Emendas a vermelho

Imagem: De Vinne, T. L. : The invention of printing. London, 1877

A cor que impressiona



      Talvez venha desta prática o uso ainda hoje das emendas a vermelho: «Os primeiros livros impressos continham poucas faltas, graças ao cuidado e à instrução dos tipógrafos, secundados, além disso, pelos filólogos que assinalaram a época do Renascimento. As gralhas eram corrigidas à mão pelo impressor, e semelhante método praticaram [Ulrich] Gering, em Paris, e [William] Caxton, em Inglaterra, que corrigiam à pena e em tinta encarnada as faltas de impressão que haviam cometido» (Manuel Pedro (Pai). Correcção de Provas Tipográficas. Porto, 1973, p. 41). O impressor alemão Gering, com oficina em Paris, foi o prototipógrafo que, juntamente com Martin Crantz e Michael Friburger, introduziu os tipos romanos, embora ainda híbridos, que tiveram em Aldo Manutio o grande divulgador.

Tradução: «Jap»


Pura coragem

      O que é preciso é coragem. Substantivo e adjectivo, Jap entrou no inglês no final do século XIX, habitualmente com sentido depreciativo, para designar os Japoneses. Em português, porém, não temos um termo correspondente. Temos para chinês, por exemplo. Na tradução de Mere Anarchy, de Woody Allen, Jorge Lima inovou: «O que se passa é que eu desencantei um génio desconhecido que cozinha canções-sucesso como os japos vomitam Toyotas» (Lisboa: Gradiva, 2007, p. 98).

Actualização em 28.12.2008

      «Japonoca», que foi sugerido nos comentários, foi usado no filme Momento da Verdade 3 (The Karate Kid III, no original), com tradução de Ana Cristina Ferreira.

Pronúncia

Assim, rimo-nos nós


      Se fosse vivo e ouvisse José Hermano Saraiva pronunciar «crònista», João de Araújo Correia fartar-se-ia de rir. «Sustentar, à fina força, na palavra derivada, a pronúncia da palavra primitiva é incomodar a prosódia da língua portuguesa» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959]).

Abuso de estrangeirismos

Para fugir


      O fascínio pelos estrangeirismos continua a deixar às escuras os leitores da imprensa. Tome-se este excerto de uma notícia («Outro leilão e é oficial: a arte está em crise», Inês Nadais, 8.11.2008, p. 21) do Público: «O mercado da arte moderna e contemporânea voltou a dormir mal, ontem, depois de mais um leilão em underacting na Christie’s de Nova Iorque: a leiloeira vendeu, mas não vendeu tanto como esperava, tendo ficado 100 milhões de dólares (cerca de 77 milhões de euros) abaixo da fasquia, já de si muito defensiva, estipulada em função das obras incluídas no lote.»
      Para os leitores, e são milhares, que não sabem o que significa underacting, e para os quais estar lá underacting ou Unterspielend é rigorosamente igual, é um desrespeito. Estrangeirismos, sim, mas os estritamente necessários, e estes, se não forem muito conhecidos, explicados. Não me parece uma regra difícil de compreender nem de aplicar.
      Mas o fascínio chega a isto: usarem-se palavras estrangeiras que não interessam ao leitor. Ou melhor: que não adiantam nem atrasam. Decorativas. Um exemplo de hoje: «De acordo com o Centro Marree de Veneza (Centro das Marés), as águas subiram mais de metro e meio, alimentadas pelas chuvas e empurradas pelo vento que afectam toda a Itália. Mais de 95% do centro histórico da cidade dos canais ficou inundado na que foi considerada a maior acqua alta (cheia) desde 1986» («Veneza vive piores cheias em 22 anos», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 2.12.2008). Muito bonito, sim senhores. E se a mim, como leitor, me interessar muito mais como se diz barco em italiano, para poder fugir?

Fazer alto e parar

Mas vendo bem


      Fiquei surpreendido com o número de vezes que Silveira de Mascarenhas, na tradução de A Study in Scarlet, escreve «fazer alto». Escavei na memória e, que me lembre, só em livros que li na passagem da infância para a adolescência li tal locução. Na página 101, por exemplo, lê-se: «Ao chegarem ao sopé do monte escarpado, fizeram alto e entretiveram um breve conselho.» No original, lia-se: «On reaching the base of the bluff they halted, and held a short council among themselves.» Não duvido, contudo, da vernaculidade, pois também li recentemente no conto «Perdão» de João de Araújo Correia: «O director de montaria, chegando a uma clareira, fez alto» (Contos Bárbaros. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 132). E no romance Procissão dos Defuntos, de Tomaz de Figueiredo (2.ª edição. Lisboa: Editorial Verbo, 1967, p. 34): «De longe em longe a cavalgada fazia alto, e logo as duas botavam as cabeças aterradas fora da liteira.»

A propósito de «manif», de novo

E ainda

      Faltou dizer algo importante sobre a redução vocabular «manif», que abordei aqui. Sim, senhores, é palavra plena e não abreviatura, como o Diário de Notícias grafou, mas — e a flexão em número? Não será manif/manifs, claro. (Nem será, caro Fernando, prof/profs.) Vamos lá afeiçoá-las ao português: manife, profe. Agora sim, podemos pluralizá-las correctamente: manifes, profes. É a opção do Expresso. Será a opção de muitas pessoas a partir de hoje.

Sobre o vocábulo «alerta»

De sobreaviso


      No programa Os Dias do Futuro de sábado passado, na Antena 1, Rosa Duran, astrónoma, professora universitária e fundadora do Núcleo Interactivo de Astronomia (NUCLIO), disse: «O que eu sugiro às pessoas é que fiquem alertas ao nosso site e vejam aquilo que nós vamos promover ao longo do ano e que participem, participem em tudo o que vai ser disponibilizado no Ano Internacional da Astronomia, não só do NUCLIO, mas de todas as associações, todas as instituições que vão celebrar essa festa, não é?» Errado. O vocábulo alerta, nesta frase, é invariável, porque é um advérbio. Fiquem alerta.

Tradução: «mantelpiece»

Imagem de cornija da lareira: http://karolinescorner.blogspot.com/

Nunca antes



      Ontem acabei por ir ler Um Estudo em Vermelho na íntegra. A edição, já sabem, é a da colecção «9 mm», do Público, e o tradutor Silveira de Mascarenhas. Em diversos trechos da obra se refere a «escarpa da lareira». «Diante da porta havia uma lareira pretensiosa, cuja escarpa imitava o mármore branco», lê-se, por exemplo, na página 39. Também a tradução de Hamílcar de Garcia se refere à «escarpa da lareira». Procurei no original (ler ou ouvir) a palavra que se pretendia traduzir com o termo «escarpa», que, confesso, nunca tinha lido ou ouvido referido a qualquer elemento de uma lareira. «Opposite the door was a showy fireplace, surmounted by a mantelpiece of imitation white marble.» Mantelpice, então. Sempre vi a palavra traduzida por «lintel» ou «cornija», e é essa a designação correcta. Arthur Conan Doyle agradeceria.


Actualização em 23.05.2010


      «Não ia à sala de estar havia mais de uma semana e agora deambulava pelo espaço enorme, examinando quadros e fotografias como que pela primeira vez, passando uma das mãos sobre os móveis e apanhando objectos do lintel da lareira» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, pp. 151-52).


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