Emprego do infinitivo impessoal

Ah, depende…

Caro M. L.: isso é, não nego, o que afirmam algumas gramáticas, mas vá lendo os nossos grandes escritores, que usam com verbos sensitivos (ouvir, sentir, ver…) o infinitivo pessoal: «Em tal noite de folganças, bem comparante à da véspera do mártir Senhor São Sebastião, enquanto dava uma carouça, ou um pêto, enquanto metia, ou atrancava (termos do jogo), teria eu ouvido os velhos da freguesia asseverarem, com acenos de cabeça, que o raio que partira a Toural fora castigo do Céu» (Tomaz de Figueiredo. Procissão dos Defuntos. Segunda edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 173).

Advérbio «meio»


Se tivesse sido o rato...

No episódio de ontem de Martim Ratola, na RTP2, passou um documentário sobre as cobras-reais. Uma voz off disse que, quando a cobra está para mudar a pele, está «meia cega». Este é mais um erro de todos os dias, nas traduções, nos meios de comunicação social, nas escolas. Na expressão, «meio» aparece a modificar um adjectivo, «cega». É um advérbio. Ora, os advérbios não variam em género nem em número. No registo clássico, não era sempre assim. Camões, por exemplo, escreveu, referindo-se aos mouros na Batalha de Ourique: «Huns caem meios mortos…» (Os Lusíadas, III, 50).

Neologismos italianos

La Parola del Giorno

Escreve hoje Ferreira Fernandes na sua crónica no Diário de Notícias: «Sintomaticamente, na semana em que Quaresma partiu, lançou-se o livro Parole Nuove dai Giornali, com os 4163 neologismos italianos dos últimos dez anos.» Fui atrás da notícia e descobri que a editora desta obra, a Treccani, tem uma base de dados com os neologismos. É mais uma ferramenta para os profissionais e um regalo para os curiosos.

Pronúncia: «bacharel»

Vê lá

«Ó estudante de Coimbra, não digas bàcharel. Não digas bàcharel nem bàicharel, como às vezes te oiço dizer. Nenhum dos teus antecessores, desde Camões a António Nobre, pronunciou bàcharel» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 29).

Definição: «brecagem»


Coisas da mecânica


      «Um carro eléctrico (o ‘city car’) que não produz emissões de dióxido de carbono, desdobrável, recarregável nos lugares de estacionamento e cujas rodas têm um sistema de brecagem capaz de fazer uma volta de 360 graus está a ser estudado no Massachusetts Institute of Technology (MIT)» («Um carro ideal para Lisboa», Diário de Notícias, 28.1.2009, p. 24).
      Sei que nem toda a gente, nem sequer condutores, conhece o termo «brecagem». A minha preocupação, neste caso, é a de os leitores que consultarem um dicionário neste verbete e não entenderem o que lêem. Pegue-se num dicionário da língua portuguesa da Porto Editora e leia-se: «Brecagem s. f. MECÂNICA. Ângulo horizontal máximo que as rodas directoras de um veículo podem descrever a partir da sua posição em movimento rectilíneo.» Hã? Talvez a definição da Autopédia, a que pertence a imagem, seja melhor: «Perímetro da menor circunferência que um automóvel consegue descrever. Um automóvel com uma boa brecagem consegue descrever círculos apertados.» Creio que no Brasil não se usa esta palavra, mas já os meus leitores habituais, como Paulo Araujo, Roberto de Barros Benévolo ou Gustavo Nagel, confirmarão.

Léxico: «homejacking»

Já aparecerá outra

Depois do fenómeno do carjacking, que quase eclipsou as outras notícias, agora temos o homejacking, de que os meios de comunicação social andam a falar há meses. «A Polícia Judiciária do Porto anunciou a detenção de cinco homens pela presumível autoria de seis assaltos violentos em residências (homejacking), na zona de Matosinhos, e de um em estabelecimento, no Porto» («PJ desmantela quadrilha de assaltantes», Global, 3.2.2009, p. 7).
Sendo a definição de «assalto» «ataque súbito utilizando a força ou ameaças, com o objectivo de roubar», pergunto-me o que faz ali o «violento», mas não é disso que pretendo falar. Parece ser algo diferente de um simples assalto, o que justificará (?) o empréstimo: «É um tipo de criminalidade grupal organizada com grande capacidade de mobilidade por todo o País», ouvia-se ontem no Rádio Clube Português. Num portal belga, lê-se esta definição: «Le homejacking consiste à dérober un véhicule après en avoir volé les clés dans la maison. Les auteurs de ces vols ont recours à la violence et à des menaces. Lorsque les voleurs n’ont pas recours à la violence ou à des menaces, on parle de “vol de garage”.»

Léxico: «fiação»

Imagem: http://img79.echo.cx/

Não são só têxteis

O historiador e colunista do Jornal do Brasil Paulo Passini escreveu ontem sobre as siglas que se encontram nas tampas de ferro das caixas de visita dos vários serviços no Rio de Janeiro. Foi neste artigo que li pela primeira vez a palavra «fiação» com a acepção (conjunto de fios que constituem a instalação eléctrica de uma habitação ou localidade) aqui usada: «As primeiras tampas referentes a serviços telefônicos são identificadas pela sigla CTB (Companhia Telefônica Brasileira), tradução do nome da empresa canadense Brazilian Telephone Company, em 1923. A história da telefonia brasileira havia começado bem antes, em 1877, com linhas particulares entre alguns privilegiados. Como a fiação era toda aérea, levaria algumas décadas até existirem cabos subterrâneos, e, conseqüentemente, tampas» («Siglas que não se perdem no espaço», Paulo Passini, Jornal do Brasil, 2.02.2009, p. A20).

Acordo Ortográfico


Fora-da-lei

Amedrontado com as cominações da lei, aqui brandidas por um leitor, e repeso e contrito por abalar a coesão nacional, o desportivo Record decidiu não continuar a usar as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Ah!, não?... Afinal, estão aqui a dizer-me que não é nada disso: esqueceram-se foi de que os nomes dos meses passam, segundo as novas regras ortográficas (art. 1.º, b), da Base XIX), a grafar-se com inicial minúscula.

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