Referir as horas


Ali para Telheiras

Simpática, sim, mas com uma mania supinamente irritante.
— Boa tarde. A biblioteca fecha às 7 horas, não é?
— Deve querer dizer 19 horas, imagino.
— Não, é mesmo 7 horas, da tarde, porque agora faltam 15 minutos para as 6.
Jack Bauer ia gostar dela, Cinderela pós-moderna e digital que não tem de voltar para casa à meia-noite mas às 24 horas.

Ortografia: «ascensão»

Que tristeza!


      Uma das palavras mais infamemente mal escritas é «ascensão», que vem do latim ascensione, «ascensão, subida, acto de ascender», do latim ascendere. O étimo está presente em muitas outras palavras, como «ascensor», «ascensorista», «ascendência» e «descendência», por exemplo. Ainda ontem o Público titulava assim uma notícia: «Retrato de uma estrela em ascenção». A estrela é Elina Garanca, o erro há-de ser de Cristina Fernandes, a colaboradora que assina o texto e que, sendo embora licenciada em Ciências Musicais, tem obrigação de escrever correctamente. Na Ípsilon em linha, o erro ainda lá está, a servir de mau exemplo.

Tradução: «Basic Skills Test»


Elementar

O leitor J. S. T. pergunta-me como traduzir Basic Skills Tests. Poderá traduzir por «Testes de Competências Básicas», expressão que, pelo menos no âmbito das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), é usada.

Aportuguesamento: «guglar»

Já é nosso

Miguel Esteves Cardoso escreveu ontem na sua crónica do Público sobre o bispo negacionista. «No recolhimento profundo onde se encontra em Buenos Aires aposto que está a fazer directas atrás de directas, colado à Internet, a guglar o nome dele vez após vez» («Também me recolhi», Público, 9.2.2009, p. 35). Se temos de usar o termo, e há milhares de falantes de português a fazê-lo, que o escrevamos assim.

Como se fala na rádio


Varie, altere, inove!

Todos, mas especialmente os jornalistas, temos de renovar o léxico, encontrar novas formas de dizer. Como se este fosse um guarda-roupa: define um estilo, sim, mas as peças têm de ser renovadas e introduzir-se de vez em quando algo novo. Nas tardes da Antena 1, há anos que Filomena Crespo, para falar da meteorologia, começa por dizer «e do lado do tempo». Revela, temos de denunciá-lo, uma imaginação indigente, o contrário do que se espera e do que sempre recebemos da rádio.

Tradução: «lawn chair»


Cadeira, sim, mas qual?

Caro João Mendes, não, não acho que todas as cadeiras sejam de descanso. A cadeira eléctrica, por exemplo, não o é, não concorda? De resto, também na língua o todo é diferente da soma das partes. Uma cadeira de descanso será algo semelhante ao que temos na imagem. Ora, decerto que não é numa destas cadeiras que trabalha no seu escritório ou come à mesa ou consulta o seu advogado. Já quanto a não encontrar a expressão (e, por vezes, palavra, lawnchair) no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, não é nada de surpreender, só de lamentar.

Respeito pela língua

Imagem: http://pwp.netcabo.pt/0171492201/blog/cinemaalvalade.jpg

Com a verdade me enganas


      O Cinema Alvalade renasceu. Pelo menos é o que afirma a imprensa, mas é um manifesto exagero. É como se, depois de eu morrer, se disser que renasci só porque alguém recebeu os meus olhos, por exemplo, porque sou dador. Parece que do antigo Cinema Alvalade só restou um painel alegórico da autoria da pintora Estrela Alves de Faria. Mas adiante. O que mais estranhei, apesar de tudo, foi o novo nome: Cinema City Classic Alvalade. Não fui o único. Miguel Esteves Cardoso também escreveu sobre o caso: «Para mim, o diabo está nos pormenores. O novo Alvalade parece perfeito. Porquê estigmatizar o bebé recém-renascido com um nome tipo Tiffany Maria Chanel Simões? É que o cinema chama-se Cinema City Classic Alvalade.
      Mas porquê aquele Alvalade no fim? Se tem de ser em amaricano, ao menos ponham as palavras numa ordem inteligível como Classic City Cinema.
      Numa cidade com uma toponímia predial de tão bom gosto, cujas certíssimas “Twin Towers” não se chamam “Towers Twins” como gostariam os patos-bravos, é pena — quiçá até piroso — que não se respeite a sintaxe das línguas estrangeiras que tanto amamos. E que são tão nossas, à maneira delas» («New Column Classic», Público, 26.1.2009, p. 35).

Pluralização dos apelidos, outra vez

Ele sabe

O escritor brasileiro Antonio Olinto (membro da Academia Brasileira de Letras, vice-presidente do Pen Club Internacional e doutor honoris causa da Fagoc (MG) e da Universidade de Vasile Goldis, de Arad, na Roménia) escreve hoje no Jornal do Brasil sobre a presença italiana no Brasil. «Na minha pequena cidade do Piau, em Minas Gerais, terra de minha mãe, tenho primos e primas com os sobrenomes de Lucchese, Milani, Vilani, Campomizzi, Calderaro, todos brasileiríssimos, parentes dos Loures, Santos, Rochas, Paivas, Honórios e Ribeiros locais» («Os italianos e nós», JB, 8.2.2009, p. A10). Vejam se Antonio Olinto não pluralizou os apelidos.

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