Verbo «rever»

In Ípsilon, 9.1.2009, pp. 26-27

Perda de paradigmas



      Se até um jovem escritor, saramaguianamente galardoado, proferiu o disparate no lançamento de uma obra sua, não podemos estranhar que os jornalistas também o façam. Claro que, no caso, há mais gente envolvida, com excepção do revisor, porque parece que o jornal o não tem. Já vi professores fazer o mesmo. É, parece-me, muito simples: o verbo rever conjuga-se como o verbo ver, que é um verbo irregular da 2.ª conjugação. Ora, o jornalista, Óscar Faria, não diz, ou pelo menos esperamos que não diga, «Paulo Nozolino veu tudo para nos contar», por exemplo. Para que existem os dicionários de verbos?

«Judaico», «hebreu», «israelita»

É só uma maneira de dizer

Em Espanha, teve de ser a Fundéu a lembrar algo muito elementar mas que a generalidade dos jornalistas esquece: «Los términos hebreo, judío e israelita funcionan solo como sinónimos en su sentido histórico (relativo al antiguo pueblo de Israel) y en su sentido religioso (referido a aquellas personas que profesan la religión judía y a todo aquello propio de los judíos). Israelí, sin embargo, designa a aquellas personas que viven en el moderno Estado de Israel (los israelíes pueden profesar cualquier religión, no necesariamente la judía)» («Hebreo no es sinónimo de israelí», 20 Minutos, 14.1.2009, p. 21). Cá, isto são eflúvios que pairam sobre a meseta Ibérica, passa-se o mesmo. Ainda ontem: «A organização norte-americana assinala ainda que o bloqueio israelita à Faixa de Gaza e os rockets disparados pelo Hamas contra o Estado hebreu vieram piorar bastante a situação dos direitos humanos nos chamados territórios palestinianos» («EUA devem recuperar credibilidade perdida», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 15.1.2009). É isso mesmo: é só uma maneira de dizer… parva.

«Quartada», nova/velha palavra

Eu não estava lá

Só não me perguntem é onde, porque terei lido seguramente mais de 1000 páginas de diversas obras nos últimos seis dias, mas li num autor português a palavra «quartada» no sentido de «álibi». Pois agora mesmo leio isto na obra Uma Noite na Toca do Lobo, romance, já aqui citado, de Tomaz de Figueiredo: «Isso que, por todos os cantos, cozinheiras e sogras diziam alibi (e álibi, aliás), dizia-se quartada antes do romance policial, e o Zé congeminara quartadas de mão-cheia, perfeitas» (p. 144). E confirmo no velho Morais: «Justificação de emprego de tempo ou de localização num momento dado (em que um crime foi praticado, por exemplo).» Para um castelhanófilo, pelo menos em tempo de paz, como eu (ah, não sabiam? Pouco me conhecem…), é muito provável que tenha aprendido primeiro a palavra e o conceito através do espanhol coartada. «Argumento de inculpabilidad de un reo por hallarse en el momento del crimen en otro lugar», regista o DRAE.

Novas palavras em Espanha

Unidos na ignorância


      Clara Hernández, jornalista do 20 minutos, fez o levantamento das palavras que os Espanhóis passaram a usar — ou, por vezes, alguém pretendeu impor — em 2008. A mais cómica será «miembra», que a ministra da Igualdade, Bibiana Aído (uma jovem desempoeirada, a quem chamam, e com razão, pois tem blogue, canal no YouTube, conta no Flickr e perfil no Twitter, a ministra 2.0), afirma que integra, a par do masculino «miembro», qualquer comissão. De Espanha já nos veio, lembrem-se, uma coisa semelhante. Outra palavra, esta um arcaísmo tirado do baú, é «insaculación», que o socialista José Bono usou, pondo os restantes deputados a rir, no Parlamento espanhol. Significa a introdução de votos num saco para depois proceder ao escrutínio. Não se pode sair da mediania.


Formas de tratamento

Desgrava!


      No canal Panda, acabo de ouvir um cão, na série Vipo, anunciar «Sua Alteza, a Rainha de Inglaterra». Elizabeth Alexandra Mary Windsor não iria gostar nada. A forma de tratamento adequada a um rei ou a uma rainha é Sua Majestade (S. M.) e, concretamente no caso do Reino Unido, Sua Majestade Britânica (Her British Majesty). Por sua vez, o título de Sua Alteza (S. A.) é reservado a duques, arquiduques e príncipes. Só desculpo por ter sido um cão, mas pergunto a mim mesmo se daqui a uns anos as crianças que ouviram agora a frase canina não reproduzirão o dislate.

De «banir» a «bandido»

«Banem»?

