O verbo «haver» nos manuais escolares


Mais uma infausta vez


      A somar aos preconceitos e erros de natureza factual, de vez em quando denunciados na imprensa, os manuais escolares acolhem — mesmo, valha-me Deus!, os de Língua Portuguesa — também erros gramaticais inadmissíveis. Será curial exigir-se, e exigirem os professores, que os nossos filhos não dêem erros, quando os próprios autores de manuais escolares os dão? Por detrás desta interrogação, está sempre a perplexidade: mas estas obras não são revistas? Ou não o deviam ser ainda com mais cuidado? E, a propósito, onde pára a tão polémica certificação?
      Neste caso, é a obra Estudo Acompanhado, de Carla Rebelo Rodrigues, Eduardo Aurélio Pereira e Laura Espírito Santo, publicada pela Texto Editora em 2001. Ah, não, leitor perspicaz, não é só o verbo haver que sai maltratado.

Maiúsculas e minúsculas

Provas?

Claro que é convencional, caro M. L., e o que não o é na língua? Mas é convenção que já vem de longe. Veja o que escreve o P. Avelino de Jesus da Costa na obra Normas Gerais de Transcrição e Publicação de Documentos e Textos Medievais e Modernos (Coimbra, 3.ª ed., 1993): «Algumas palavras podem escrever-se com maiúscula ou minúscula, conforme o sentido em que se tomam: ecclesia (= templo), mas Ecclesia (= diocese ou Igreja universal); (= catedral), mas (= Sé Apostólica ou Santa Sé), imperium (reino), mas Imperium (= Sacro Império)» (p. 54).

Informação


Curso de Técnicas de Revisão


      Nos dias 23, 24, 30 e 31 deste mês, voltarei a estar na Booktailors, ao Chiado, como docente de Técnicas de Revisão (segundo curso de formação intermédia). Se quiser aparecer (há lanchinho no intervalo), inscreva-se. Mais informações aqui.

Norma brasileira do português

Do acordo ao Havai

Num dos comentários mais soezes dos últimos tempos, obviamente apagado, que me deixaram aqui, o seu autor, obviamente anónimo, pretendia ter descoberto porque sou a favor (sou?) do Acordo Ortográfico de 1990: é que assim eu teria «aquilo com que se compra melões». É tão estúpido como afirmar que só os juízes que aplicam o novo Código do Trabalho poderão ter férias no Havai. Como se eu e os juízes não tivéssemos de aplicar o que está em vigência.
Agora que tenho em mãos uma revisão muito especial, lembrei-me de referir o episódio. Mais do que revisão: é a adaptação, da norma brasileira para a norma europeia do português, de uma obra sobre história. Vejo, contudo, que os editores, quando pretendem um trabalho semelhante, afirmam quase sempre, menorizando, que se trata de «adaptação ortográfica», quando, na verdade, esta é o que menos importa. São em muito maior número — e incomparavelmente mais importantes, decisivas mesmo — as adaptações lexicais. Sem esquecer as adaptações sintácticas. Lexicais, então. Digam-me só quantos leitores portugueses saberiam o que é: interiorano, trafegar, traquinagem, contábil, mutirão, borduna, cabano, blefe, na marra, grilar, picape, píer, trapiche, lastrear, malemolente… — quantos?

Recomendações

À puridade

Andam sempre a pedir-me, o que é sumamente lisonjeiro, que recomende isto e aquilo. A melhor gramática, o melhor dicionário, o melhor apara-lápis, etc. Hoje tomo eu a iniciativa, alargando-me a outras áreas: os melhores electricistas são da empresa Yebra & Simões. Não estavam à espera, hem? Nem eu. Estou a falar a sério. Mas regressando, lesto e prudente, à minha área, um jornalista com que muitos dos outros poderiam aprender a escrever (já que, quanto à imaginação, não se aprende) é Ferreira Fernandes, que tem uma crónica quotidiana no Diário de Notícias. Não é exagero (e se for, paciência) afirmar que praticamente todas são antológicas. Agora vejam lá a quem comunicam esta confidência.

Sílabas abertas e sílabas fechadas

Algumas ainda referem

Caro L. C.: poucas são as gramáticas que actualmente falam sobre essa matéria. O brasileiro Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, já aqui recomendada, escreve: «A sílaba composta é aberta (ou livre) se termina em vogal: vi; é fechada (ou travada) em caso contrário, incluindo-se a vogal nasal, porque a nasalidade vale por um travamento de sílaba: ar, lei, ou, mas, um» (p. 85).

Nome das letras, outra vez

Também me parece confusão

Talvez se lembrem desta questão do nome das letras. Mais um contributo, desta vez do escritor João de Araújo Correia: «Diz este amigo que o nome de cada letra deve representar todos os seus valores. Ó matemáticos, acudi-lhe!» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 84).

«Por demais»

Consabidamente

Quem é que me disse uma vez que a expressão «por demais» não era português legítimo? E não se referia, creio, à questão de ser «de mais» ou «demais», sobre a qual um dia aqui deixarei abundantíssimas abonações contra o que os gramáticos prescrevem. Bem, não sei. Sei, isso sim, que a encontrei mais de uma vez em Saramago (convenho: eivado de espanholismos) e noutros autores. Em Tomaz de Figueiredo, por exemplo, topo com ela amiúde, e não me causa engulhos nem me confunde a gramática: «Ninguém da casa perguntava quem era esse Ele, por demais o saber, e a prima D. Maria do Socorro, alheia, mexia nas “vistas”» (Uma Noite na Toca do Lobo. Segunda edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1964, p. 43). Os gramáticos dizem muitos disparates, e eu de vez em quando esqueço-me disso.

Arquivo do blogue