Apóstrofo e apóstrofe


Tradução a Mattelo


      A Mattel Portugal pediu a alguém que traduzisse as instruções do jogo Scrabble. Faltou, desgraçadamente, dinheiro para contratar os serviços de um revisor e o resultado está à vista: confunde-se apóstrofo, o sinal gráfico (’) designativo da elisão de uma ou mais letras numa palavra, com apóstrofe, a figura de estilo que consiste numa interpelação a alguém realizada através da utilização do vocativo e do discurso directo. Já vimos aqui outros jogos com o mesmo tipo de defeito.

Tradução: «junior officer»

Nem a concordância



      «Oficiais júnior»?! Se se pretende traduzir o inglês junior officers, temos de conhecer (o que podemos fazer aqui) a designação na hierarquia militar do respectivo ramo das Forças Armadas portuguesas. Ver-se-á assim que os junior officers correspondem aos nossos oficiais subalternos.



Léxico: «esfolhear»


Digam assim



      Desfolhar, não, mas esfolhear: «Bem trinta anos decorridos, já, delida, ou quase, me ia a parda na ideia, até à noite em que, pouco além já de só caçador de imaginação — ainda não pela fraqueira de bofes e pernas, mas pela tirania da cidade —, me dei a esfolhear um livro de caça, Leçons de Chasse à Tir sur le Terrain, dum tal Piaut-Beaurecoir, livro levinho e de cartonagem verde, editado pelas Manufactures de Saint-Etienne» (Tomaz de Figueiredo. Dicionário Falado. Lisboa: Editorial Verbo, 1970, p. 169).

Tradução do inglês

Literalmente

      Imaginem, se não lhes custa, que o original inglês diz qualquer coisa como o orçamento da defesa ter sido aumentado «from $13.5 billion to $48.2 billion». Na tradução, não podemos admitir que fique «de 13,5 para 48,2 mil milhões de dólares», pois com números não há elipses. Será então «de 13,5 mil milhões para 48,2 mil milhões de dólares».

Tradução: «think tank»

Imagem: http://www.aecom.yu.edu/

Desculpas



      O leitor Carlos Oliveira pergunta-me como se deve traduzir a expressão inglesa think tank, que, sobretudo nos jornais, vê abundantemente por traduzir e por explicar. Bem, comecemos com o conceito. Segundo alguns dicionários, um think tank é «a group or an institution organized for intensive research and solving of problems, especially in the areas of technology, social or political strategy, or armament» (in Answers.com). Tenho visto traduzido por laboratório ou fábrica ou banco de ideias. E, francamente, parece-me bem. Afirmar que é intraduzível é somente uma desculpa para usarmos palavras de outra língua, numa ilusória tentativa de engrandecer o que escrevemos. Quando, procedendo dessa maneira, é precisamente o contrário que sucede. Aceitam-se outras sugestões.

Sobre «fronha»


Quando havia povo


      Alguns dicionários ainda registam fronha na acepção popular de «cara, rosto, máscara», que, quando calha, se ouve. Há anos, Tomaz de Figueiredo foi ouvir a senhora Maria da Conceição Gomes, a tia Maria Berrelha, que o escritor inscreveu no rol dos seus mestres de linguagem. E esta senhora, que sabia muito, «só ler é que não, sem que lhe faça e fizesse minga», explicou porquê fronha: «Uma fronha, sim, a máscara de Entrudo que enfiavam pela cabeça os estúrdios aldeões, fronha de croché, alguma de crivo — já luxo de bragal centenário —, e vazada, assim. A moça ou o moço da folia a ver para fora, ninguém a ver-lhe a cara às gradinhas ou aos buraquinhos, atrás daquele reposteiro de intriga e traição. E, lá dos buraquinhos e gradinhas, da trama de algodão ou dos espreitadoiros de linho, a narigar acusas, podres e marmanjarias, amores nada católicos, a crónica secreta dos sítios, o diabo a quatro. Mas também declarações de amores envergonhados, lá isso é verdade, aos ouvidos e em fala natural, meiga…» (Tomaz de Figueiredo. Dicionário Falado. Lisboa: Editorial Verbo, 1970, p. 242).

Ortografia: «baba-de-camelo»

Imagem: http://oglobo.globo.com/

Väkevä glögi e outras coisas



      Ontem bebi, pela primeira vez, uma caneca de oloroso e quente glögi, a bebida nacional finlandesa. Contudo, como este blogue não é sobre a minha vida, passo já ao que interessa. A leitora Teresa Silveira quer saber se o doce tradicional português se escreve baba de camelo ou baba-de-camelo, e porquê. Isto é, com ou sem hífens. Estamos claramente perante um composto que forma um sentido único ou uma aderência de sentidos, como exige o Acordo Ortográfico de 1945. Logo, baba-de-camelo. Tal como papo-de-anjo, orelha-de-abade, barriga-de-freira e toucinho-do-céu, por exemplo. A baba de camelo propriamente dita é algo, apesar de tudo, diferente: é a própria secreção do simpático mamífero ruminante. Que nunca vi em nenhum restaurante nem quereria degustar.

Joaquim Figueiredo Magalhães

Só não sabem é português


      Catarina Portas relembra uma conversa com Joaquim Figueiredo Magalhães (1916-2008), fundador da Ulisseia, falecido no passado mês de Novembro: «“Escolhi escritores como tradutores porque eram homens que sabiam português. É que se eu quisesse alguém que soubesse línguas, entregava as traduções ao porteiro do Avenida Palace, que sabia oito idiomas, só não sabia era português. Mas também preferia os escritores porque gostavam do que traduziam, traduziam por gosto.” E pagava bem as traduções, não se esquecendo de, em cada reedição, enviar um cheque, tanto a tradutores como capistas, no valor de um terço dos honorários iniciais» («O último livro da Ulisseia s. f. f.», Catarina Portas, Público/P2, 1.12.2008, p. 9. Texto na íntegra aqui).

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