«Tratar-se de», outra vez

Tratem-se


      O Centro Nacional de Cultura (CNC), com o apoio do Alto-Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI), lançou o Guia da Lisboa Intercultural, o que motivou uma reportagem da Antena 1. A repórter Lídia Cristo entrevistou ontem Helena Gelpi, Coordenadora de equipa do ACIDI a propósito desta publicação, que pretende dar a conhecer a presença das diversas comunidades de imigrantes residentes em Lisboa e é de distribuição gratuita. A jornalista quis resumir, pragmática mas agramaticalmente, o alcance da obra: «Tratam-se de sugestões para conhecer melhor a cidade, é isso?» Uma jornalista a falar assim…
      A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular.

Sintaxe e elisão

Em bom português


      Caro Luís Ferreira, a sintaxe da frase que me cita é bem portuguesa. João de Araújo Correia, contista de primeira plana, por vezes purista extremado, escreveu no conto «Milagre»: «Se tivesse morrido, bem regalado devia estar, à banda de cima das nuvens, com sol do melhor e bons manjares celestes, enquanto os terrianos, de molhados, começavam a criar barbatanas de robalo» (Contos Bárbaros. João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 17). Cá está: «de molhados», com elisão do verbo, como quem diz «de molhados que estavam».

Bombaim e Mumbai

O Público espanhol escreve «Bombay». Quem é provinciano?

Só à bomba



      O jornal espanhol El País titula «Liberado uno de los dos hoteles asaltados en Bombay». O El Mundo, por seu lado, titula: «La policía de Bombay controla ya uno de los hoteles y libera a rehenes». Em França, o Le Monde escreve «Bombay : la situation des otages demeure confuse». O Le Express escreve: «Situation confuse à Bombay». Os nossos cosmopolitas jornalistas, temendo que os leitores espanhóis e franceses não compreendam, acham necessário escrever ou dizer que se trata «da antiga Bombaim», ou, pior ainda, escrevem ou dizem Mumbai. Isto é provincianismo.

«De escantilhão»

Pelo contrário


      «Talvez o mundo volte a entrar na ordem, passados os sobressaltos do Verão e do começo do Outono. Com a invasão da Geórgia pela Rússia em Agosto e a queda de escantilhão das bolsas a seguir, os profetas da desgraça excitaram-se» («A lua-de-mel de São Barack Obama», José Cutileiro, Expresso, 22.11.2008, p. 34). De escantilhão, ou seja, de roldão, em tropel, precipitadamente. Sai do mais prosaico, ou não se tratasse do mesmo autor dos Bilhetes de Colares, sob o pseudónimo de A. B. Kotter. Mas, para mim, é sobretudo o autor de Ricos e Pobres no Alentejo (Uma Sociedade Rural Portuguesa) (Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1977, com reedição em 2004 dos Livros Horizonte), um dos livros que mais me impressionaram, e não é literatura. Ver este vídeo.

Português na Administração Pública


Bons exemplos     



      Soube, através do Enxuto, que no passado dia 18 se realizou um seminário intitulado «Simplificar a comunicação na administração pública», organizado pelo Instituto Nacional de Administração e pela empresa Português Claro. O autor do Enxuto, Miguel R. M., participou e apreciou em especial a comunicação de Caroline Jarrett, que mostrou o que os Ingleses têm feito neste domínio nos últimos anos. E eles são pioneiros. No Reino Unido, há mesmo uma organização, fundada em 1979, cujo objectivo é o de promover uma linguagem chã e clara na comunicação da Administração Pública e das empresas privadas com o público. É a Plain English Campaign, que tem como logótipo um cristal, símbolo da limpidez, da transparência. No sítio desta organização podemos encontrar um documento muito interessante («How to write in plain English», para descarregar aqui) que dá directrizes sobre como escrever num inglês compreensível.
      Já que em Portugal se copiam tantas iniciativas estrangeiras, algumas bastantes duvidosas, porque não copiamos esta, verdadeiramente meritória?

Léxico: «pruga»

Imagem: http://www.penpractice.com/

Tinta permanente




      O leitor L. S. está a traduzir um catálogo inglês sobre canetas de tinta permanente (fountain pens) e pretende saber se conheço algum termo em português que designe a fenda onde se introduz a pena metálica (nib) neste tipo de caneta. Por acaso, conheço (e até já me tinha passado pela cabeça, veja lá, que era um conhecimento inútil): pruga.

Tradução: «vocal»

O anglo-saxónico     


      Mário Crespo foi entrevistado para a Única (edição 1881, 15.11.2008, pp. 30-39). À pergunta sobre se costuma ter muito feedback, respondeu: «Tenho muito. Mas negativo. Com o Gualter Baptista, foi negativíssimo. Os grupos mais expressivos em termos políticos congregam comunidades muito vocais. São muito engraçados. Recebi uma chuva de mails por causa do Gualter.»
      Por sorte, o Expresso é muito mais comprado do que lido. A acepção do vocábulo «vocal» usada não existe em português. «Telling people your opinions or protesting about sth loudly and with confidence» (in Oxford Advanced Learner’s Dictionary). Vocal poderá traduzir-se, por exemplo, por «que se fazem ouvir»: «Os grupos mais expressivos em termos políticos congregam comunidades que se fazem ouvir.»

Modos de dizer

Mais uma

«José Castelo Branco surpreendeu mais uma vez tudo e todos ao aparecer, ontem, no Calor da Tarde, dentro do programa de Maya Contacto, na Sic, completamente loiro… e muito animado» («Loiro», Diário de Notícias, 21.11.2008, p. 55). É, tanto me é dado observar, a última moda entre alguns jornalistas: dizerem «dentro» quando uma simples preposição como «em», contraída com o artigo definido «o», desempenhava a mesma função. Já ouvi mais de uma vez na Antena 1, e, agora, vejo que alastrou aos jornais. Vai passar.

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