«Evocar» e «invocar»

É um erro, eu levo a mal


      Carlos Miguel, presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, ontem em declarações à Antena 1: «O Ministério Público não, não, digamos, não fundamenta o despacho, não evoca qualquer razão, mas remete para uma legislação, e essa legislação proíbe a exibição de imagens pornográficas.» O «evoca» corre parelhas com o «enquadramento judicial» que o jornalista da Antena 1 prometeu dar da questão. Como o autarca ofereceu livres-trânsitos à procuradora que fez o despacho e à juíza do processo convidando-as para irem ao Carnaval, pode bem ser que alguma das magistradas lhe ensine que se diz invocar e não evocar.

Léxico: «mantéu»


Vejamos

Um amigo telefonou ontem para me perguntar se já tinha visto o cartaz da Expolíngua 2009. Que sim, e?... «Eh, pá, tu sabes: como se chamam aquelas golas?» Bem, é uma gola de folhos. «Mas tem outro nome.» Acho que também tem a designação, salvo erro, de mantéu. «Mantéu? Mantéu? Mas isso não é um traje folclórico dos Açores?» Fiquei de confirmar.
De facto, mantéu ou mantéo (do latim mantelum), como regista o Dicionário de Morais, é a «peça de adornar o pescoço, de várias feições, enrocado, desfiado, de abanos, à Balona, etc.». E acrescenta que nos «retratos antigos até o d’el-rei D. Sebastião se vêem os taes mantéus». Enrocado quer dizer pregueado, e Morais no verbete «enrocar» esclarece: «Fazer pregas, que se usavam antigamente nos mantéus, ou voltas do pescoço.» A referência a D. Sebastião (1554-1578) é crucial. No retrato de D. Sebastião atribuído a Cristóvão de Morais e patente no Museu Nacional de Arte Antiga o rei é representado com um mantéu. Também a sua contemporânea Isabel I (1533-1603) é representada com um mantéu (ruffle lace collar, em inglês), pois era uma peça de vestuário quinhentista usada por ambos os sexos. O desta rainha teria cerca de 60 centímetros de diâmetro, para o que seriam necessários à volta de 16 metros de tecido fino. Assim, a definição de «mantéu» — «colarinho largo com abas pendentes» — que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora está errada. E mais: este dicionário não regista todas as acepções do vocábulo, pois falta, por exemplo, a de traje académico coimbrão, o mantéu talar, que era usado com ou sem capelo.
Fernando Campos, na obra A Casa do Pó, retrata Camões de «gola de folhos, colete de fendas avelutadas, coçado, capa pendente do ombro, calções tufados pela coxa, a meia torneando a perna até morrer nos borzeguins de couro». Na imagem do cartaz da Expolíngua, só temos o mantéu de papel, que o tecido é caro e a goma não a sabem fazer, e a fazer de colete uma blusa bordada fabricada na China. Alguém emprestou a pala. A parede parece ser a do Palacete Seixas, na Avenida da Liberdade, sede do Instituto Camões.

O verbo «haver»

Apontamento

      Isabel Stilwell, na emissão de ontem dos Dias do Avesso, deu mais um pontapé na gramática: «Mas a verdade é que, eu estive a ler, continuam a não haver contactos entre a Esmeralda e os pais afectivos.» Isabel Stilwell, e refiro-o porque hoje uma caterva de blogues pode já usar o termo, usou a palavra «contra-rapto». É só isto: escreve-se contra-rapto, e não contra rapto. E mais: segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990, passar-se-á a escrever contrarrapto. Habituem-se. Como a agora conhecida contra-reacção passará a ser contrarreação. Aguentem. Eduardo Sá não disse nenhum disparate.

Sobre o uso de estrangeirismos

A coluna da Polícia da Fronteira Indo-Tibetana (ITBP) no desfile de 2002

Valia mais estar calado


Há sempre uma parte dos jornais impenetrável à compreensão do leitor médio. Não pela complexidade dos assuntos, mas pela linguagem usada. Um dos maiores obstáculos é o uso de estrangeirismos ou de neologismos não explicados. No passado mês de Janeiro, um texto assinado por um tal M. C. falava do Dia da República na Índia, um dos feriados mais importantes naquele país («em que participam estudantes e artistas representando cada região do País», podia ler-se). Sob uma das imagens, lia-se esta legenda: «Ritmo. Espectáculo hipnótico a cargo de dançarinos tradicionais do Rajastão ocidental, animados pela música, uma constante nas celebrações do dia em que foi adoptada a Constituição indiana. O ‘warm-up’ deixou água na boca» («O grande feriado nacional da Índia», M. C., Diário de Notícias/DN Gente, 24.01.2009, p. 20).
Saiam da redacção e perguntem a quem passa na rua se sabe o que significa warm-up. Este termo é usado em especial no desporto e significa «aquecimento», os exercícios (warm-up exercises) que antecedem a prática de qualquer desporto. De um modo geral, é a actividade curta que prepara (aquece) para uma actividade mais longa e complexa. No contexto, é «a preparatory activity or procedure». Ou seja, um ensaio. Em resumo: warm-up é um estrangeirismo, não explicado e desnecessário.

