Orações interrogativas indirectas

Podia ser, mas outra coisa seria

«— A Margaret pergunta o que está a fazer?» (O Sonho mais Doce, Doris Lessing. 2.ª ed. Editorial Presença, 2007, p. 250. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues). É com alguma frequência que vejo este erro, que já aqui referi uma vez, nas traduções que revejo. No caso, grave é encontrá-lo numa obra publicada. Dupla falha: da tradutora e do revisor.
As orações subordinadas interrogativas indirectas são introduzidas por um verbo transitivo de sentido interrogativo (na frase em apreço, perguntar) e terminam com um ponto final. Apenas as interrogativas directas, bem como as interrogativas de eco, terminam com um ponto de interrogação. Nos cursos de Tradução aborda-se esta questão, que, de elementar, é esquecida até pelos melhores tradutores.

«Passatempo»: aglutinada ou justaposta?

E agora?

      Um grupo de alunos escreveu-me para me comunicar que no livro de exercícios Oficina de Gramática, para o 2.º Ciclo, da autoria de Ermelinda S. Silva et al. (3.ª ed., Edições Asa, 2004), o adoptado na escola, na ficha relativa à formação de palavras da página 145 se pede que o aluno encontre, num conjunto de palavras, aquela que não é composta por justaposição. O conjunto inclui: passatempo, arroz-doce, guarda-sol, papa-formigas e fidalgo. Na página 205, as soluções dão «fidalgo» como sendo a única palavra que não é formada por justaposição. Até aqui, tudo bem. O pior é que o manual adoptado, Novo Português em Linha, de Maria do Céu Vieira Lopes e Dulce Neves Rola (5.ª ed., Plátano Editora, 2007), também numa ficha informativa, na página 80, inclui a palavra «passatempo» (a par de outras, como aguardente, malmequer e planalto) entre as que são formadas por aglutinação. Quid juris?
      A primeira dificuldade na análise poderá ser o facto de o vocábulo não ter hífen. Se o tivesse, estaríamos inequivocamente perante um vocábulo formado por justaposição, já que nenhum composto por aglutinação se escreve com hífen. Contudo, «passatempo» não tem hífen, pelo que tanto poderia ser formado por justaposição como por aglutinação. Nos vocábulos formados por aglutinação, verificam-se algumas alterações ortográficas nas palavras unidas e o acento tónico apenas se mantém na última. Nos vocábulos formados por justaposição, os constituintes mantêm a integridade fonológica. Logo, o vocábulo «passatempo» inclui-se entre estes últimos.

Tradução: «ranchito»

Bem instalados

Agora imaginem que se lia isto no original: «Los ranchitos de los suburbios de Caracas o las favelas de Río eran casas de ricos comparadas con los tugurios de un barrio pobre de Adís Abeba o Nairobi.» Um tradutor inexperiente e desatento traduziria assim: «As quintinhas dos subúrbios de Caracas ou as favelas do Rio eram casas de ricos comparadas com os tugúrios de um bairro pobre de Adis-Abeba ou Nairobi.» Os ranchitos, na realidade, são bairros-de-lata nos arredores de Caracas, na Venezuela. Já vi muito pior do que isto em traduções de livros.

Interjeição «ó»

Ó rapariga….

Ao entrar numa biblioteca e ver o livro Ruca Tem Medo de Crescer (adaptado e traduzido por Sara Costa e publicado em 2007 pela Asa Editores), a minha filha começou a trautear a música da série televisiva. Pôs-se a folhear o livro. Por curiosidade, acompanhei-a nessa descoberta. Ao contrário do que devia ser, estes livros são muitas vezes escritos com os pés. É o caso. Numa página, lê-se: «Ó, não! Também a Sara a falar de ficar mais velha! E ainda por cima parece estar feliz com isso.» Sintacticamente, a interjeição ó integra sempre um vocativo. Onde está ele na frase citada, ó tradutora? Por outro lado, ó editor, então andamos a poupar na revisão, é?

Verbo «haver», de novo

Que paciência...

A jornalista Paula Silva, do 24 Horas, foi ler, para nos contar, o que escreveu Santana Lopes de Marcelo Rebelo de Sousa no seu blogue. Já no fim da peça, escreve a jornalista: «Sobre as faltas dos deputados do PSD, na passada sexta-feira, nas votações no Parlamento, Santana pergunta quantas faltas terão havido no tempo de Marcelo» («Santana atira-se a Marcelo», 24 Horas, 9.12.2008, p. 11). Mas não: ainda que Pedro Santana Lopes não escreva em português recomendável, não perguntou com essas precisas palavras, o erro crasso é da plumitiva: tivesse escrito «terá havido» e não estaria eu aqui. Uma jornalista….

Tripla adjectivação

3-adjectivos-3

Tarde tórrida de Maio. Liceu Nacional de Bissau. Numa turma, vários grupos estão enfronhados na estatística (há muitas maneiras de desviar os alunos do gosto da leitura) da adjectivação tripla num conto de Sophia de Mello Breyner Andresen. Uma, duas, três… trinta. «O nevoeiro da noite ainda não se tinha levantado e tudo estava envolvido numa grande nuvem branca e suspensa.»
Manhã chuvosa de Dezembro. Lisboa. «Oh! A coçada carreirinha dos três adjectivos a rabejarem ou a apilararem o substantivo, anjinhos de procissão a repuxarem o manto da Verónica, ou tocando corneta à frente! Os fatalíssimos três adjectivos, foguetes de três respostas em orago sertanejo! “Soava o sino da ermida, plangente, choroso e triste!”» (Tomaz de Figueiredo. Procissão dos Defuntos. 2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 217).

Acordo Ortográfico

Arthur Conan Doyle. O Atleta Desaparecido.
Lisboa: Livraria Editora Guimarães & C.ª, 1934

Fahrenheit 451


Se fosse, e outros antes de mim o tivessem sido, catastrofista e tonto, o livro de que reproduzo acima uma página não teria sobrevivido aos acordos ortográficos. Tezouro, vêr, pôço, sêco, êle, fôrça, fôra, hombro não impedem, nem pouco mais ou menos, uma leitura corrente. A propósito: já fui contratado por duas editoras para, já em Janeiro, rever duas obras segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Era como eu aqui facilmente predizia: enquanto os teóricos vão argumentando do bem ou mal fundado das alterações, os revisores são os primeiros a ter de estudar e aplicar as novas regras.

Plural de «cidadão»

Imagem: http://www.overmundo.com.br/

Podia belamente ser

De vez em quando oiço na rádio, e se fosse precaucioso já aqui teria deixado os nomes dos prevaricadores, alguém dizer «cidadões». Agora leio isto na Procissão dos Defuntos, de Tomaz de Figueiredo: «Andou o processo asinha, e já a 29 de Fevereiro de 1836 era extraído o júri, doze cidadões, consoante o escrivão asneou, ou então eu asneio, com o reparo, se a formação desse plural era ao tempo correcta, o que pode belamente ser» (2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 136).
Em relação aos vocábulos em -ão, temos uma só forma no singular e três formas no plural, o que é sumamente confuso. O ideal seria termos apenas um plural — em -ões, por exemplo, de longe o mais produtivo. Contudo, não foi esta a evolução da língua.

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