Superlativo absoluto sintético de «sério»


Não temo hiatos


      Há, não posso desmentir, escritores seriíssimos a escreverem «seríssimo», mas eu é que não me convenço. O superlativo absoluto sintético obtém-se acrescentando o sufixo derivacional -íssimo (no caso, pois há outros), que nos parece tão intrinsecamente português, mas que só surgiu na língua comum no século XVI, ao adjectivo na forma positiva, suprimindo-se, por vezes, a vogal temática. Assim, será séri(o)+íssimo, seriíssimo. Não sigo, contudo, cegamente a regra, pois o superlativo de «sumário» seria sumariíssimo, o que eu jamais diria. Mas será, vendo bem, talvez o único caso em que não sigo a regra, discordando da observação de Celso Cunha e Lindley Cintra (mas qual deles escreveu esta observação?) na Nova Gramática do Português Contemporâneo: «Em lugar das formas superlativas seriíssimo, necessariíssimo e outras semelhantes, a língua actual prefere seríssimo, necessaríssimo, com um só i» (3.ª ed., Lisboa: Edições João Sá da Costa, p. 260). Será então seriíssimo, tal como cheiíssimo, feiíssimo, friíssimo, necessariíssimo, precariíssimo, variíssimo… É como diz Evanildo Bechara: «Ainda que escritores usem formas com um só i (cheíssimo, cheinho, feíssimo, seríssimo, etc.), a língua padrão insiste no atendimento à manutenção dos dois ii» (Moderna Gramática Portuguesa. 37.ª ed. Rio de Janeiro, 2002, p. 151).

Léxico: «testamento vital»


É vital perceber


      Ainda recentemente a locução inglesa living will era objecto de debate em fóruns de tradução, e as mais desvairadas sugestões estiveram sempre longe da locução que entrou agora na ordem do dia: testamento vital. «Numa altura em que se começa a debater em Portugal o testamento vital — a possibilidade de a pessoa saudável decidir se quer receber tratamentos de saúde se ficar numa situação de saúde extrema —, Alexandra reclama que também se discuta o destino dos mais novos» («“Tenho o corpo da minha filha comigo”», Catarina Gomes, Público, 22.02.2009, p. 3). O testamento vital também é conhecido como testamento biológico, opção menos colada ao inglês e talvez mais sugestiva. Embora, é verdade, tenhamos também órgãos vitais. Em francês diz-se testament biologique ou directives de fin de vie. Em italiano, testamento biologico. A verdade, porém, é que, por ser algo novo, a terminologia ainda não se consolidou. Brevemente analisarei aqui os termos «eutanásia», «ortotanásia», «distanásia» e «mistanásia».

Léxico: «cerebrovascular»

Desta vez, acertaram

A propósito da morte da italiana Eluana Englaro, o Público de domingo publicou algumas peças sobre a eutanásia. Numa delas, «O que aconteceria se Eluana Englaro fosse portuguesa?», assinada por Alexandra Campos e Catarina Gomes, pode ler-se: «Se estivesse nessa situação, João Alcântara, coordenador da Unidade Cerebrovascular do Centro Hospitalar de Lisboa Central, não tem dúvidas: “Gostava que me deixassem morrer.”» Cá está: cerebrovascular. Assim se deve escrever, e não vascular cerebral. Parece que estamos a copiar a maneira anglo-saxónica de o dizer, mas não. Ver aqui também.

Gentílicos depreciativos

Imagem: http://www.sanfranciscosentinel.com/

É só adaptar?


