Género de «jeans»

Trans

      «Era alto, o que o fazia parecer ainda mais magro, as jeans ficavam-lhe largas nas pernas compridas e tinha as mãos, esguias, elegantes e ossudas apoiadas, de palmas para cima, nos joelhos» (Doris Lessing. O Sonho mais Doce. 2.ª edição. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues. Lisboa: Editorial Presença, 2007, p. 23). «Estava bonito, com uma camisa muito fashion, às listras coloridas, jeans rasgadas nos joelhos» (As Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa. Revisão de Fernanda Abreu. 3.ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 115).
      Os dicionários, contudo, registam o género masculino. «Punha lacinho e camisa rendada por baixo de um casaco de marca, mas com jeans comprados invariavelmente na loja da Union Square, sendo os outros, segundo ele, falsificações baratas, indignos de um talentoso informático» (Pepetela. O Terrorista de Berkeley, Califórnia. 2.ª edição. Revisão de Rui Viana Pereira. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 13).

Recensão

Quatro estrelas

      Quem é que não aprende com as críticas literárias? Bem, muita gente. Hoje trago um exemplo de crítica (um excerto, na realidade, a crítica na íntegra pode ler-se aqui) que tem utilidade para leitores, tradutores e revisores. Infelizmente, não abundam os exemplos de críticas assim, pois é mais fácil colar meia dúzia de frases da própria obra, duas citações, e já está.
      «Nota: É uma pena que a edição portuguesa do livro de Robert Fisk tenha tantas falhas de tradução e revisão. Dois exemplos graves: confundir a cidade de Hama, na Síria, onde as forças sírias de Hafez al-Assad massacraram mais de 20 mil pessoas em 1982, com o movimento islâmico palestiniano Hamas (p. 213); dizer que a grande diva árabe Umm Kulthoum é “um cantor egípcio” (p. 421) — para quem não sabe que “Umm” significa, em árabe, “mãe de…”, uma busca no Google evitaria isso. Também o primeiro-ministro israelita, em 1990, é Ytzhak Shamir e não Ytzhak Rabin, como está na página 387. Depois, temos “montes Golãs” em vez de Montes Golã, “Cúpula da Rocha” em vez de Cúpula do Rochedo. E porquê escrever “Ramalá” e “Ramallah”? A ânsia de aportuguesar as palavras (chariá, xador, burca...) é uma irritante obsessão. Se optaram por “mulá”, então por que deixaram “mawlawi”, o plural de “mawla”, termo árabe de que deriva o persa “mullah”? E já agora outro esclarecimento: não há “mujahedines” nem “ulemas”, porque “mujahedin” é o plural de “mujahid” (combatente) e “ulema” é plural de “ulama”. A lista é longa, infelizmente» («As guerras de Fisk», Margarida Santos Lopes, recensão da obra A Grande Guerra pela Civilização, de Robert Fisk. Edições 70, tradução de Victor Silva e Miguel Mata. Público/Ípsilon, 5.12.2008, p. 44).
      Algumas observações. Na verdade, não é montes Golãs nem Montes Golã, mas montes Golã. Mawlawi, a par de mulá, é lamentável. Mujahedines (e mujahidines) foi a grafia corrente durante muito tempo na imprensa portuguesa. Actualmente, vê-se mais mujaidines, aportuguesamento mais coerente. Há muitos anos que se usa ulemá/ulemás na língua portuguesa.

Locuções adverbiais

Na verdade

Confirmo tudo, cara Luísa Pinto: «com certeza» é assim que se escreve, razão por que pode ser classificada como locução, e adverbial porque equivale, funciona como advérbio — certamente, por exemplo. Mas compreendo a sua perplexidade, quando leio esta definição: «As locuções adverbiais — o núcleo é um advérbio: Ela a cada passo vem visitar-me» (Olívia Maria Figueiredo e Eunice Barbieri de Figueiredo. Dicionário Prático para o Estudo do Português. Porto: Asa Editores, 2003, p. 277). Os autores de prontuários e de gramáticas deviam explicar que os termos desempenham, nas referidas locuções, a função de advérbios — não são advérbios.

