primeira coisa a surpreender-nos é logo o nome do programa: Jamie at Home. Para os responsáveis da Sic Mulher, estranhamente, parece ser intraduzível. Não é deste aspecto, contudo, que quero falar. Não diria nada se não fosse recorrente. Ainda ontem vi que o tradutor (Alexandre Pereira, da Dialectus) usou mais de uma vez o verbo assar (e até pré-assar) para a massa de uma quiche. Embora os verbos assar e cozer não sejam, etimológica e semanticamente, muito diferentes, é indesmentível que para bolo, para pão e para massa reservamos o termo cozer — e um tradutor tem obrigação de saber isto.

Léxico: «ptose»

Imagem: http://www.scielo.br/


Quedas médicas


      É extraordinário o poder da linguagem. Hosmany Ramos, condenado a quase 30 anos de prisão por alegadamente ter assassinado e traficado droga, e agora a monte, foi entrevistado no Brasil por José Pedro Castanheira para o Expresso. O interesse para nós reside no facto de este ex-cirurgião plástico, outrora assistente de Ivo Pitanguy, aparecer ligado ao desaparecimento, em 1981, do pianista clássico português Sérgio Varella Cid. Convidado a dizer como conheceu o pianista, respondeu: «Foi lá [em São Paulo] que conheci o Sérgio, numa garagem da Mercedes. Ele tinha uma ptose palpebral num dos lados (não me lembro qual) e interessou-se para que eu a corrigisse» («“Não matei o Varella Cid. E até pode ser que esteja vivo!”», Expresso, 24.01.2009, p. 26). E é isto: depois de cumprir 27 anos de cadeia, ter fugido mais de dez vezes e andar agora a monte, a formação médica assoma aqui ainda através da terminologia. A Medicina usa o termo «ptose», que significa «queda», para caracterizar diversas situações em que um órgão ou parte do corpo humano se localiza anormalmente numa posição inferior. À ptose palpebral também se dá o nome de blefaroptose.

Léxico: «sínico»

Mas faz


      «Um pouco à maneira de Toynbee, Huntington dividia-nos por civilizações: Ocidental (incluindo os Estados Unidos e a Europa), Latino-Americana, Islâmica, Ortodoxa (com a Rússia como núcleo), a Hindu, a Japonesa e a Sínica (incluindo China, Coreia e Vietname), talvez houvesse uma civilização africana — que iriam de vez em quando guerrear-se umas às outras» («Samuel Huntington», obituário escrito por José Cutileiro, Expresso, 24.01.2009, p. 39).
      Um cínico dirá que «sínico» não faz falta, mas faz. Sobretudo a forma reduzida, sino, faz falta e precisa de ser conhecida, porque normalmente, na formação dos adjectivos pátrios compostos, o primeiro elemento adquire uma forma reduzida (e invariável) derivada da origem erudita da palavra: afro-americano, anglo-americano, assiro-babilónico, austro-húngaro, euro-africano, greco-romano, hispano-americano, nipo-russo, sino-russo, siro-arábico… É que já um dia li numa tradução «chino-russa»...

Léxico: «corujeiro»


Alguém saberá


      Em alguns dicionários, o verbete «corujeiro» remete para «corujeira», e esta significa «pequena povoação, em lugar fragoso, própria para criação de corujas» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). No concelho da Guarda, pegado à Cova da Beira, há uma povoação chamada Corujeira. Não sei de onde virá o vocábulo «corujeiro» a designar os negociantes de fruta, mas fica registado.

Verbo «haver»


Queres festa


      Todos os dias podia referir mais um atropelo ao verbo haver, mas não me apetece. «Olá, sou o Robby. Sou o pai da Miley e do Jackson. Tenho uns filhos fantásticos, embora gostasse que ouvissem o que eu digo mais vezes.» Assim se apresenta esta personagem da série Hannah Montana, que passa no Disney Channel. No episódio de ontem, a personagem disse à filha: «Acalma-te! Vão haver mais festas.» Oxalá os jovens telespectadores também não o ouçam. O tradutor, é claro, ignora regras gramaticais básicas, e o actor que fez a dobragem não quer saber destas minudências.

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