Novos programas de Português

Um novo ensino?

Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta e especialista em Estudos Portugueses, foi convidado pelo Governo para coordenar a equipa que elaborou os novos programas de Português dos 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, actualmente em consulta pública. Em entrevista ao Público na segunda-feira, afirmou que os novos programas vêm combater a cultura de facilitismo e de tolerância ao erro que tem imperado nos últimos anos no ensino. Como?, pergunta-lhe a jornalista. «De duas formas. Antes de mais, acabando com a chamada “pedagogia do erro”. Aquela coisa de “se o menino erra[,] tem de se valorizar o erro, a expressividade...”. Sou completamente contra isso. Um erro é um erro, em Português como em Matemática. Se no discurso corrente, quotidiano, o sujeito não concorda com o predicado, isso é um erro.» A outra forma: «Os novos programas revalorizam aquilo a que os especialistas chamam o conhecimento explícito da língua e, dentro dele, o domínio da gramática, que durante anos foi, por assim dizer, marginalizada. Não pretendemos martirizar ninguém, mas sim que a língua mantenha alguma coesão. Porque a gramática não é um fim em si mesmo, é um instrumento fundamental para que possamos, justamente, ter a noção do erro» («“São precisos professores que gostem de ler”», Graça Barbosa Ribeiro, Público, 9.02.2009, p. 10).

Sobre o uso de «respectivamente»


Sem relações

O leitor N. G. L. escreveu-me: «Encontrei a seguinte frase num pacote de açúcar: “Os três principais países produtores de café são o Brasil, Vietname e Colômbia, respectivamente.” A minha questão é a seguinte: “respectivamente” é correctamente usado nessa frase, ou é uma palavra obsoleta? Se a frase fosse “Os três principais países produtores de café são o Brasil, Vietname e Colômbia, respectivamente primeiro, segundo e terceiro maiores produtores”, o respectivamente seria já essencial, não? Coloco esta questão por me ter sido dito que, por exemplo, em termos judiciais, essa frase faz todo o sentido. Disseram-me que “respectivamente” coloca o Brasil como primeiro produtor, o Vietname como o segundo e a Colômbia como o terceiro. O que me parece é que “respectivamente” é um elemento de ligação entre elementos da frase, e que, utilizado assim isoladamente, perde todo o significado. Tenho razão?»
O leitor tem razão. Mas atenção: «respectivamente» não é uma palavra obsoleta, como afirma, mas uma palavra inadequada no contexto. De facto, «respectivamente» significa «cada um a cada um» e «na devida ordem», e esta ordem é impossível de estabelecer na frase, por falta de elementos. É relativamente comum o uso desnecessário e inadequado deste advérbio. Se a frase fizesse parte de um diploma legal, as considerações não seriam diferentes destas.

«Dignitário» e não «dignatário»

Por quem é

      Um leitor acaba de me dizer que Manuel António Pina, na edição de hoje do Jornal de Notícias, usou a palavra «dignatário» na sua crónica, Por Outras Palavras. «Os escrúpulos científicos deste e outros dignatários desta e doutras igrejas inquietam-me sempre.» Esta questão nunca aqui foi tratada, mas alguns leitores saberão que «dignatário» não é vocábulo correcto, que se usará talvez por influência de «dignar». Correcto é «dignitário». Se vem do latim dignitas…

Referir as horas


Ali para Telheiras

Simpática, sim, mas com uma mania supinamente irritante.
— Boa tarde. A biblioteca fecha às 7 horas, não é?
— Deve querer dizer 19 horas, imagino.
— Não, é mesmo 7 horas, da tarde, porque agora faltam 15 minutos para as 6.
Jack Bauer ia gostar dela, Cinderela pós-moderna e digital que não tem de voltar para casa à meia-noite mas às 24 horas.

Ortografia: «ascensão»

Que tristeza!


      Uma das palavras mais infamemente mal escritas é «ascensão», que vem do latim ascensione, «ascensão, subida, acto de ascender», do latim ascendere. O étimo está presente em muitas outras palavras, como «ascensor», «ascensorista», «ascendência» e «descendência», por exemplo. Ainda ontem o Público titulava assim uma notícia: «Retrato de uma estrela em ascenção». A estrela é Elina Garanca, o erro há-de ser de Cristina Fernandes, a colaboradora que assina o texto e que, sendo embora licenciada em Ciências Musicais, tem obrigação de escrever correctamente. Na Ípsilon em linha, o erro ainda lá está, a servir de mau exemplo.

Tradução: «Basic Skills Test»


Elementar

O leitor J. S. T. pergunta-me como traduzir Basic Skills Tests. Poderá traduzir por «Testes de Competências Básicas», expressão que, pelo menos no âmbito das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), é usada.

Aportuguesamento: «guglar»

Já é nosso

Miguel Esteves Cardoso escreveu ontem na sua crónica do Público sobre o bispo negacionista. «No recolhimento profundo onde se encontra em Buenos Aires aposto que está a fazer directas atrás de directas, colado à Internet, a guglar o nome dele vez após vez» («Também me recolhi», Público, 9.2.2009, p. 35). Se temos de usar o termo, e há milhares de falantes de português a fazê-lo, que o escrevamos assim.

Como se fala na rádio


Varie, altere, inove!

Todos, mas especialmente os jornalistas, temos de renovar o léxico, encontrar novas formas de dizer. Como se este fosse um guarda-roupa: define um estilo, sim, mas as peças têm de ser renovadas e introduzir-se de vez em quando algo novo. Nas tardes da Antena 1, há anos que Filomena Crespo, para falar da meteorologia, começa por dizer «e do lado do tempo». Revela, temos de denunciá-lo, uma imaginação indigente, o contrário do que se espera e do que sempre recebemos da rádio.

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