Orações interrogativas indirectas

Podia ser, mas outra coisa seria

«— A Margaret pergunta o que está a fazer?» (O Sonho mais Doce, Doris Lessing. 2.ª ed. Editorial Presença, 2007, p. 250. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues). É com alguma frequência que vejo este erro, que já aqui referi uma vez, nas traduções que revejo. No caso, grave é encontrá-lo numa obra publicada. Dupla falha: da tradutora e do revisor.
As orações subordinadas interrogativas indirectas são introduzidas por um verbo transitivo de sentido interrogativo (na frase em apreço, perguntar) e terminam com um ponto final. Apenas as interrogativas directas, bem como as interrogativas de eco, terminam com um ponto de interrogação. Nos cursos de Tradução aborda-se esta questão, que, de elementar, é esquecida até pelos melhores tradutores.

«Passatempo»: aglutinada ou justaposta?

E agora?

      Um grupo de alunos escreveu-me para me comunicar que no livro de exercícios Oficina de Gramática, para o 2.º Ciclo, da autoria de Ermelinda S. Silva et al. (3.ª ed., Edições Asa, 2004), o adoptado na escola, na ficha relativa à formação de palavras da página 145 se pede que o aluno encontre, num conjunto de palavras, aquela que não é composta por justaposição. O conjunto inclui: passatempo, arroz-doce, guarda-sol, papa-formigas e fidalgo. Na página 205, as soluções dão «fidalgo» como sendo a única palavra que não é formada por justaposição. Até aqui, tudo bem. O pior é que o manual adoptado, Novo Português em Linha, de Maria do Céu Vieira Lopes e Dulce Neves Rola (5.ª ed., Plátano Editora, 2007), também numa ficha informativa, na página 80, inclui a palavra «passatempo» (a par de outras, como aguardente, malmequer e planalto) entre as que são formadas por aglutinação. Quid juris?
      A primeira dificuldade na análise poderá ser o facto de o vocábulo não ter hífen. Se o tivesse, estaríamos inequivocamente perante um vocábulo formado por justaposição, já que nenhum composto por aglutinação se escreve com hífen. Contudo, «passatempo» não tem hífen, pelo que tanto poderia ser formado por justaposição como por aglutinação. Nos vocábulos formados por aglutinação, verificam-se algumas alterações ortográficas nas palavras unidas e o acento tónico apenas se mantém na última. Nos vocábulos formados por justaposição, os constituintes mantêm a integridade fonológica. Logo, o vocábulo «passatempo» inclui-se entre estes últimos.

Tradução: «ranchito»

Bem instalados

Agora imaginem que se lia isto no original: «Los ranchitos de los suburbios de Caracas o las favelas de Río eran casas de ricos comparadas con los tugurios de un barrio pobre de Adís Abeba o Nairobi.» Um tradutor inexperiente e desatento traduziria assim: «As quintinhas dos subúrbios de Caracas ou as favelas do Rio eram casas de ricos comparadas com os tugúrios de um bairro pobre de Adis-Abeba ou Nairobi.» Os ranchitos, na realidade, são bairros-de-lata nos arredores de Caracas, na Venezuela. Já vi muito pior do que isto em traduções de livros.

Interjeição «ó»

Ó rapariga….

Ao entrar numa biblioteca e ver o livro Ruca Tem Medo de Crescer (adaptado e traduzido por Sara Costa e publicado em 2007 pela Asa Editores), a minha filha começou a trautear a música da série televisiva. Pôs-se a folhear o livro. Por curiosidade, acompanhei-a nessa descoberta. Ao contrário do que devia ser, estes livros são muitas vezes escritos com os pés. É o caso. Numa página, lê-se: «Ó, não! Também a Sara a falar de ficar mais velha! E ainda por cima parece estar feliz com isso.» Sintacticamente, a interjeição ó integra sempre um vocativo. Onde está ele na frase citada, ó tradutora? Por outro lado, ó editor, então andamos a poupar na revisão, é?

Verbo «haver», de novo

Que paciência...

A jornalista Paula Silva, do 24 Horas, foi ler, para nos contar, o que escreveu Santana Lopes de Marcelo Rebelo de Sousa no seu blogue. Já no fim da peça, escreve a jornalista: «Sobre as faltas dos deputados do PSD, na passada sexta-feira, nas votações no Parlamento, Santana pergunta quantas faltas terão havido no tempo de Marcelo» («Santana atira-se a Marcelo», 24 Horas, 9.12.2008, p. 11). Mas não: ainda que Pedro Santana Lopes não escreva em português recomendável, não perguntou com essas precisas palavras, o erro crasso é da plumitiva: tivesse escrito «terá havido» e não estaria eu aqui. Uma jornalista….

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