Tradução: «lawn chair»


Cadeira, sim, mas qual?

Caro João Mendes, não, não acho que todas as cadeiras sejam de descanso. A cadeira eléctrica, por exemplo, não o é, não concorda? De resto, também na língua o todo é diferente da soma das partes. Uma cadeira de descanso será algo semelhante ao que temos na imagem. Ora, decerto que não é numa destas cadeiras que trabalha no seu escritório ou come à mesa ou consulta o seu advogado. Já quanto a não encontrar a expressão (e, por vezes, palavra, lawnchair) no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, não é nada de surpreender, só de lamentar.

Respeito pela língua

Imagem: http://pwp.netcabo.pt/0171492201/blog/cinemaalvalade.jpg

Com a verdade me enganas


      O Cinema Alvalade renasceu. Pelo menos é o que afirma a imprensa, mas é um manifesto exagero. É como se, depois de eu morrer, se disser que renasci só porque alguém recebeu os meus olhos, por exemplo, porque sou dador. Parece que do antigo Cinema Alvalade só restou um painel alegórico da autoria da pintora Estrela Alves de Faria. Mas adiante. O que mais estranhei, apesar de tudo, foi o novo nome: Cinema City Classic Alvalade. Não fui o único. Miguel Esteves Cardoso também escreveu sobre o caso: «Para mim, o diabo está nos pormenores. O novo Alvalade parece perfeito. Porquê estigmatizar o bebé recém-renascido com um nome tipo Tiffany Maria Chanel Simões? É que o cinema chama-se Cinema City Classic Alvalade.
      Mas porquê aquele Alvalade no fim? Se tem de ser em amaricano, ao menos ponham as palavras numa ordem inteligível como Classic City Cinema.
      Numa cidade com uma toponímia predial de tão bom gosto, cujas certíssimas “Twin Towers” não se chamam “Towers Twins” como gostariam os patos-bravos, é pena — quiçá até piroso — que não se respeite a sintaxe das línguas estrangeiras que tanto amamos. E que são tão nossas, à maneira delas» («New Column Classic», Público, 26.1.2009, p. 35).

Pluralização dos apelidos, outra vez

Ele sabe

O escritor brasileiro Antonio Olinto (membro da Academia Brasileira de Letras, vice-presidente do Pen Club Internacional e doutor honoris causa da Fagoc (MG) e da Universidade de Vasile Goldis, de Arad, na Roménia) escreve hoje no Jornal do Brasil sobre a presença italiana no Brasil. «Na minha pequena cidade do Piau, em Minas Gerais, terra de minha mãe, tenho primos e primas com os sobrenomes de Lucchese, Milani, Vilani, Campomizzi, Calderaro, todos brasileiríssimos, parentes dos Loures, Santos, Rochas, Paivas, Honórios e Ribeiros locais» («Os italianos e nós», JB, 8.2.2009, p. A10). Vejam se Antonio Olinto não pluralizou os apelidos.

Criação vocabular

Registe-se

Desconheço se há algum levantamento da criação vocabular na língua portuguesa. Fazia falta, isso sei. Nele não deixariam de figurar palavras como «ictioxenófobo», que Miguel Esteves Cardoso usou recentemente na sua crónica no Público, e «twitteiro», a partir de «blogueiro» (vocábulo tão foleiro como o vocábulo «foleiro»), que Patrícia Silva Alves usou na mesma edição do jornal Público.

Disparates jornalísticos

Repita lá

Em texto assinado por Bruno Martins, a edição do dia 27 de Janeiro do gratuito Metro falava do primeiro trabalho a solo do brasileiro Marcelo Camelo, ex-vocalista de Los Hermanos, e um texto de apoio tinha como título «A romântica descendência portuguesa». Como é que um jornalista escreve parvoíces deste calibre? A «descendência» incluía uma avó da Póvoa de Varzim e um avô do Vale do Bouro. Realfabetização, já.

Ortografia: «videocurrículo»

Agora sim

Surgiu uma nova ferramenta para quem procura emprego: o currículo em vídeo. No início de Janeiro, o gratuito Metro fazia a primeira página chamando a atenção para o facto, e titulava: «Vídeo-currículos são nova forma de procurar emprego». Na página 6, no artigo «Quer emprego? Faça um filme», assinado por André Barbosa, a palavra aparecia dez vezes — mas sempre incorrectamente grafada. Se se escreve «videoconferência», por exemplo, como é que se poderia escrever «vídeo-currículo»? Será, é óbvio, videocurrículo. Num texto de apoio, é usada também a palavra «vídeo-anúncio», e também está incorrectamente grafada, pois se escrevemos «videoamador», não deixaremos de escrever videoanúncio. A nova ferramenta é óptima para quem escreve mal.

Léxico contrastivo: «pitaco»

Conhecemos a atitude


      Alvaro Costa e Silva escreve hoje no Jornal do Brasil sobre o ecólogo John Whitfield, que tem um blogue para contar a experiência de ler A Origem das Espécies: «À medida que o biólogo avança nos parágrafos da famosa teoria, e as comenta, recebe pitacos ­os mais variados­ de visitantes. A ideia é encerrar tudo na próxima quinta, dia do bicentenário de nascimento de Darwin. O resultado pode ser conhecido no Blogging the origin» («Darwinista não leu Darwin», JB, 7.2.2009, p. L2). Pitaco, que nem o Aulete Digital nem o Dicionário Houaiss registam, é palavra de amplo uso no Brasil, e desconhecida em Portugal, que significa «palpite».


Confusões: «rupia» e «rúpia»

Grandes pestes

Em letras garrafais, acabou de aparecer no Disney Channel, na série Phineas e Ferb, a palavra «rúpia», pretendendo referir-se à unidade monetária da União Indiana. Para piorar tudo, uma voz off pronunciou a palavra como grave. A rúpia é uma inflamação cutânea que produz crostas semelhantes a conchas que se transformam em úlceras. A rupia, por sua vez, é a unidade monetária da União Indiana. A pergunta é sempre a mesma: mas quem é que escreve estes disparates com que inquinam as nossas criancinhas?

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