«Candahar»?

Porque não?


      Caro M. L. Bem, não sei o que está na edição dos Livros do Brasil (de 1985), mas no volume da colecção «9 mm», do Público, e o tradutor é o mesmo, Silveira de Mascarenhas, lê-se «Candahar». «Tomei o mesmo caminho, com muitos outros oficiais que estavam em idêntica situação, e consegui chegar são e salvo a Candahar, onde encontrei a minha unidade e imediatamente assumi as novas funções» (p. 7). Agradam-me mais certas opções de tradução de Hamílcar de Garcia, o tradutor brasileiro (cuja tradução pode ler aqui). Digo-lhe apenas isto: se vejo também em inglês Candahar, por que diabo não escrevemos assim em português? Como revisor, pelo menos, não altero. Em qualquer dos casos, estamos de acordo, nenhum leitor deixará de saber a que cidade se refere o oficial-médico Dr. John H. Watson.

Sobre «director»

Nem mais


      Pouco há, falei aqui do uso do vocábulo «dirigente» numa acepção que me pareceu pouco comum. Leio agora no conto «Perdão», que faz parte dos Contos Bárbaros de João de Araújo Correia, a seguinte frase: «O director de montaria, chegando a uma clareira, fez alto» (Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 132). É o mesmo, pois director também é o indivíduo que organiza uma qualquer tarefa.

 

Ortografia: «bem-cheiroso»

Pura anarquia? Não!


      Escreve-se mesmo assim, cara Olga Pereira. Estou a ler o livro de contos Pura Anarquia, de Woody Allen (publicado pela Gradiva em 2007, com tradução de Jorge Lima). Um dos contos intitula-se «Sam, fizeste as calças demasiado bem-cheirosas». Chega lá por analogia, que não por estar registado em nenhum dicionário, e por se considerar que há unidade semântica, como em «bem-falante», bem-comportado», etc.

«Tratar-se de», outra vez

Tratem-se


      O Centro Nacional de Cultura (CNC), com o apoio do Alto-Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI), lançou o Guia da Lisboa Intercultural, o que motivou uma reportagem da Antena 1. A repórter Lídia Cristo entrevistou ontem Helena Gelpi, Coordenadora de equipa do ACIDI a propósito desta publicação, que pretende dar a conhecer a presença das diversas comunidades de imigrantes residentes em Lisboa e é de distribuição gratuita. A jornalista quis resumir, pragmática mas agramaticalmente, o alcance da obra: «Tratam-se de sugestões para conhecer melhor a cidade, é isso?» Uma jornalista a falar assim…
      A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular.

Sintaxe e elisão

Em bom português


      Caro Luís Ferreira, a sintaxe da frase que me cita é bem portuguesa. João de Araújo Correia, contista de primeira plana, por vezes purista extremado, escreveu no conto «Milagre»: «Se tivesse morrido, bem regalado devia estar, à banda de cima das nuvens, com sol do melhor e bons manjares celestes, enquanto os terrianos, de molhados, começavam a criar barbatanas de robalo» (Contos Bárbaros. João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 17). Cá está: «de molhados», com elisão do verbo, como quem diz «de molhados que estavam».

Bombaim e Mumbai

O Público espanhol escreve «Bombay». Quem é provinciano?

Só à bomba



      O jornal espanhol El País titula «Liberado uno de los dos hoteles asaltados en Bombay». O El Mundo, por seu lado, titula: «La policía de Bombay controla ya uno de los hoteles y libera a rehenes». Em França, o Le Monde escreve «Bombay : la situation des otages demeure confuse». O Le Express escreve: «Situation confuse à Bombay». Os nossos cosmopolitas jornalistas, temendo que os leitores espanhóis e franceses não compreendam, acham necessário escrever ou dizer que se trata «da antiga Bombaim», ou, pior ainda, escrevem ou dizem Mumbai. Isto é provincianismo.

«De escantilhão»

Pelo contrário


      «Talvez o mundo volte a entrar na ordem, passados os sobressaltos do Verão e do começo do Outono. Com a invasão da Geórgia pela Rússia em Agosto e a queda de escantilhão das bolsas a seguir, os profetas da desgraça excitaram-se» («A lua-de-mel de São Barack Obama», José Cutileiro, Expresso, 22.11.2008, p. 34). De escantilhão, ou seja, de roldão, em tropel, precipitadamente. Sai do mais prosaico, ou não se tratasse do mesmo autor dos Bilhetes de Colares, sob o pseudónimo de A. B. Kotter. Mas, para mim, é sobretudo o autor de Ricos e Pobres no Alentejo (Uma Sociedade Rural Portuguesa) (Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1977, com reedição em 2004 dos Livros Horizonte), um dos livros que mais me impressionaram, e não é literatura. Ver este vídeo.

Português na Administração Pública


Bons exemplos     



      Soube, através do Enxuto, que no passado dia 18 se realizou um seminário intitulado «Simplificar a comunicação na administração pública», organizado pelo Instituto Nacional de Administração e pela empresa Português Claro. O autor do Enxuto, Miguel R. M., participou e apreciou em especial a comunicação de Caroline Jarrett, que mostrou o que os Ingleses têm feito neste domínio nos últimos anos. E eles são pioneiros. No Reino Unido, há mesmo uma organização, fundada em 1979, cujo objectivo é o de promover uma linguagem chã e clara na comunicação da Administração Pública e das empresas privadas com o público. É a Plain English Campaign, que tem como logótipo um cristal, símbolo da limpidez, da transparência. No sítio desta organização podemos encontrar um documento muito interessante («How to write in plain English», para descarregar aqui) que dá directrizes sobre como escrever num inglês compreensível.
      Já que em Portugal se copiam tantas iniciativas estrangeiras, algumas bastantes duvidosas, porque não copiamos esta, verdadeiramente meritória?

Arquivo do blogue