De «banir» a «bandido»

«Banem»?

Cara Maria João Pires: comecemos pelo fim. A edição de 1913 do dicionário de Cândido de Figueiredo, que espero Luís Lavoura não inclua nos pós-modernos, se regista que banir é «desterrar, lançar fora de um país», conforme à etimologia latina, não deixa igualmente de registar que significa, decerto por extensão de sentido, «excluir, tirar, suprimir». Resta a objecção inicial de Luís Lavoura: to ban é «to prohibit especially by legal means: ban discrimination; also: to prohibit the use, performance, or distribution of: ban a book; ban a pesticide» (in Merriam-Webster). Ora, esta acepção só é registada pelos «pós-modernos», como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «eliminar; suprimir; proibir». Mas não pelo Dicionário Houaiss.
Não tenho, e quem me acompanha sabe que é assim, nenhuma posição de princípio contra novas acepções em vocábulos já de uso em português. Pondero sempre em cada caso, e neste creio que nada custa enriquecermos a língua acrescentando esta às acepções já dicionarizadas. Assim, só me causa alguma estranheza aquele «banem», e com razão, comprovei-o agora: alguns dicionários dizem que o verbo banir é defectivo, usando-se do presente do indicativo apenas as formas «banimos» e «banis». Temos a solução à vista: «Porque não banimos de vez as bombas de fósforo branco?»
O nosso banir provém do latim tardio bannire e este do gótico bandwjan, intermediado pelo francês bannir, «assinalar, proclamar», significado que manteve até ao século XIII. A partir desta altura, toma então o significado de proclamação da expatriação, do exílio de um cidadão nacional. Banir e desterrar é o mesmo. O nosso bandido, por exemplo, deriva deste banir, porque bandido é o que foi banido da sociedade, o fora-da-lei que vive de expedientes.

Actualização em 26.05.2009

«Esta [Igreja da Cientologia] está agora no banco dos réus por fraude e arrisca-se a uma multa de cinco milhões de euros, além de poder ser banida de França se for considerada culpada» («França acusa Cientologia de fraude e ameaça bani-la», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 26.05.2009, p. 23).
«A muito controversa Igreja da Cientologia, considerada em França como uma seita, será de novo julgada hoje, em Paris. Responde por fraude. Só que desta vez as suas estruturas no país poderão ser simplesmente banidas» («Cientologistas podem ser banidos de França», Público, 25.05.2009, p. 13).

Actualização em 27.05.2009


Cá está de novo a acepção posta em causa: «Casamentos gay ficam banidos na Califórnia» (Isabel Gorjão Santos, Público, 27.05.2009, p. 17).

Confusões: «extracto» e «estrato»


Então toma lá

      Parece publicidade, não é? E é mesmo! Só o recomendo por causa dos extractos vegetais que afirma conter. Assim, já temos o primeiro elemento deste texto: o extracto. Vem do latim extractu-, particípio passado de extrahere, «extrair; tirar». Este tónico tem pois substâncias extraídas de plantas. Mas há outras extracções: da cortiça aos extractos que os bancos nos mandam, isto é, o registo dos movimentos das nossas contas. Em matemática e em medicina dentária há extracção de raízes, ambas mais ou menos dolorosas. Também há, e todos conhecemos, gente de baixa extracção. Do piorio. Acepção que os puristas, esses macacos, dizem ser galicismo. Credo! Estamos, assim, onde eu queria: na origem social. O segundo elemento deste texto. A sociedade tem, como sabemos, camadas, como os terrenos sedimentares e os bolos de noiva. Camadas — estratos. Isso mesmo, leitor arguto: diz-se estrato social e não — oh horror! — extracto social.
      Agora só falta uma coisinha: verem se não foram vocês que andaram para aí a escrever aquela barbaridade (porque está em blogues, em documentos assinados por médicos, professores, e por aí fora), convencidíssimos de que sabem português.

Léxico: «assecla»

Não há língua como a latina


      «Franciscus Bacone et asseclae cogitationi recentioris aetatis adhaerentes ab eo inspiratae, cum censerent per scientiam redimi hominem, errabant omnino.» Já antes tinham lido, mesmo em português? Reconhecem? É da carta encíclica Spe Salvi de Bento XVI. A versão em português diz: «Equivocaram-se Francisco Bacon e os adeptos da corrente de pensamento da idade moderna nele inspirada, ao considerar que o homem teria sido redimido através da ciência.» Aquele asseclae, com filhos registados em pouquíssimos dicionários da língua portuguesa, é ainda usado pelos Brasileiros, que entesouraram vocábulos que nós já esquecemos. Assecla: sequaz, partidário, seguidor, acólito, adepto. E foi numa obra brasileira que o conheci hoje mesmo.

