«Fim de semana»?

Parece fim da semana

«No último fim de semana, com parte da Baixa fechada ao trânsito por causa da repavimentação da Rua da Prata — e como tardou —, um taxista comentava, escarninho: “Vêm aí as eleições, já começam as obras”» («Vão mas é de carrinho», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 13.02.2009, p.). Vêem como o Diário de Notícias já adoptou as novas regras ortográficas? Outra vez: Veem como o Diário de Notícias já adotou as novas regras ortográficas? Mas espera… Ah, mas a penúltima frase do artigo de Fernanda Câncio é: «É bom que todos os que querem uma cidade e não uma auto-estrada percebam que há uma guerra, e que é preciso lutar.» Pelo Acordo Ortográfico de 1990, passa a escrever-se «autoestrada». Afinal, o «fim de semana» é mesmo erro, e erro que vejo com uma frequência assombrosa.
Bem, Fernanda Câncio, errando, livra-se das galés, a que o tal leitor legalista queria condenar os prevaricadores que já adoptaram as novas regras ortográficas, como o director do Record. Mas talvez Alexandre Pais, que é diretor daquele diário desportivo, não ligue a acções judiciais, pois já se vai habituando apenas a ações.

Artigo em topónimos

Imagem: http://www.porto.taf.net/

Erro, disse ela



      Na madrugada de quinta-feira, o bibliotecário de Babel, isto é, José Mário Silva, partiu de Santa Apolónia para… para onde? Para a Campanhã ou para Campanhã? Estão decerto recordados do meu conselho: perguntem, nunca foi tão fácil, a alguém que resida na localidade. Não precisei de o fazer, pois a leitora Bárbara Rocha escreveu-me: «Eu sou do Porto e nunca ouvi ninguém de lá dizer que vai “à” Campanhã ou que vem “da” Campanhã». No Jornal de Notícias, um simples relance aos títulos dilucida a questão: «Casal vive isolado em Campanhã», «Junta de Campanhã contra prova de motos», «Incêndio em Campanhã destrói prédio», «Europeu feminino na piscina de Campanhã»…

Interjeição «xi»

Grandes emoções

Graças ao caso Freeport, pude ler pela primeira vez a interjeição xi. «Sobre a existência de offshores em seu nome para pagamento de luvas respondeu: Xiiiiiii. Realmente isso existe. Existiu, isso existiu» («Tio envolve Sócrates no caso Freeport», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 24.1.2009, p. 6). Pelo menos para este blogue, o resto não interessa, pois o homem, o tio materno de José Sócrates, Júlio Coelho Monteiro, não diz coisa com coisa. Assim mesmo.

Ortografia: «profiláctico»

Reescreva

Outra palavra infamemente maltratada é «profiláctico», que muitas pessoas grafam sem o c, antecipando-se às regras do Acordo Ortográfico de 1990. Vá um exemplo: «José Barata Moura, aliás como todos os intervenientes, sublinhou que promover a leitura não se conjuga com o imperativo “(Lê!”), mas sublinha que “há quem por aí considere que “riscar a cultura é uma medida profilática porque esta se torne num impecilho [sic] da acção. Ora eu acho que os sentidos educam-se!”» («“Ler é compatível com a Net, televisão e jornais”», Ana Marques Gastão, Diário de Notícias, 24.1.2009, p. 43). Claro que o texto tem mais problemas e erros, aspas a mais e aspas deslocadas, formas verbais erradas, etc., o que demonstra, mais uma vez, o desleixo com que, de vez em quando, se escreve nos jornais. A conclusão, porém, é sempre a mesma: é inadmissível que uma jornalista escreva assim. É inadmissível que um jornal como o Diário de Notícias publique textos editados às três pancadas.

Idiomatismo trocado


Um país traduzido

A investigadora universitária Fátima Monteiro, que participa no programa Esplendor de Portugal, que passa às quintas-feiras na Antena 1, acaba de dizer, a propósito da eutanásia e da morte da italiana Eluana Englaro: «Eu estou a tentar colocar-me nos sapatos de quem reage de uma forma menos racional a estas coisas.» «Colocar nos sapatos»? Calma aí, temos as nossas próprias formas de dizer as coisas. O que disse não passa de uma tradução do idiomatismo ou idiotismo inglês «to be in another man’s shoes». A permanência na Universidade de Harvard há-de pesar, mas tem de respeitar as idiossincrasias de cada língua.

Novos programas de Português

Um novo ensino?

Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta e especialista em Estudos Portugueses, foi convidado pelo Governo para coordenar a equipa que elaborou os novos programas de Português dos 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, actualmente em consulta pública. Em entrevista ao Público na segunda-feira, afirmou que os novos programas vêm combater a cultura de facilitismo e de tolerância ao erro que tem imperado nos últimos anos no ensino. Como?, pergunta-lhe a jornalista. «De duas formas. Antes de mais, acabando com a chamada “pedagogia do erro”. Aquela coisa de “se o menino erra[,] tem de se valorizar o erro, a expressividade...”. Sou completamente contra isso. Um erro é um erro, em Português como em Matemática. Se no discurso corrente, quotidiano, o sujeito não concorda com o predicado, isso é um erro.» A outra forma: «Os novos programas revalorizam aquilo a que os especialistas chamam o conhecimento explícito da língua e, dentro dele, o domínio da gramática, que durante anos foi, por assim dizer, marginalizada. Não pretendemos martirizar ninguém, mas sim que a língua mantenha alguma coesão. Porque a gramática não é um fim em si mesmo, é um instrumento fundamental para que possamos, justamente, ter a noção do erro» («“São precisos professores que gostem de ler”», Graça Barbosa Ribeiro, Público, 9.02.2009, p. 10).

Sobre o uso de «respectivamente»


Sem relações

O leitor N. G. L. escreveu-me: «Encontrei a seguinte frase num pacote de açúcar: “Os três principais países produtores de café são o Brasil, Vietname e Colômbia, respectivamente.” A minha questão é a seguinte: “respectivamente” é correctamente usado nessa frase, ou é uma palavra obsoleta? Se a frase fosse “Os três principais países produtores de café são o Brasil, Vietname e Colômbia, respectivamente primeiro, segundo e terceiro maiores produtores”, o respectivamente seria já essencial, não? Coloco esta questão por me ter sido dito que, por exemplo, em termos judiciais, essa frase faz todo o sentido. Disseram-me que “respectivamente” coloca o Brasil como primeiro produtor, o Vietname como o segundo e a Colômbia como o terceiro. O que me parece é que “respectivamente” é um elemento de ligação entre elementos da frase, e que, utilizado assim isoladamente, perde todo o significado. Tenho razão?»
O leitor tem razão. Mas atenção: «respectivamente» não é uma palavra obsoleta, como afirma, mas uma palavra inadequada no contexto. De facto, «respectivamente» significa «cada um a cada um» e «na devida ordem», e esta ordem é impossível de estabelecer na frase, por falta de elementos. É relativamente comum o uso desnecessário e inadequado deste advérbio. Se a frase fizesse parte de um diploma legal, as considerações não seriam diferentes destas.

«Dignitário» e não «dignatário»

Por quem é

      Um leitor acaba de me dizer que Manuel António Pina, na edição de hoje do Jornal de Notícias, usou a palavra «dignatário» na sua crónica, Por Outras Palavras. «Os escrúpulos científicos deste e outros dignatários desta e doutras igrejas inquietam-me sempre.» Esta questão nunca aqui foi tratada, mas alguns leitores saberão que «dignatário» não é vocábulo correcto, que se usará talvez por influência de «dignar». Correcto é «dignitário». Se vem do latim dignitas…

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