      O príncipe Harry de Inglaterra fez outra vez disparate, e agora tem de frequentar um curso de antixenofobia das Forças Armadas britânicas. Na última Pública lê-se: «A decisão surgiu depois de Harry se ter referido a um colega paquistanês como “paqui”, comentário xenófobo que foi imediatamente reprovado pelo exército inglês» («Princípe na escola», 22.02.2009, p. 6). Bem, não foi bem «paqui», mas «Paki», porque se trata de uma adaptação. «Our little Paki friend», terá dito o príncipe. Para as traduções, decerto que precisamos de termos correspondentes, e nem sempre os temos. Já aqui lembrei o caso de «Jap». Recentemente, um leitor perguntou-me como traduzir «spic» e «whitey». Não é fácil, pois esses termos depreciativos do inglês decorrem de uma realidade social que não é a nossa. Mas temos correspondente para «nigger», por exemplo. Na verdade, até temos um termo meio jocoso, meio depreciativo para designar um paquistanês, ou pelo menos um certo paquistanês: kefrô. Em rigor, pelo jogo linguístico subjacente, é intraduzível para inglês. Como intraduzível é o inglês «Paki».

Léxico contrastivo: «porta-trecos»

Porta-trecos ou porta-objectos sob um banco da frente


As nossas diferenças

      «Os primeiros sinais da renovação são sentidos quando se entra no sedã. Não lembra em nada o modelo que ainda hoje é comercializado. Há mais conforto e vários porta-trecos, resultado de pesquisa da montadora junto aos compradores, que se queixavam justamente disso» («Vectra, nasce a próxima edição do sedã», Antonio Puga, Jornal do Brasil/Carro e Moto, 22.02.2009, p. V5). Para nós, Portugueses, «treco» é apenas mal-estar, chilique, e ao porta-trecos dos Brasileiros chamamos porta-objectos. E no sótão guardamos os tarecos.

Tradução: «snags in the river»

Imagem: http://www.mdbc.gov.au/

Aplanar caminho


      O leitor M. L. quer saber como traduzir o segmento assinalado na frase a seguir: «Good teachers put snags in the river of children passing by, and over the years, they redirect hundreds of lives.» Snag ou sawyer é uma árvore ou parte de árvore à superfície de um curso de água, permitindo que animais e até mesmo pessoas o atravessem, ao mesmo tempo que serve de abrigo para os peixes. Assim, traduziria, tentando manter o sentido metafórico, da seguinte maneira: «Os bons professores põem alpondras no rio para os alunos passarem, e, ao longo dos anos, dão um novo rumo a centenas de vidas.»


Palavras oxítonas


Post aberto a Belmiro de Azevedo

Os hipermercados também são responsáveis pela difusão de muitos erros ortográficos. É sabido que neles não se pode comprar peru, mas perú. E quem diz peru diz caju. Como vêem na imagem, o Continente comercializa caju — mas com acento. O acento deve ser porque é caju brasileiro (e eu até prefiro o indiano). Bem, caro Eng. Belmiro de Azevedo, onde está essa responsabilidade social?
É caju que se escreve. A regra, tal como está consignada na Base XV do Acordo Ortográfico de 1945, estabelece: «Quando as vogais tónicas i e u estão precedidas de ditongo, mas pertencem a palavras oxítonas e são finais ou seguidas de s, levam acento agudo: Piauí, teiú, tuiuiú; teiús, tuiuiús.» Assim, abacaxi, bambu, caju, canguru, colibri, nu, peru, rubi e algumas outras não terem acento enquadra-se nas excepções, pois aquelas vogais finais, seguidas ou não de s, não são precedidas de ditongo.
As palavras oxítonas ou agudas — nomes comuns, mas também antropónimos e topónimos — existem em muito maior número na variante brasileira do português, o que se deve à herança das línguas indígenas.

Prosónimo: «Grande Maçã»


Grande melão

      Vêem-se por toda a cidade de Lisboa cartazes publicitários da TAP a promover viagens a Nova Iorque. Os cartazes, contudo, têm um erro: grande maçã por Nova Iorque está errado. Já tive oportunidade de aqui lembrar que os prosónimos, que são nomes próprios que servem de cognome ou apodo (no caso, está em vez de um topónimo), se escrevem com inicial maiúscula. Logo, Grande Maçã. Se fossem mesmo inteligentes, a imagem seria preenchida por maças reinetas, por exemplo, e escreviam «grande maçã» como escreverem — e, pelo jogo linguístico subjacente, estaria correcto. Com amadores, a coisa nunca sai bem.

Arquivo do blogue