Tradução: «double-knit»

Imagem: http://free-knitting-pattern.com/


Malhas que a tradução tece



      A rapariguinha, que era «chubby», vestia «a pair of dowdy brown double-knit stretch pants». Um horror, imagino. Mas o leitor M. L. não pretende opiniões sobre estética, mas sim traduzir aquele «double-knit», que não encontrou nos dicionários bilingues nem monolingues que consultou. É natural — e literal. Significa de «malha dupla», e assim deverá traduzir. Já agora, prevenindo, se aparecer uma rapariguinha, gorda, magra ou assim-assim, de calças narrow elastic, será elástico estreito; wide elastic, elástico largo; tricot knit, malha tricô; warp knit, malha urdume; single knit, meia malha…


Ortografia: «infra-estrutura»


O acordo é para eles

Triste ironia: quem escrevia incorrectamente há vários anos certas palavras (vimos ontem o caso de «fim-de-semana») é agora premiado pelo Acordo Ortográfico de 1990. O vocábulo «infra-estrutura», por exemplo, que até revisores deixam passar sem hífen, passa de facto a escrever-se dessa forma: infraestrutura. Antecipando-se à entrada em vigor das novas regras, é assim que já se escreve na Câmara Municipal de Lisboa. Têm muita sorte.

O Acordo Ortográfico no Brasil

Não sabiam, hã?

As provas de Língua Portuguesa em concursos públicos no Brasil são, é a ideia que tenho, mais rigorosas, mais exigentes do que em Portugal. Agora, com a entrada em vigor do Decreto 6583, que promulgou as novas regras ortográficas, esses concursos, as provas escolares e os vestibulares passam a ser um obstáculo ainda mais difícil de superar, pois se o examinando pode usar, no período entre 2009 e 2012, qualquer uma das duas normas — ou as duas no mesmo texto! — nas provas discursivas, também o examinador, nas perguntas directas, pode exigir somente o conhecimento das novas regras ou das antigas.

«Fim de semana»?

Parece fim da semana

«No último fim de semana, com parte da Baixa fechada ao trânsito por causa da repavimentação da Rua da Prata — e como tardou —, um taxista comentava, escarninho: “Vêm aí as eleições, já começam as obras”» («Vão mas é de carrinho», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 13.02.2009, p.). Vêem como o Diário de Notícias já adoptou as novas regras ortográficas? Outra vez: Veem como o Diário de Notícias já adotou as novas regras ortográficas? Mas espera… Ah, mas a penúltima frase do artigo de Fernanda Câncio é: «É bom que todos os que querem uma cidade e não uma auto-estrada percebam que há uma guerra, e que é preciso lutar.» Pelo Acordo Ortográfico de 1990, passa a escrever-se «autoestrada». Afinal, o «fim de semana» é mesmo erro, e erro que vejo com uma frequência assombrosa.
Bem, Fernanda Câncio, errando, livra-se das galés, a que o tal leitor legalista queria condenar os prevaricadores que já adoptaram as novas regras ortográficas, como o director do Record. Mas talvez Alexandre Pais, que é diretor daquele diário desportivo, não ligue a acções judiciais, pois já se vai habituando apenas a ações.

Artigo em topónimos

Imagem: http://www.porto.taf.net/

Erro, disse ela



      Na madrugada de quinta-feira, o bibliotecário de Babel, isto é, José Mário Silva, partiu de Santa Apolónia para… para onde? Para a Campanhã ou para Campanhã? Estão decerto recordados do meu conselho: perguntem, nunca foi tão fácil, a alguém que resida na localidade. Não precisei de o fazer, pois a leitora Bárbara Rocha escreveu-me: «Eu sou do Porto e nunca ouvi ninguém de lá dizer que vai “à” Campanhã ou que vem “da” Campanhã». No Jornal de Notícias, um simples relance aos títulos dilucida a questão: «Casal vive isolado em Campanhã», «Junta de Campanhã contra prova de motos», «Incêndio em Campanhã destrói prédio», «Europeu feminino na piscina de Campanhã»…

Interjeição «xi»

Grandes emoções

Graças ao caso Freeport, pude ler pela primeira vez a interjeição xi. «Sobre a existência de offshores em seu nome para pagamento de luvas respondeu: Xiiiiiii. Realmente isso existe. Existiu, isso existiu» («Tio envolve Sócrates no caso Freeport», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 24.1.2009, p. 6). Pelo menos para este blogue, o resto não interessa, pois o homem, o tio materno de José Sócrates, Júlio Coelho Monteiro, não diz coisa com coisa. Assim mesmo.

Ortografia: «profiláctico»

Reescreva

Outra palavra infamemente maltratada é «profiláctico», que muitas pessoas grafam sem o c, antecipando-se às regras do Acordo Ortográfico de 1990. Vá um exemplo: «José Barata Moura, aliás como todos os intervenientes, sublinhou que promover a leitura não se conjuga com o imperativo “(Lê!”), mas sublinha que “há quem por aí considere que “riscar a cultura é uma medida profilática porque esta se torne num impecilho [sic] da acção. Ora eu acho que os sentidos educam-se!”» («“Ler é compatível com a Net, televisão e jornais”», Ana Marques Gastão, Diário de Notícias, 24.1.2009, p. 43). Claro que o texto tem mais problemas e erros, aspas a mais e aspas deslocadas, formas verbais erradas, etc., o que demonstra, mais uma vez, o desleixo com que, de vez em quando, se escreve nos jornais. A conclusão, porém, é sempre a mesma: é inadmissível que uma jornalista escreva assim. É inadmissível que um jornal como o Diário de Notícias publique textos editados às três pancadas.

Idiomatismo trocado


Um país traduzido

A investigadora universitária Fátima Monteiro, que participa no programa Esplendor de Portugal, que passa às quintas-feiras na Antena 1, acaba de dizer, a propósito da eutanásia e da morte da italiana Eluana Englaro: «Eu estou a tentar colocar-me nos sapatos de quem reage de uma forma menos racional a estas coisas.» «Colocar nos sapatos»? Calma aí, temos as nossas próprias formas de dizer as coisas. O que disse não passa de uma tradução do idiomatismo ou idiotismo inglês «to be in another man’s shoes». A permanência na Universidade de Harvard há-de pesar, mas tem de respeitar as idiossincrasias de cada língua.

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