Tripla adjectivação

3-adjectivos-3

Tarde tórrida de Maio. Liceu Nacional de Bissau. Numa turma, vários grupos estão enfronhados na estatística (há muitas maneiras de desviar os alunos do gosto da leitura) da adjectivação tripla num conto de Sophia de Mello Breyner Andresen. Uma, duas, três… trinta. «O nevoeiro da noite ainda não se tinha levantado e tudo estava envolvido numa grande nuvem branca e suspensa.»
Manhã chuvosa de Dezembro. Lisboa. «Oh! A coçada carreirinha dos três adjectivos a rabejarem ou a apilararem o substantivo, anjinhos de procissão a repuxarem o manto da Verónica, ou tocando corneta à frente! Os fatalíssimos três adjectivos, foguetes de três respostas em orago sertanejo! “Soava o sino da ermida, plangente, choroso e triste!”» (Tomaz de Figueiredo. Procissão dos Defuntos. 2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 217).

Acordo Ortográfico

Arthur Conan Doyle. O Atleta Desaparecido.
Lisboa: Livraria Editora Guimarães & C.ª, 1934

Fahrenheit 451


Se fosse, e outros antes de mim o tivessem sido, catastrofista e tonto, o livro de que reproduzo acima uma página não teria sobrevivido aos acordos ortográficos. Tezouro, vêr, pôço, sêco, êle, fôrça, fôra, hombro não impedem, nem pouco mais ou menos, uma leitura corrente. A propósito: já fui contratado por duas editoras para, já em Janeiro, rever duas obras segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Era como eu aqui facilmente predizia: enquanto os teóricos vão argumentando do bem ou mal fundado das alterações, os revisores são os primeiros a ter de estudar e aplicar as novas regras.

Plural de «cidadão»

Imagem: http://www.overmundo.com.br/

Podia belamente ser

De vez em quando oiço na rádio, e se fosse precaucioso já aqui teria deixado os nomes dos prevaricadores, alguém dizer «cidadões». Agora leio isto na Procissão dos Defuntos, de Tomaz de Figueiredo: «Andou o processo asinha, e já a 29 de Fevereiro de 1836 era extraído o júri, doze cidadões, consoante o escrivão asneou, ou então eu asneio, com o reparo, se a formação desse plural era ao tempo correcta, o que pode belamente ser» (2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 136).
Em relação aos vocábulos em -ão, temos uma só forma no singular e três formas no plural, o que é sumamente confuso. O ideal seria termos apenas um plural — em -ões, por exemplo, de longe o mais produtivo. Contudo, não foi esta a evolução da língua.

Talvez + indicativo?

Mas há


      Sim, caro M. L., o advérbio «talvez» impõe o uso de uma forma verbal no modo conjuntivo, mas na literatura encontram-se inúmeros exemplos em que é usado o modo indicativo, e em autores de grande valia, como o deste exemplo que aqui deixo: «Ainda agora ignorava porquê: talvez supunham que abusava de se ver já senhora das suas acções em tão pouca idade» (Tomaz de Figueiredo. Procissão dos Defuntos. 2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 42).


Uso da maiúscula

Inexplicável

      No que diz respeito ao uso da maiúscula inicial, fico sempre espantado quando vejo nas traduções disparates como grafar com minúscula o nome de uma instituição ou associação. Recorrente é, por exemplo, escrever «partido comunista». Lê-se no original, suponhamos: «The CIA had had its hands full fighting off a Communist insurgency in Greece, while in Italy the Communist Party had come within a whisker of electoral triumph.» Sai isto: «A CIA tinha combatido com dificuldade uma insurreição comunista na Grécia, enquanto na Itália o partido comunista estivera a um passo da vitória eleitoral.» Será um caso de primarismo ortográfico ou político?

Elisões e revisores

Como é?

      A revista Visão (edição n.º 816, 23 a 29.10.2008, pp. 118-24) foi ouvir António Lobo Antunes e Gonçalo M. Tavares a conversar. A jornalista, Sara Belo Luís, fez, e ela própria o confessa, figura de corpo presente. Esteve lá, mas apenas para gravar a conversa. Disse Gonçalo M. Tavares: «Os verbos que não estão são os que não fazem falta. Lembro-me de uma discussão com um revisor por causa de uma elisão. Mas para quê? Estar lá era apenas uma forma de mostrar que eu sabia que o correcto era estar. Não acrescentava nada.»
      A observação parece supinamente inteligente — mas sê-lo-á? Vejamos. Desconheço a frase em causa (e nunca discuto com autores), mas se se tratar, suponhamos, de uma frase com elisão do verbo, isso é perfeitamente gramatical: são as chamadas frases nominais. Se se tratar, por outro lado, de evitar a repetição de um verbo, isso também é gramatical, é correcto. Experimentemos com esta frase de João de Araújo Correia: «Não dava esmola nem sequer os bons-dias a ninguém, mas, era capaz de jejuar dias a fio para acender uma vela no altar de Nossa Senhora do Carmo» (Contos Bárbaros. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 85). Suponhamos agora que um revisor atoleimado, que os há, queria enfiar ali à fina força um verbo. Assim: «Não dava esmola nem sequer dava os bons-dias a ninguém, mas, era capaz de jejuar dias a fio para acender uma vela no altar de Nossa Senhora do Carmo.» Pobre literatura, pobre autor. Adeus, zeugma.

«Paçal» e «passal»

Elucidados estamos


      Isso de Lousal se grafar assim ou com z tem muito que se lhe diga. Quanto a José Pedro Machado, citado como argumento de autoridade, cuidado. Lembro-me sempre que na página 275 do tomo VIII do Grande Dicionário da Língua Portuguesa se lê paçal: «Terra à margem, anexa ao presbitério, paço ou casa paroquial.» Contudo, na página 453 do mesmo tomo lê-se passal: «Recinto ou terra de horta junto das igrejas paroquiais, que servia para horta, pomar e logradouro dos párocos, curas ou capelães.» Nenhum dos verbetes tem remissões para o outro. Como é então: paçal ou passal? Aqui, falhou como dicionarista e como etimologista. Em nenhum outro dicionário encontro registado «paçal». Mesmo na literatura, só passal, como no conto «O Doutor Hermenegildo», de João de Araújo Correia: «Foram até o largo da igreja. À sombra do templo, aninhava-se uma casinha branca de sobrado e loja. Era o passal» (Contos Bárbaros. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 35).

Sobre «salvamento»

Salve

      É curioso que o plano para o BPP (Banco Privado Português) seja de salvamento e não de salvação. Alguém disse, e pegou de raiz. Há, actualmente, uma notória preferência pelas formas curtas. Tanto é assim, que, por vezes, as pessoas até se/me perguntam se determinados substantivos têm a forma em -mento. Na imprensa, vejo «ajustes» e «reajustes», em detrimento de «ajustamentos» e «reajustamentos». De resto, por todo o lado se vêem governos de salvação nacional, não pela salvação da nossa alma, mas pela salvação da Democracia e da Liberdade, bastas vezes mais palavras do que conceitos a que os políticos se agarram como a pessoalíssimas tábuas de salvação. Outras vezes, são juntas de salvação. No Exército de Salvação, muitos encontram autênticas bóias de salvação, e, se tiverem sido marinheiros, coletes de salvação. Na Salvation Army da Tenison Road, Cambridge, tenho eu encontrado bons livros por tuta-e-meia (não por uns pénis, pois não vou por ), salvatério para muitas horas.

 

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