Cara Maria João Pires: comecemos pelo fim. A edição de 1913 do dicionário de Cândido de Figueiredo, que espero Luís Lavoura não inclua nos pós-modernos, se regista que banir é «desterrar, lançar fora de um país», conforme à etimologia latina, não deixa igualmente de registar que significa, decerto por extensão de sentido, «excluir, tirar, suprimir». Resta a objecção inicial de Luís Lavoura: to ban é «to prohibit especially by legal means: ban discrimination; also: to prohibit the use, performance, or distribution of: ban a book; ban a pesticide» (in Merriam-Webster). Ora, esta acepção só é registada pelos «pós-modernos», como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «eliminar; suprimir; proibir». Mas não pelo Dicionário Houaiss.
Não tenho, e quem me acompanha sabe que é assim, nenhuma posição de princípio contra novas acepções em vocábulos já de uso em português. Pondero sempre em cada caso, e neste creio que nada custa enriquecermos a língua acrescentando esta às acepções já dicionarizadas. Assim, só me causa alguma estranheza aquele «banem», e com razão, comprovei-o agora: alguns dicionários dizem que o verbo banir é defectivo, usando-se do presente do indicativo apenas as formas «banimos» e «banis». Temos a solução à vista: «Porque não banimos de vez as bombas de fósforo branco?»
O nosso banir provém do latim tardio bannire e este do gótico bandwjan, intermediado pelo francês bannir, «assinalar, proclamar», significado que manteve até ao século XIII. A partir desta altura, toma então o significado de proclamação da expatriação, do exílio de um cidadão nacional. Banir e desterrar é o mesmo. O nosso bandido, por exemplo, deriva deste banir, porque bandido é o que foi banido da sociedade, o fora-da-lei que vive de expedientes.

Actualização em 26.05.2009

«Esta [Igreja da Cientologia] está agora no banco dos réus por fraude e arrisca-se a uma multa de cinco milhões de euros, além de poder ser banida de França se for considerada culpada» («França acusa Cientologia de fraude e ameaça bani-la», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 26.05.2009, p. 23).
«A muito controversa Igreja da Cientologia, considerada em França como uma seita, será de novo julgada hoje, em Paris. Responde por fraude. Só que desta vez as suas estruturas no país poderão ser simplesmente banidas» («Cientologistas podem ser banidos de França», Público, 25.05.2009, p. 13).

Actualização em 27.05.2009


Cá está de novo a acepção posta em causa: «Casamentos gay ficam banidos na Califórnia» (Isabel Gorjão Santos, Público, 27.05.2009, p. 17).

Confusões: «extracto» e «estrato»


Então toma lá

      Parece publicidade, não é? E é mesmo! Só o recomendo por causa dos extractos vegetais que afirma conter. Assim, já temos o primeiro elemento deste texto: o extracto. Vem do latim extractu-, particípio passado de extrahere, «extrair; tirar». Este tónico tem pois substâncias extraídas de plantas. Mas há outras extracções: da cortiça aos extractos que os bancos nos mandam, isto é, o registo dos movimentos das nossas contas. Em matemática e em medicina dentária há extracção de raízes, ambas mais ou menos dolorosas. Também há, e todos conhecemos, gente de baixa extracção. Do piorio. Acepção que os puristas, esses macacos, dizem ser galicismo. Credo! Estamos, assim, onde eu queria: na origem social. O segundo elemento deste texto. A sociedade tem, como sabemos, camadas, como os terrenos sedimentares e os bolos de noiva. Camadas — estratos. Isso mesmo, leitor arguto: diz-se estrato social e não — oh horror! — extracto social.
      Agora só falta uma coisinha: verem se não foram vocês que andaram para aí a escrever aquela barbaridade (porque está em blogues, em documentos assinados por médicos, professores, e por aí fora), convencidíssimos de que sabem português.

Léxico: «assecla»

Não há língua como a latina


      «Franciscus Bacone et asseclae cogitationi recentioris aetatis adhaerentes ab eo inspiratae, cum censerent per scientiam redimi hominem, errabant omnino.» Já antes tinham lido, mesmo em português? Reconhecem? É da carta encíclica Spe Salvi de Bento XVI. A versão em português diz: «Equivocaram-se Francisco Bacon e os adeptos da corrente de pensamento da idade moderna nele inspirada, ao considerar que o homem teria sido redimido através da ciência.» Aquele asseclae, com filhos registados em pouquíssimos dicionários da língua portuguesa, é ainda usado pelos Brasileiros, que entesouraram vocábulos que nós já esquecemos. Assecla: sequaz, partidário, seguidor, acólito, adepto. E foi numa obra brasileira que o conheci hoje mesmo.

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