O verbo «haver» nos manuais escolares


Mais uma infausta vez


      A somar aos preconceitos e erros de natureza factual, de vez em quando denunciados na imprensa, os manuais escolares acolhem — mesmo, valha-me Deus!, os de Língua Portuguesa — também erros gramaticais inadmissíveis. Será curial exigir-se, e exigirem os professores, que os nossos filhos não dêem erros, quando os próprios autores de manuais escolares os dão? Por detrás desta interrogação, está sempre a perplexidade: mas estas obras não são revistas? Ou não o deviam ser ainda com mais cuidado? E, a propósito, onde pára a tão polémica certificação?
      Neste caso, é a obra Estudo Acompanhado, de Carla Rebelo Rodrigues, Eduardo Aurélio Pereira e Laura Espírito Santo, publicada pela Texto Editora em 2001. Ah, não, leitor perspicaz, não é só o verbo haver que sai maltratado.

Maiúsculas e minúsculas

Provas?

Claro que é convencional, caro M. L., e o que não o é na língua? Mas é convenção que já vem de longe. Veja o que escreve o P. Avelino de Jesus da Costa na obra Normas Gerais de Transcrição e Publicação de Documentos e Textos Medievais e Modernos (Coimbra, 3.ª ed., 1993): «Algumas palavras podem escrever-se com maiúscula ou minúscula, conforme o sentido em que se tomam: ecclesia (= templo), mas Ecclesia (= diocese ou Igreja universal); (= catedral), mas (= Sé Apostólica ou Santa Sé), imperium (reino), mas Imperium (= Sacro Império)» (p. 54).

Informação


Curso de Técnicas de Revisão


      Nos dias 23, 24, 30 e 31 deste mês, voltarei a estar na Booktailors, ao Chiado, como docente de Técnicas de Revisão (segundo curso de formação intermédia). Se quiser aparecer (há lanchinho no intervalo), inscreva-se. Mais informações aqui.

Norma brasileira do português

Do acordo ao Havai

Num dos comentários mais soezes dos últimos tempos, obviamente apagado, que me deixaram aqui, o seu autor, obviamente anónimo, pretendia ter descoberto porque sou a favor (sou?) do Acordo Ortográfico de 1990: é que assim eu teria «aquilo com que se compra melões». É tão estúpido como afirmar que só os juízes que aplicam o novo Código do Trabalho poderão ter férias no Havai. Como se eu e os juízes não tivéssemos de aplicar o que está em vigência.
Agora que tenho em mãos uma revisão muito especial, lembrei-me de referir o episódio. Mais do que revisão: é a adaptação, da norma brasileira para a norma europeia do português, de uma obra sobre história. Vejo, contudo, que os editores, quando pretendem um trabalho semelhante, afirmam quase sempre, menorizando, que se trata de «adaptação ortográfica», quando, na verdade, esta é o que menos importa. São em muito maior número — e incomparavelmente mais importantes, decisivas mesmo — as adaptações lexicais. Sem esquecer as adaptações sintácticas. Lexicais, então. Digam-me só quantos leitores portugueses saberiam o que é: interiorano, trafegar, traquinagem, contábil, mutirão, borduna, cabano, blefe, na marra, grilar, picape, píer, trapiche, lastrear, malemolente… — quantos?

Recomendações

À puridade

Andam sempre a pedir-me, o que é sumamente lisonjeiro, que recomende isto e aquilo. A melhor gramática, o melhor dicionário, o melhor apara-lápis, etc. Hoje tomo eu a iniciativa, alargando-me a outras áreas: os melhores electricistas são da empresa Yebra & Simões. Não estavam à espera, hem? Nem eu. Estou a falar a sério. Mas regressando, lesto e prudente, à minha área, um jornalista com que muitos dos outros poderiam aprender a escrever (já que, quanto à imaginação, não se aprende) é Ferreira Fernandes, que tem uma crónica quotidiana no Diário de Notícias. Não é exagero (e se for, paciência) afirmar que praticamente todas são antológicas. Agora vejam lá a quem comunicam esta confidência.

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