Bordões da linguagem

Perspectivas erradas


      O leitor R. A. escreveu sobre alguns bordões usados incorrectamente nos meios de comunicação social: «Ouvem-se muito as expressões “desse ponto de vista” e “do meu ponto de vista” sem que os seus emissores se dêem/deem conta do seu real significado ou sentido. É exemplo flagrante o de Luís (desse ponto de vista) Delgado, comentador residente na SIC Notícias.
      Creio bem que a equivalência entre “na minha opinião” e “do meu ponto de vista” não é exacta/exata, nem unívoca: muitas das minhas opiniões não dependem da posição onde me encontro! Por outro lado, responder à opinião do meu interlocutor com um “desse ponto de vista” pode ser interpretado como um “isso é o que tu dizes, por estares aí ou por seres o que és”, quando, muitas vezes, o contexto em que é usado esse bordão é manifestamente outro.
      Outros bordões são também curiosos por parecerem revelar, inconscientemente, que, até ao momento em que são ditos, não se estava a ver bem: é o caso de Mário (vamos lá a ver) Crespo, também da SIC Notícias.»
      Se o recurso, quase sempre inconsciente, a bordões linguísticos empobrece a comunicação, o uso de bordões inadequados é o cúmulo da falta de reflexão sobre os limites e significados da linguagem. Em pessoas que todos os dias entram em nossas casas pela televisão ainda é mais censurável essa irreflexão. É uma agravante.

«Reacção» e «reagir»

Quedas jornalísticas


      Reagir e reacção continuam em voga na linguagem jornalística: «Ao meio-dia, o primeiro-ministro vai prestar esclarecimentos sobre o caso Freeport. A conferência de imprensa está marcada para a Alfândega do Porto. Acontece depois da reacção já ontem em comunicado aos desenvolvimentos do caso do empreendimento de Alcochete. José Sócrates reagiu com indignação e repúdio às informações avançadas pelo Sol» (Antena 1, informação às 9 horas, com Nuno Rodrigues). Nas reportagens de rua, os repórteres também gostam de pespegar o microfone à frente do nariz das pessoas e perguntarem: «Como reage a…?» Por vezes, o entrevistado não reage, porque não percebe a palavra.
      E já no fim das notícias: «O mau tempo desta noite provocou dezenas de quedas de árvores.» Quanto melhor não seria: «O mau tempo desta noite provocou a queda de dezenas de árvores.» Já tínhamos quedas-d’água, agora passamos a ter quedas de árvores.

História da revisão

Mais uma tarefa

     
      Caro Vasco Lopes: isso não sei, que a história da revisão está por fazer. Sei é isto: a Sociedade da Língua Portuguesa (SLP) enviou uma vez uma carta ao ministro da Educação Nacional em que se podia ler, entre outras propostas, esta: «4.º — Todos os folhetos, opúsculos e livros devem mencionar o nome do revisor tipográfico, na página onde se indicar a data e o local da impressão» (in Manuel Pedro (Pai). Correcção de Provas Tipográficas. Porto, 1973, p. 37).

Sobre «ulemá»

Sim, onde estaríamos?

Aposto que se lembram desta questão sobre os vocábulos maulavi, mulá e mujaidine. Pois ontem vi que o romance, de resto com excelente crítica, Os Pequenos Mundos do Edifício Yacoubian, de Alaa El Aswany, traduzido por Helena Falé Chora e publicado em 2008 pela Editorial Presença, tem um glossário no fim em que se lê: «Oulamâ/Oulémas: Sábio/sábios. Especialistas em assuntos religiosos, de reconhecida autoridade, que são consultados sobre questões de doutrina e fé» (p. 230). Repito: há muitos anos que se usa ulemá/ulemás na língua portuguesa. Que seria de nós se desde sempre tivéssemos respeitado em palavras comuns grafias estranhas e observado plurais extravagantes? A língua portuguesa teria parado no tempo! Temos de nos apropriar inteiramente das palavras de outras línguas que nos sejam necessárias — aportuguesando-as de forma correcta.

Léxico contrastivo: «canudo»


Para sorver


      À minha frente estavam três brasileiros, que pediram quatro cachorros-quentes. Um deles voltou depois ao balcão, pegou em três palhinhas e disse aos outros: «Querem canudos?» Em Portugal usamos canudos para enfiar diplomas e projectos de arquitectura ou para atiçar, avivar, espertar o lume, por exemplo, mas não para sorver líquidos, como fazem os Brasileiros. Nós chamamos-lhes palhinhas.

Verbo «deter»


Horresco referens


      «Don’t let him do this, l’ll tell you what you want to know!», gritou o guarda-livros de Al Capone na cena da escadaria da Chicago Union Station no filme Os Intocáveis (Brian De Palma, 1987), que anteontem passou no canal Hollywood. Na legenda lia-se: «Se os deter[,] conto-lhe tudo o que sei.» O tempo usado é o infinitivo pessoal; o tempo adequado é o futuro simples do conjuntivo. Deter é um derivado de ter; logo, conjuga-se como este. O tradutor não dirá, suponho: «Se o senhor ter tempo, passe lá pelo escritório.» Como é que um tradutor escreve desta forma?

Sobre «curatelar»

Use-se

«Gostava que comentasse a palavra “curatelado” que está no Artigo 48.º (*) do Decreto-Lei n.º 6/96, de 31 de Janeiro (Código do Procedimento Administrativo) e provavelmente noutros sítios. Havendo curatela (substantivo) e não havendo curatelar (verbo) como aparece esta forma? Curatela e curatelado estão no Houaiss e no Grande Dicionário da SLP mas não no da Academia!», escreveu o leitor Rosalvo Almeida.
Não seria o único caso em que temos um adjectivo sem termos o respectivo verbo. Contudo, os Brasileiros, que também usam o vocábulo «curatelado», registam no Aulete Digital o verbo «curatelar», «atuar como curador». Do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, é melhor não falarmos.

Verbo «ir»+«a»

Se ela o diz… engana-se!

«Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta» (Machado de Assis, D. Casmurro, Capítulo III). Por vezes, como pode ver, caro M. L., o infinitivo que se segue ao verbo ir é regido pela preposição a. É, creio, elementar. Qualquer pastor da serra do Marão o sabe — a sua professora não o pode ignorar! Ou vai ela para a serra e pagamos ao pastor para nos ensinar.

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