Sobre *vernaculoso


E isso significa?...

Com mil milhões de mil macacos! «Vernaculoso»? E que significa isso? O capitão Haddock é conhecido pelo conteúdo semântico quase nulo, mas altamente expressivo, das suas interjeições. Pedro Mexia, num texto de 2007, alude às exclamações do capitão: «Acho que nunca usei um ponto de exclamação. Tenho objecção de consciência aos pontos de exclamação. Geralmente, a mais leve aparição dessa sinalefa me desanima a ler determinado texto. E quando aparecem artigos que são manchas compactas de exclamações, nem olho mais. É como se fossem desabafos juvenis. Claro que há génios da exclamação, como Céline e o Capitão Haddock, mas convenhamos que são duas excepções, digamos, absolutamente excepcionais» («Contra a exclamação», Público, 12.05.2007). Retomando o fio à meada: «vernaculoso»? O mais próximo é «vernaculista», este sim, um vocábulo que existe. Contudo, vernaculista é a pessoa que fala ou escreve vernaculamente, isto é, que usa uma linguagem que conserva a pureza original, sem mácula, genuína. Ora, não parece aplicar-se ao verrinoso e verboso capitão.

Ortografia: «contraproducente»


Em duas palavras: extra ordinário

Um amigo acaba de me mandar o recorte de A Voz do Nordeste que encima este texto. Na resposta a agradecer, aleguei que pode tratar-se de gralha, por faltar o hífen na translineação, e não de erro. Na volta, o meu amigo argumentou, e só o podia fazer quem conhece este semanário, que «a desculpa seria aceitável se noutras ocasiões, e com espaço suficiente, eles não tivessem escrito “contra producente”» E, o que tem mais graça, citou aquela frase que se atribui a Samuel Goldwyn (o G em MGM, dos estúdios cinematográficos): «I’ll say it to you in two words: im possible!»

O prefixo des-

Sem desazo nem desbrilho

O prefixo des-, o mais produtivo na língua portuguesa, que para Said Ali não passava da romanização do prefixo latino dis-, presta-se a jogos e salva, frequentemente, uma frase. Por vezes, como é o caso que vou referir, a palavra não existe, demonstrando o seu uso apenas a criatividade de quem escreve. Se querem renovar o léxico, frequentem esta zona do dicionário.
A propósito de Joana Amaral Dias ter ficado fora da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, escreveu Ferreira Fernandes: «Neste caso, foi-se buscar Estaline porque os dois maiores partidos que fundaram o BE já cantaram loas, um, a UDP, a Estaline, e outro, o PSR, a Trotsky. À falta de se discutir essa união (talvez) contranatura, aproveita-se um qualquer pretexto para evocar o gosto pelo Photoshop (a arte de mudar as fotografias) dos revolucionários comunistas. Foi-se por aí, sem ninguém parar na pergunta primeira: mas Joana Amaral Dias foi apagada de quê? Um partido que já a tinha votado para a direcção desvotou-a» («Mas Joana Amaral Dias foi apagada de quê?», Diário de Notícias, 15.02.2009, p. 9).

Tradução: «gambrel roof»

Celeiro com telhado de quatro águas (c. 1920), em Eagle Mills Farms, Whatcom County
© http://www.wa.nrcs.usda.gov/


Telhados de vidro



      Consultamos o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora e vemos que gambrel é o jarrete dos cavalos, e, fazendo parte de expressões, gambrel swelling, o que nós chamamos alifafe, um tumor nas articulações do jarrete do cavalo, e, cá está o que interessa, gambrel roof, que é o «telhado com tacaniça cortada». Só que — já aqui o escrevi? — este resultado, encontrável para vários termos e em vários dicionários, é risível. Não é, como esperávamos, a palavra ou expressão que traduz a expressão inglesa — é uma definição, e não se traduz com definições. Um gambrel roof é, na verdade, um telhado de quatro águas, e assim devia figurar no verbete.

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