Criação vocabular

Registe-se

Desconheço se há algum levantamento da criação vocabular na língua portuguesa. Fazia falta, isso sei. Nele não deixariam de figurar palavras como «ictioxenófobo», que Miguel Esteves Cardoso usou recentemente na sua crónica no Público, e «twitteiro», a partir de «blogueiro» (vocábulo tão foleiro como o vocábulo «foleiro»), que Patrícia Silva Alves usou na mesma edição do jornal Público.

Disparates jornalísticos

Repita lá

Em texto assinado por Bruno Martins, a edição do dia 27 de Janeiro do gratuito Metro falava do primeiro trabalho a solo do brasileiro Marcelo Camelo, ex-vocalista de Los Hermanos, e um texto de apoio tinha como título «A romântica descendência portuguesa». Como é que um jornalista escreve parvoíces deste calibre? A «descendência» incluía uma avó da Póvoa de Varzim e um avô do Vale do Bouro. Realfabetização, já.

Ortografia: «videocurrículo»

Agora sim

Surgiu uma nova ferramenta para quem procura emprego: o currículo em vídeo. No início de Janeiro, o gratuito Metro fazia a primeira página chamando a atenção para o facto, e titulava: «Vídeo-currículos são nova forma de procurar emprego». Na página 6, no artigo «Quer emprego? Faça um filme», assinado por André Barbosa, a palavra aparecia dez vezes — mas sempre incorrectamente grafada. Se se escreve «videoconferência», por exemplo, como é que se poderia escrever «vídeo-currículo»? Será, é óbvio, videocurrículo. Num texto de apoio, é usada também a palavra «vídeo-anúncio», e também está incorrectamente grafada, pois se escrevemos «videoamador», não deixaremos de escrever videoanúncio. A nova ferramenta é óptima para quem escreve mal.

Léxico contrastivo: «pitaco»

Conhecemos a atitude


      Alvaro Costa e Silva escreve hoje no Jornal do Brasil sobre o ecólogo John Whitfield, que tem um blogue para contar a experiência de ler A Origem das Espécies: «À medida que o biólogo avança nos parágrafos da famosa teoria, e as comenta, recebe pitacos ­os mais variados­ de visitantes. A ideia é encerrar tudo na próxima quinta, dia do bicentenário de nascimento de Darwin. O resultado pode ser conhecido no Blogging the origin» («Darwinista não leu Darwin», JB, 7.2.2009, p. L2). Pitaco, que nem o Aulete Digital nem o Dicionário Houaiss registam, é palavra de amplo uso no Brasil, e desconhecida em Portugal, que significa «palpite».


Confusões: «rupia» e «rúpia»

Grandes pestes

Em letras garrafais, acabou de aparecer no Disney Channel, na série Phineas e Ferb, a palavra «rúpia», pretendendo referir-se à unidade monetária da União Indiana. Para piorar tudo, uma voz off pronunciou a palavra como grave. A rúpia é uma inflamação cutânea que produz crostas semelhantes a conchas que se transformam em úlceras. A rupia, por sua vez, é a unidade monetária da União Indiana. A pergunta é sempre a mesma: mas quem é que escreve estes disparates com que inquinam as nossas criancinhas?

Emprego do infinitivo impessoal

Ah, depende…

Caro M. L.: isso é, não nego, o que afirmam algumas gramáticas, mas vá lendo os nossos grandes escritores, que usam com verbos sensitivos (ouvir, sentir, ver…) o infinitivo pessoal: «Em tal noite de folganças, bem comparante à da véspera do mártir Senhor São Sebastião, enquanto dava uma carouça, ou um pêto, enquanto metia, ou atrancava (termos do jogo), teria eu ouvido os velhos da freguesia asseverarem, com acenos de cabeça, que o raio que partira a Toural fora castigo do Céu» (Tomaz de Figueiredo. Procissão dos Defuntos. Segunda edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 173).

Advérbio «meio»


Se tivesse sido o rato...

No episódio de ontem de Martim Ratola, na RTP2, passou um documentário sobre as cobras-reais. Uma voz off disse que, quando a cobra está para mudar a pele, está «meia cega». Este é mais um erro de todos os dias, nas traduções, nos meios de comunicação social, nas escolas. Na expressão, «meio» aparece a modificar um adjectivo, «cega». É um advérbio. Ora, os advérbios não variam em género nem em número. No registo clássico, não era sempre assim. Camões, por exemplo, escreveu, referindo-se aos mouros na Batalha de Ourique: «Huns caem meios mortos…» (Os Lusíadas, III, 50).

Neologismos italianos

La Parola del Giorno

Escreve hoje Ferreira Fernandes na sua crónica no Diário de Notícias: «Sintomaticamente, na semana em que Quaresma partiu, lançou-se o livro Parole Nuove dai Giornali, com os 4163 neologismos italianos dos últimos dez anos.» Fui atrás da notícia e descobri que a editora desta obra, a Treccani, tem uma base de dados com os neologismos. É mais uma ferramenta para os profissionais e um regalo para os curiosos.

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